questões de artes plásticas

O recorde de Tarsila

O que o leilão da tela Caipirinha – vendida pelo preço mais alto já pago por uma obra no Brasil – diz sobre o mercado de arte na pandemia

Sergio Leo
11jan2021_11h27
FOTO: ROVENA ROSA / AGÊNCIA BRASIL

“Assim que eu bater, a obra vai ser vendida por 57 milhões e 500 mil reais para a ficha um”, disse o presidente da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro, Jones Bergamin. “Dou-lhe uma, dou duas, dou três e… Decidido: para a ficha um.” E bateu com força os nós dos dedos da mão direita na mesa de madeira, cerca de 13 minutos após o início da disputa. Mesmo sem ter recorrido ao tradicional martelo de leiloeiro, o golpe de Bergamin ecoou forte pelo salão quase vazio da bolsa, em Ipanema. Ao som da batida, a tela Caipirinha, de Tarsila do Amaral, alcançou o valor mais alto já obtido por uma obra de arte vendida no Brasil.

O quadro pertencia ao empresário Salim Taufic Schahin, dono do grupo Schahin, que teve sua falência decretada em 2018, em decorrência de denúncias de corrupção feitas durante a Operação Lava Jato. Por isso, antes do início do leilão no dia 17 de dezembro, houve a leitura da decisão judicial que determinou a venda para ressarcir os credores do grupo. O comprador, identificado apenas como “ficha um”, permanece anônimo. Alguns sites da Bahia publicaram que pessoas da elite soteropolitana estavam atribuindo a compra a um empresário do estado. “Era brincadeira. Baiano, só se for algum que more em São Paulo, porque baiano conhecido, morador daqui, acho impossível”, garante o galerista Paulo Darzé, dono de uma galeria em Salvador e um dos mais ativos marchands no Nordeste.

O crítico e curador Tadeu Chiarelli considera a tela Caipirinha, pintada em 1923, a mais bem-sucedida das primeiras tentativas de fazer uma junção dos temas e formas do modernismo brasileiro com as experiências do cubismo europeu. O quadro é também um dos raros da artista pintados na década de 1920, o que ajuda a explicar o recorde obtido no leilão, além do fato de Tarsila do Amaral ser, atualmente, uma das artistas brasileiras mais valorizadas no país e no exterior. Em 1995, num leilão da Christie’s, em Nova York, o quadro Abaporu (1928) foi adquirido por 1,4 milhão de dólares pelo empresário argentino Eduardo Constantini. Hoje, é uma das obras em destaque no Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires), fundado por Constantini, e calcula-se que seu valor se avizinhe dos 100 milhões de dólares.

Há dois anos, o MoMA (Museu de Arte Moderna), de Nova York, já havia fixado um recorde para os trabalhos de Tarsila, ao comprar – de Fanny Feffer, da família controladora da Suzano Celulose – A Lua (1928), obra do período antropofágico da artista. A transação envolveu um valor mantido em sigilo, que os especialistas estimam entre 18 milhões e 20 milhões de dólares. As atenções internacionais têm se voltado para artistas não europeus, como Tarsila, devido ao crescente esforço dos museus para ampliar a diversidade (geográfica e de gênero) de suas coleções e à influência exercida neles por mecenas da América Latina, que patrocinam a compra dos trabalhos, como a bilionária venezuelana Patricia Phelps de Cisneros, que doou mais de uma centena de obras de sua coleção latino-americana ao MoMA.



 

O leilão de Caipirinha foi visto sem euforia por profissionais do mercado de arte, que o consideraram um episódio muito particular de um ano no qual vários marchands e artistas foram assombrados pela recessão. “Os recordes em leilões, as operações de grande visibilidade, midiáticas, são a exceção; não refletem a dinâmica do mercado, composto por centenas de milhares de operações que, de fato, sustentam os negócios”, diz à piauí a gestora cultural e professora de arte Ana Letícia Fialho, que coordenou entre setembro e outubro uma pesquisa sobre o mercado de arte no Brasil, na Argentina, no Chile e na Colômbia.

