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O que é o cinema? – problema sem resposta

Na periferia do mundo desenvolvido, é preciso saber qual cinema queremos

Eduardo Escorel
30out2019_07h57

É fácil criticar as declarações recentes de Martin Scorsese e Francis Ford Coppola sobre a chamada máquina de blockbusters da Marvel Studios. Difícil é fazer filmes comparáveis aos desses dois diretores como, entre outros, Táxi Driver (1976), Touro Indomável (1980), A Época da Inocência (1993), O Poderoso Chefão, partes 1 e 2 (1972 e 1974) e A Conversação (1974).

Por outro lado, só mesmo quem tivesse credenciais equivalentes às de Scorsese e Coppola poderia contestar a franquia mais bem-sucedida da história do cinema – em dez anos, 23 filmes produzidos pela Marvel renderam cerca de 22 bilhões de dólares. Vingadores: Ultimato, lançado no final de abril, além de ótima crítica, rendeu 2,7 bilhões de dólares até setembro, sendo 69,3% no mercado externo. Desse total, cerca de 84 milhões de dólares foram obtidos no Brasil, onde o filme foi visto por 19 724 milhões de espectadores e chegou a ocupar mais de 2 700 (81%) das 3 300 salas de cinema existentes no país.

A ocupação periódica e avassaladora do mercado brasileiro é um fator, entre outros, que torna as declarações de Scorsese e Coppola interessantes para nós. Em especial neste momento em que o governo federal, após dez meses de omissão, ensaia os primeiros passos, ainda hesitantes, de uma política para o setor, havendo sinais claros nos últimos meses, e alguns recentes, de que pretende exercer censura e asfixiar a atividade aos poucos. Ou, conforme Ana Paula Sousa escreveu no jornal O Globo de sábado (26/10), “o governo Bolsonaro […] tende a transformar a Ancine e o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) em espelhos de sua visão política e de suas premissas econômicas”.

Scorsese declarou no início de outubro, na revista Empire, que não assiste aos filmes da Marvel. Admitiu ter tentado, “mas isso não é cinema” afirmou. “Honestamente”, disse ainda, “por mais bem-feitos que sejam, com atores fazendo o melhor possível levando em conta as circunstâncias [esses filmes] parecem parques temáticos. Não é o cinema de seres humanos tentando transmitir experiências emocionais e psicológicas para outro ser humano.”

Duas semanas depois, Coppola foi além: “Martin estava sendo gentil quando disse que não é cinema. Ele não disse que é ‘desprezível’. É isso que eu digo.”

A repercussão das declarações foi imediata. Embora respeitosa, em geral teve viés negativo e persistiu nas semanas seguintes. Um dos primeiros a se manifestar por meio de um post irônico foi James Gunn, diretor e co-roteirista de Guardiões da Galáxia (2014), produzido pela Marvel Studios e que obteve 56,9% de sua receita de 772 milhões de dólares no mercado externo: “Martin Scorsese é um dos meus cinco realizadores vivos preferidos. Eu fiquei indignado quando fizeram piquetes contra A Última Tentação de Cristo [dirigido por Scorsese e lançado em 1988] sem ter visto o filme. Estou entristecido por ele agora estar julgando meus filmes da mesma maneira.” Em outro post, Gunn voltou à carga, dessa vez meio mordaz: “Super-heróis são simplesmente os atuais gangsters/cowboys/aventureiros do espaço. Alguns filmes de super-heróis são horríveis, alguns são maravilhosos. Como westerns e filmes de gangster (e antes disso apenas FILMES), nem todo mundo será capaz de apreciá-los, até mesmo alguns gênios. E está bem assim.”

Houve também quem reagisse com bom senso ou certo humor. Falando ao The Hollywood Reporter, a atriz Natalie Portman disse “acreditar haver espaço para todos os tipos de cinema. Não há só uma maneira de fazer arte. Eu acho que os filmes da Marvel são tão populares por que são realmente divertidos e as pessoas querem entretenimento quando elas têm um momento de folga depois do trabalho, depois de lidar com as adversidades da vida real”.

O ator Samuel L. Jackson, por sua vez, disse à Variety que “isso [a declaração de Scorsese] equivale a dizer que o Pernalonga não é engraçado. Filmes são filmes. Nem todo o mundo gosta das coisas do Scorsese. Todo o mundo tem uma opinião. Então, quero dizer que está bem assim. [O que ele disse] não vai impedir ninguém de fazer filmes.”

Entre outras manifestações favoráveis a Scorsese a de Ken Loach se destaca: “Eles [os filmes da Marvel] são como commodities… como hambúrgueres. Trata-se de fazer uma mercadoria que dará lucro para uma grande corporação. Eles são um exercício cínico. São um exercício de mercado que não tem nada a ver com a arte do cinema.”

O cineasta, produtor de cinema, roteirista e ator norte-americano Martin Scorsese

 

Fica claro que a maior fragilidade da crítica de Scorsese foi negar que os blockbusters da Marvel sejam cinema. Ele poderia ter evitado a celeuma e comentado os filmes em outros termos caso tivesse lido as memórias de Jean Renoir (1894-1979), por quem sempre teve grande admiração, e lembrado da primeira frase do prefácio – “Tudo que se move na tela é cinema”. Na lista de 39 filmes que considera fundamentais Scorsese incluiu: A Grande Ilusão (1937) e A Regra do Jogo (1939), ambos de Renoir. E selecionou O Rio Sagrado (1951), do mesmo diretor, entre os dez melhores da Coleção Criterion – “um filme”, para Scorsese, “que, na verdade, é sobre a vida, um filme sem uma verdadeira história sobre o ritmo da existência, os ciclos de nascimento, morte e regeneração, e a beleza transitória do mundo”.

