questões da política

O sonho grande de Agnelli

A última vez que conversei com Roger Agnelli foi em abril em 2014, na sede de sua empresa, a AGN Participações, instalada num escritório moderninho na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo.

Consuelo Dieguez
23mar2016_21h56
Tiago Trindade/Divulgação

A última vez que conversei com Roger Agnelli foi em abril em 2014, na sede de sua empresa, a AGN Participações, instalada num escritório moderninho na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. O empresário estava animado com sua mineradora ainda embrionária, mas que ele sonhava transformar, em poucos anos, numa multinacional, com atividades sobretudo na África. Sua disposição de fazer o negócio prosperar era tanta que o visitante saía com a impressão de que todo aquele empenho estava direcionado a fechar a ferida provocada por sua demissão da presidência da Vale, em 2011. Segundo os mais chegados, ela nunca cicatrizara. Quando comentei que a sede da empresa era grande, ele me olhou espantado e perguntou incrédulo: “Você acha mesmo?” Respondi com uma provocação. “Bem, não é nenhuma Vale.” No que ele rebateu: “Ainda.”

Roger Agnelli foi cria do Bradesco. Após a privatização da então Vale do Rio Doce, da qual o Bradesco comprou uma parcela significativa, ele foi alçado à presidência do conselho da mineradora. Tinha 37 anos. Quatro anos depois assumia a presidência da empresa.

No mercado, todos diziam que Agnelli tinha uma estrela brilhante. Sua posse no comando da companhia coincidiu com a alta histórica do preço do minério de ferro, que chegou a bater em 130 dólares a tonelada. Na visão do mercado, foi essa uma das principais razões para que a mineradora, que era a oitava do mundo, atingisse o segundo posto no ranking. Sob a direção de Agnelli, o valor de mercado da Vale saltou de 7 bilhões de dólares, em 2001, para 200 bilhões, em 2008. Ao ser demitido por Dilma, em 2011, ele deixou a empresa valendo 198 bilhões de dólares. E, até na sua demissão, ele foi um cara de sorte: largou a mineradora justo no último trimestre em que a tonelada do minério superava a casa dos 100 dólares. Coincidentemente, após sua retirada o preço do minério despencou até os atuais 46 dólares a tonelada. Hoje o valor de mercado da companhia é de 15 bilhões de dólares.

A estrela de Agnelli o salvaria em outras situações. Em 2008, ele decidiu comprar a Extrata, uma empresa Suíça de mineração, por 90 bilhões de dólares, a despeito da resistência de seus executivos, que consideravam o negócio muito caro e arriscado. Dias antes de concretizar a aquisição, desentendeu-se com o presidente do conselho da Extrata, que lhe fez algumas exigências que ele considerou descabidas, e desistiu da operação. Pouco depois estourou a crise bancária americana que levou o mundo para o buraco. A Vale só não foi junto porque não fechou com a Extrata, que teria deixado a mineradora brasileira totalmente descapitalizada. Mas Agnelli sempre teve planos ambiciosos para a Vale, e muitos deles deram certo e ajudaram a impulsionar a mineradora. Uma das melhores tacadas foi a aquisição da canadense Inco, que rendeu bons resultados para a companhia. “Antes do Roger, a Vale era uma empresa brasileira. Depois dele, virou uma multinacional agressiva”, disse um ex-executivo que trabalhou com ele.



Não obstante os bons resultados alcançados, Agnelli era criticado por arriscar em excesso. “O problema dele é que ele era um centroavante. Só jogava no ataque e não se preocupava com a defesa”, comentou o mesmo executivo. Sua ousadia o levou a fazer negócios equivocados como a compra da mina de Simandou, na Guiné, em sociedade com Beny Steinmetz, um empresário israelense de péssima fama. A transação, que logo se mostraria inviável, foi cancelada pela administração seguinte. Ele também se encrencou ao comprar uma mina de potássio na Argentina, um projeto inicialmente orçado em 6,5 bilhões de dólares, mas que já estava batendo na casa dos 12 bilhões quando foi abandonado porque se tornara impraticável.

Segundo seus pares, Agnelli era rápido e eficiente, mas pecou muitas vezes por se recusar a ouvir. Conta-se que a única pessoa a quem prestava atenção era Mário Teixeira, executivo do Bradesco, seu mentor desde os tempos do banco e que ocupava um assento no conselho de administração da Vale. Mas, ao ser demitido, até mesmo Teixeira pulou miudinho para dissuadi-lo a não forçar a barra para continuar no posto.

Ao ver-se em perigo, o executivo chegou a procurar parlamentares em busca de apoio. Para muitos, seu erro foi se meter com a política. Apesar dos conselhos para manter-se afastado do então presidente Lula, ele se gabava de visitá-lo a cada quinze dias. “Nós tentávamos alertá-lo de que não era saudável manter um relacionamento tão próximo com o governo. Que isso não era saudável para empresa”, contou um funcionário. Tanto que quando veio a crise e Agnelli, corretamente, demitiu 1 800 pessoas para cortar os custos, Lula se meteu e mandou que ele recontratasse os demitidos.

Ao deixar a companhia, Agnelli seguiu os conselhos de Mário Teixeira para viver a vida e largar a pesada jornada de executivo de uma grande companhia. Ele pegou a família e foi passar uma temporada na Itália, onde fez curso de culinária e se entregou a viagens pelo Mediterrâneo. Quando o encontrei em 2014, ele me falou dos passeios de iate e dos charutos que gostava de consumir, vício do qual tentava se livrar. Tinha tomado gosto pela mundanidade.

No dia em que o visitei, estava bronzeado e com a expressão relaxada, resultado de um fim de semana em sua casa em Angra dos Reis. Fez então uma inconfidência que acabou tendo repercussão internacional: disse-me que, quando se associara a Steinmetz, não sabia que ele tinha má fama. “É a mesma coisa que ficar casado muitos anos com uma mulher e descobrir que ela é uma prostituta. Ou casar com veado e saber anos depois”, comparou.

Agnelli estava convencido do brilho de sua estrela. E confiava no sucesso futuro da AGN. Quando seu avião caiu no dia 19, após decolar do Campo de Marte, matando, além dele, seis pessoas – a mulher, os dois filhos, a nora, o genro e o piloto –, muitos no mercado custaram a acreditar. No fundo, todos, de certa forma, confiavam que a estrela de Agnelli jamais o abandonaria.

Consuelo Dieguez (siga @consuelodieguez no Twitter)

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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