Feita pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e a Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact), a pesquisa revelou um quadro otimista para o mercado de arte, apesar da pandemia. Nos quatro países, foram consultadas 95 galerias e sites de venda, desde negociantes com faturamento até 100 mil reais ao ano até aqueles com faturamento superior a 20 milhões anuais. Entre os 52 consultados no Brasil, 58% declararam ter obtido, no primeiro trimestre, receitas superiores às do mesmo período em 2019. No segundo trimestre, porém, a relação se inverteu, e o número dos que viram suas vendas cair em relação ao mesmo período do ano anterior chega a 56%. Entre julho e setembro, as vendas se recuperaram, e apenas 27% disseram ter sentido a redução na receita, se comparada à do terceiro trimestre de 2019. Na Colômbia, nos nove primeiros meses de 2020 houve aumento do faturamento para a maior parte do setor. No Chile, onde a maioria teve queda na receita no primeiro trimestre, metade dos entrevistados afirmou ter conseguido, no resto do ano, aumentar o manter o faturamento. Apesar dessa oscilação, a maioria diz esperar estabilidade ou crescimento de vendas em 2021.

Parte desse otimismo tem a ver com a adaptação a novos modelos de negócios, em grande medida provocada pela pandemia. Para enfrentar uma possível crise, as galerias se associaram umas às outras a fim de promover seus artistas. Também se renderam às vendas online, impulsionadas pela migração das grandes feiras internacionais para o ambiente virtual. Não à toa, dois terços dos marchands pesquisados no Brasil declararam ter vendido, entre janeiro e outubro, obras para compradores de fora do país – 21% deles, porém, venderam menos que em 2019.

“Com a desvalorização do dólar, a arte brasileira sai muito barata para o colecionador estrangeiro”, explica André Millan, da Galeria Millan, em São Paulo. Um dos principais fatores de interesse de colecionadores é a raridade das obras, como as telas de Tarsila dos anos 1920. “A oferta é pequena, essas obras têm grande liquidez.” A escassez incentiva a competição por trabalhos de muitos artistas brasileiros do século XX igualmente raros. “Se você vende um Burle Marx ou um Rubem Valentim de antes dos anos 1970, é difícil repor”, diz Paulo Darzé. “Os compradores têm de decidir logo, ou perdem as oportunidades.”

Conforme a pesquisa conduzida por Fialho, a crise de 2020 afetou principalmente as grandes galerias, que concentram esforços e acumulam talento na negociação presencial em feiras internacionais. Millan calcula ter sofrido uma queda em torno de 30% em suas vendas na última edição da feira SP Arte, que no ano passado fez sua primeira edição virtual. “Foi uma queda brutal nas vendas, de 30% ou mais”, confirma Yannick Bourguignon Carvalho, diretora da galeria Raquel Arnaud, em São Paulo.

Se, para alguns, o comércio online foi um substituto imperfeito às vendas presenciais, para outros foi a solução. “Para nós, que nascemos virtuais, foi fácil a adaptação, e caíram os custos”, conta Bruna Bailune, da Galeria Aura, em São Paulo, dedicada a jovens artistas. “Os custos de participar de uma feira presencial chegam a 40 mil, 50 mil reais. Neste ano, a SP Arte nos custou 3 mil reais e vendemos cerca de 50 mil reais, um ótimo resultado.”

Os grandes galeristas só conseguiram retomar suas vendas nos últimos três meses do ano, após o abrandamento da quarentena. “Fizemos boas vendas nos últimos meses e recuperamos a receita em relação a 2019”, diz Carvalho. Comentários feitos por clientes lançam hipóteses para a recuperação. “Muita gente me disse que, tendo sido obrigada a ficar em casa por mais tempo, começou a olhar em volta e, já que não podia gastar em outras coisas, resolveu remanejar escritório, mudar as obras da sala”, ela conta. Outro fator que ajudou na recuperação, acredita a galerista, foi o aumento das vendas de imóveis no país e a consequente necessidade de ocupar com obras de arte os novos espaços.

Um grande colecionador afirmou à piauí que não é pequeno o papel de arquitetos e decoradores na escolha de obras mais caras, especialmente para clientes de fortuna recente. O mercado apelidou de “kit-sucesso” um grupo de artistas respeitados, com trabalhos facilmente reconhecíveis, como Adriana Varejão, que estrelas do mercado financeiro, empresários emergentes e celebridades têm sido aconselhados a exibir em suas propriedades, como sinal de sofisticação e sucesso.

Além desses fatores comportamentais, há razões macroeconômicas para a volta da movimentação nas galerias. “Quando a Bolsa de Valores fica animada, o mercado imobiliário está pujante e as pessoas se sentem mais ricas, pelo menos no papel, há uma tendência de que gastem mais, inclusive com arte”, diz o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, hoje presidente da Gávea Investimentos. Fraga é um colecionador despretensioso de obras de pintores da virada do século XIX para o XX, que retrataram cenas do Rio de Janeiro. Ele explica esse cenário de recuperação de vendas, com reflexos no mercado de arte, como uma consequência do estímulo dos governos às economias, em resposta aos prejuízos causados pela pandemia. “Tudo isso tem a ver com a taxa de juros mais baixa”, resume.