O parágrafo inicial de Ma Vie Et Mes Films (Flammarion, 1974, sem edição no Brasil) esclarece a primeira frase de Renoir e antecipa as restrições feitas a Scorsese: “Com frequência ouço a seguinte crítica: este filme é talvez muito interessante, mas não é cinema. Não vejo por que o uso de imagens animadas seria reservado ao melodrama tradicional ou às comédias burlescas. Um filme sobre geografia é tão cinema quanto Ben-Hur. Um filme que ensina o alfabeto às crianças é tão cinema quanto uma grande produção com pretensões psicológicas. Na minha opinião, o cinema não é nada mais do que uma nova maneira de imprimir. É uma forma de transformação total do mundo através do conhecimento. Louis Lumière é um novo Gutenberg. Deve-se à sua invenção tantas catástrofes quanto à difusão do pensamento através do livro” (fiz essas mesmas duas citações de Renoir aqui no site em 2012, no comentário sobre Isto Não É Um Filme, de Jafar Panahi).

Mais arguto do que Renoir e Scorsese, André Bazin deixou claro no prefácio da coletânea de artigos O Que É O Cinema?, publicada na França em 1959, que o título “não é a promessa de uma resposta, mas antes o enunciado de um problema que o autor vai se colocar ao longo destas páginas”. (Cosac Naify, 2014.)

Scorsese poderia ter se limitado a fazer a defesa do cinema que é do seu agrado como espectador e do gênero que gosta de fazer. De qualquer modo, envolvido no lançamento internacional de O Irlandês, seu novo filme, não demonstrou vontade de reconsiderar os termos da sua declaração, nem se manifestar sobre as reações negativas às críticas que fez aos filmes da Marvel.

Enquanto isso, porém, o debate não arrefeceu. Há uma semana (23/10), Owen Gleiberman, um dos dois críticos chefes da Variety, publicou uma longa coluna em que desde o título levanta a hipótese de os dois diretores terem razão – “Martin Scorsese e Francis Ford Coppola estão certos sobre a Marvel?” Os argumentos de Gleiberman, ora contra, ora a favor de Scorsese e Coppola, mudam a polêmica de patamar. As objeções, embora bem formuladas, são menos originais e interessantes do que as razões que o levam a pensar que eles “estão realmente certos”:

“[…] à sua maneira pretensiosa e insatisfeita – no-que-o-mundo-está-se-tornando? – ambos prestam um serviço incrível à cultura cinematográfica americana. Na minha maneira de ver, eles colocaram essa tese no centro do debate, apostando sua credibilidade em defesa de um argumento que desafia radicalmente o status quo. E, em vez de nos preocuparmos com eles, devemos todos fazer uma longa pausa e ouvir o que eles estão dizendo. Porque não se trata na verdade de rebaixar os filmes da Marvel. Trata-se de perguntar o que queremos que nossa cultura popular seja no futuro.”

Para Gleiberman “se o sentido profundo da palavra cinema for sinônimo de espetáculo de imagens em movimento”, como propôs Renoir, “Scorsese e Coppola estão errados”. Mas “o que eles estão dizendo se resume na verdade a outra palavra. A palavra é mistério. O problema da nossa cultura de blockbusters, e não apenas dos filmes da Marvel, é não ter nenhum mistério. Nenhum mesmo. Está tudo na superfície. O que você vê é o que você recebe. Enquanto o cinema, tal como se manteve por cem anos, representa um universo no qual as histórias vibram com uma realidade emocional e psicológica que transcende o projeto do filme a que estamos assistindo. Cinema é sobre o que acontece em um filme bem à sua frente, mas é também sobre o que acontece nas entrelinhas. É sobre um lugar onde o que o filme traz para o público encontra o que o público traz para o filme – uma zona sagrada do espírito e de empatia, onde a identificação que você sente com um personagem o leva a um lugar desconhecido”.

A pergunta de Scorsese e Coppola é elementar, escreve Gleiberman: “Nós queremos uma cultura cinematográfica […] em que tudo é programado e digitalizável, sem níveis ocultos, de maneira que os filmes não reflitam mais o mistério existente em nós mesmos? […] Em vez de condenar o que Scorsese e Coppola disseram, talvez devêssemos pensar um pouco sobre a razão” que os levou a criticar os filmes da Marvel, ele conclui.

Produzido com orçamento de 159 milhões de dólares, e tendo 3h28min de duração, O Irlandês, novo filme do queixoso Martin Scorsese, terá estreia mundial em 27 de novembro na Netflix, depois de um lançamento restrito a poucos cinemas no dia 1º de novembro, em Los Angeles e Nova York, seguido de estreias nas semanas seguintes em outras cidades americanas e em alguns países, não estando prevista exibição nos cinemas das grandes redes.

E nós, aqui na periferia do mundo desenvolvido? Qual é o cinema que nós queremos? Quais as condições mínimas necessárias para que esse cinema possa existir? É possível competir no mercado interno com os blockbusters da Marvel e produções milionárias como O Irlandês, de Martin Scorsese? E com o cinema estrangeiro de modo geral? Perguntas como essas e tantas outras, são tão difíceis de responder quanto dizer o que é o cinema.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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