questões cinematográficas

O som ao redor – violência latente

Beirando a unanimidade, O som ao redor vem recebendo verdadeira consagração crítica, iniciada no exterior e que prossegue, passado quase um ano, no Brasil. Kleber Mendonça Filho, autor do roteiro e diretor, além de assinar em parceria a montagem, o desenho de som, a preparação do elenco, a pesquisa das fotografias de acervo, e a produção da finalização, merece cumprimentos por sua façanha e tem todo direito de estar felicíssimo com a rara receptividade alcançada pelo filme.

Ao se transformarem em surto de ufanismo patrioteiro, porém, os elogios podem acabar mais prejudicando do que beneficiando o filme, seu autor e eventuais leitores. Adjetivação hiperbólica pouco contribui para a compreensão de O som ao redor e das questões que ele levanta.

Eduardo Escorel
29jan2013_11h36
O som ao redor
O som ao redor

Beirando a unanimidade, vem recebendo verdadeira consagração crítica, iniciada no exterior e que prossegue, passado quase um ano, no Brasil. Kleber Mendonça Filho, autor do roteiro e diretor, além de assinar em parceria a montagem, o desenho de som, a preparação do elenco, a pesquisa das fotografias de acervo, e a produção da finalização, merece cumprimentos por sua façanha e tem todo direito de estar felicíssimo com a rara receptividade alcançada pelo filme.

Ao se transformarem em surto de ufanismo patrioteiro, porém, os elogios podem acabar mais prejudicando do que beneficiando o filme, seu autor e eventuais leitores. Adjetivação hiperbólica pouco contribui para a compreensão de e das questões que ele levanta. Nos termos em que passou a ser feito recentemente, o enaltecimento chega a soar mal. Em vez de contribuir para uma avaliação crítica, o palavreado pode não passar de um estímulo à vaidade.

É verdade que Kleber Mendonça Filho deve ter condições melhores do que a maioria dos diretores estreantes em longa-metragem de ficção para não ser tragado por tamanhos louvores, além de ter maturidade suficiente para desconfiar de opiniões volúveis por natureza. Segundo a crítica da Variety, Deborah Young, conta no filme anterior de Kleber Mendonça Filho, o documentário Crítico, gravado entre 1998 e 2007, Abbas Kiarostami odeia fazer parte de júris por que a opinião que tem um dia pode não ser a mesma oito horas depois, e encerrado o festival pode nem gostar do filme premiado.

Também em Crítico, Paulo Caldas, codiretor de Baile perfumado, diz que críticas desfavoráveis “ensinaram muito mais do que as favoráveis”. E para Richard Linklater, diretor de Antes do amanhecer e Antes do pôr-do-sol, “uma crítica favorável pode ser negativa por que lhe faz pensar que você é melhor do que é […].”

Kleber Mendonça Filho não deve ter esquecido desses depoimentos e, sendo ele próprio crítico de cinema, por mais que gratifiquem seu ego, deve prezar mais análises que propiciem um diálogo entre quem comenta e quem faz filmes do que apologias insensatas. Também incluído em Crítico, o diretor de Cada um com seu cinema e O que resta do tempo, Elia Suleiman diz que “se o crítico é um escritor, isso quer dizer um investigador de si mesmo, o filme ou a obra de arte para ele é uma investigação de si mesmo, então se torna um diálogo, e então, é claro, é construtivo, por que aí, você [o crítico] está procurando por si mesmo e eu [o cineasta] estou procurando por mim mesmo, e nós estamos debatendo um certo tópico. Então, você [crítico] não é um juíz, ninguém é o juíz. Então, é apenas o caso de levantar questões, e se reconciliar com certas coisas que estamos fazendo, não só a maneira que eu estou fazendo o filme, mas a maneira que estou ‘lendo’ o filme, e a maneira que o crítico está ‘lendo’ o filme.”

Não terá sido por acaso que Kleber Mendonça Filho escolheu o depoimento de Babak Payami, premiadíssimo diretor de Voto secreto e Silêncio entre dois pensamentos, para ser um dos primeiros de Crítico: “Eu penso que a verdadeira essência da crítica é a análise, que a essência do trabalho do crítico é sua análise do filme, é sua capacidade de determinar a premissa e como o filme opera a partir da premissa, e os diferentes aspectos técnicos, emocionais e dramáticos da história…”.

O som ao redor é sobrecarregado de intenções, formuladas em vários enredos paralelos, alguns ficando apenas esboçados. Esse transbordamento de ideias torna o filme pesado e estende sua duração além do habitual na tentativa de dar conta dos vários subtemas.

Ao contrário do que foi escrito, não é um “thriller sem trama”. Ainda que só comece a ser explicitada no terço final, a vingança planejada acaba dominando todo o enredo de . Dessa maneira, durante os cerca de 80’ iniciais, quase tudo que antecede a eclosão da trama principal, em especial a relação do casal de namorados, João (Gustavo Jahn) e Sofia (Irma Bown), que percorre o filme do início ao fim, acaba parecendo menos relevante. Desequilíbrio prejudicial ao ritmo e que torna , além de longo, lento.

Desde a primeira sequência, os surdos e a percussão da música de abertura, sobre fotografias antigas, criam a expectativa de algo momentoso que está por acontecer. Essa impressão é confirmada, à medida que progride, por outros sinais premonitórios, plantados de maneira esparsa na trilha sonora e na imagem, que vão se acumulando ao longo da narrativa – a irritante serra elétrica, o não menos incômodo uivo dos cães etc. Mas é preciso transcorrer mais de duas horas para saber afinal do que se trata.

Ao dividir em três partes de durações desiguais, identificadas por legendas brancas sobre fundo preto, Kleber Mendonça Filho parece ter pretendido fracionar a progressão da linha dramática para evitar que a sequência em que a trama afinal se explicita, faltando poucos minutos para o fim do filme, tivesse função de clímax. A banalidade deliberada de quase tudo que a precede, porém, causa efeito contrário – acentua o impacto da revelação final.

A dificuldade de sustentar o interesse pelo que ocorre durante os 80’ iniciais de , decorre também da apatia do elenco, formado ao que parece, ao menos em parte, por não-atores. A opção de Kleber Mendonça Filho por atuações em tom monocórdico empobrece os personagens. As exceções são Irandhir Santos, no papel do chefe dos seguranças; Maeve Jinkings [foto ao lado], como Bia, a mãe de família que entre outras proezas dopa o cão de guarda do vizinho; e W.J.Solia, como Francisco, dono de engenho e de grande parte dos imóveis da rua onde se passa a ação.

O grande mérito de talvez seja o de se diferenciar não só dos filmes produzidos por seus colegas, no Recife, como do cinema brasileiro em geral. Com grande empenho, Kleber Mendonça Filho cria uma vertente pessoal, distante do mimetismo da televisão, do melodrama musical e da comédia escrachada dominantes.

A tentativa de tratar com realismo moradores comuns – patrões, empregados e prestadores de serviço – de uma rua qualquer, próxima ao mar, em um bairro de classe média de uma grande cidade do Nordeste, além de ser prova de coragem, tem o valor de explicitar a violência do cotidiano, deixando implícita uma ameaça indefinida, prestes a eclodir, que paira sobre todos.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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