A queda na taxa de juros nem sempre é suficiente para encorajar novos investimentos na chamada economia real, mas tem propiciado o que os economistas chamam de “enorme liquidez”: a disponibilidade de um grande volume de recursos para gastos e investimentos. “Apesar do aumento de gastos do governo, a taxa de poupança do setor privado [economia das famílias e lucro das empresas não distribuídos aos acionistas] cresceu até além do que esperavam os analistas”, diz Luiz Guilherme Schymura, diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) e habitué de grandes mostras de arte internacionais. “A concentração de renda também cresceu um bocado, e isso joga em favor do mercado de arte”, afirmou Schymura, que vê nessa mesma desigualdade, porém, um dos principais desafios para a retomada sustentável da economia.

Schymura afirma que a quantidade de dinheiro em espécie em circulação e depósitos à vista nos bancos nos Estados Unidos, no Japão, no Reino Unido e em países da zona do euro passou de pouco mais de 22 trilhões de dólares, em média, em 2018, para 26,6 trilhões em 2020 (até novembro). “Nunca existiu no mundo uma injeção de liquidez como essa”, ressalta o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani. Em consequência, os juros se tornam negativos, menores do que a inflação. A taxa básica fixada pelo Banco Central está hoje em 2%, enquanto o mercado calcula que a inflação, medida pelo IPCA, ficou próxima de 4,4% no ano passado e deve chegar a 3,3% neste ano. Com isso, os bancos reduzem o custo do financiamento à produção e ao consumo, especialmente de bens, como automóveis.

O colecionador Nilson Teixeira, sócio da gestora de recursos Macro Capital, que segue com atenção leilões no país e no exterior, lembra que obras de arte têm altos custos de manutenção, como seguro, estocagem e conservação. Outros especialistas acrescentam que as obras transitam num mercado ainda pouco regulado e com pouco controle no Brasil. É o que ocorre, por exemplo, com as casas de leilões, que, no exterior, sofrem forte fiscalização oficial para prevenir falsificações ou arranjos de preços.

Alguns analistas acreditam que obras de arte podem ser opção para diversificar investimentos, porque seus preços não costumam acompanhar a movimentação de outras aplicações financeiras. Teixeira, contudo, não compartilha dessa opinião. “A grande maioria das compras de arte é mesmo pelo prazer pessoal”, garante. Ele admite, no entanto, que, nesse mercado de alto risco, a compra de trabalhos de um artista que caia nas graças de críticos e colecionadores pode mais que compensar a perda com outros dez artistas que não despertem interesse.

“Arte pode ser investimento, sim, mas não é para amadores. Exige conhecimento muito profundo, além do valor artístico: vai da interpretação do que seja gosto a conceitos econômicos, como o de escassez”, alerta o presidente do Credit Suisse, José Olympio Pereira, que é também presidente da Bienal de São Paulo, presidiu o conselho da Pinacoteca de São Paulo e é membro dos conselhos internacionais do MoMA, da Tate Modern, em Londres, e da Fundação Cartier, em Paris.

Um exemplo dos cuidados que se precisa ter é a cotação atual dos chamados old masters, pintores canônicos de um longo período que vai da Renascença ao Romantismo. Tidas em outros tempos como valores seguros, as obras desses artistas hoje não alcançam o preço pago por trabalhos contemporâneos, como Coelho, um boneco em aço inoxidável do polêmico Jeff Koons, que atingiu em 2019 o valor recorde de 91,1 milhões dólares (cerca de 480 milhões de reais). O recorde obtido por um autorretrato de Rembrandt, em julho do ano passado, foi de 18,7 milhões de dólares (cerca de 100 milhões de reais). Outra obra do artista holandês, destaque principal do próximo leilão a ser realizado pela Sotheby’s, tem valor mínimo perto do preço que teria sido pago pelo seu último comprador: algo em torno de 20 milhões de dólares (cerca de 108 milhões de reais). Ao contrário do que pensa o senso comum, o investimento nos old masters pode ser um mau negócio. “O gosto dos colecionadores não está mais ali”, afirma Pereira.

Sergio Leo

Jornalista e escritor. Autor de Mentiras do Rio (Record), Ascensão e Queda do Império X (Nova Fronteira) e Segundas Pessoas (e-galáxia)

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