colunistas

O universal e o particular

Atacar as políticas identitárias é um equívoco

Fabiana Moraes
05ago2018_00h01

A cena é inesquecível: sob gritos e vaias, a ativista Sylvia Rivera finalmente consegue subir no palco armado da Christopher Street Liberation Day Rally, manifestação realizada na cidade de Nova York, em junho de 1973. Luta pelo microfone. Jean O’Leary, feminista radical, tenta impedir sua participação. Quando finalmente consegue se fazer ouvir, Rivera mira nas centenas de homens e mulheres gays, de maioria branca, ali presentes.  “Eu tentei falar aqui o dia todo pelos seus irmãos e irmãs gays que estão nas cadeias. Eles me escrevem todas as malditas semanas pedindo por socorro – e vocês não fazem porra nenhuma por eles. Eu perdi meu emprego e meu apartamento pela liberação gay… e vocês me tratam dessa maneira?”, grita ela, travesti e drag queen que entrou para a história como uma das primeiras a enfrentar a repressão policial no bar nova-iorquino Stonewall Inn, em 28 de junho de 1969. O conflito foi o estopim de um movimento civil fundamental pelos direitos humanos – tanto que a data acabou se transformando no Dia Internacional do Orgulho LGBT.

Os breves quatro minutos e nove segundos do discurso de Rivera, registrado no vídeo Y’all Better Quiet Down (É Melhor Ficarem Calados), são uma síntese do alto grau de complexidade que envolve as questões identitárias: afinal, como aquela engajada plateia gay, alva, de classe média, podia repudiar a pessoa que, com apenas 18 anos e ao lado de outras drags como Marsha P. Johnson, se insurgiu contra uma violência que não era direcionada apenas a ela? Como podia recriminar alguém que apertou o gatilho que viria beneficiar em peso justamente aquela população homossexual branca? Ao contrário de Rivera, que morava num abrigo, a maioria do público voltaria para as suas casas após a manifestação. Ao contrário de Rivera, filha de uma venezuelana e um porto-riquenho, a maioria não havia passado noites na cadeia ou sofrido estupro policial.

 

Corta para o Brasil desmontado de 2018, eleições à porta. A ativista, que morreu em 2002, continua de pé em frente a uma plateia que, se não grita e vaia, no mínimo se espanta com a sua presença. O público mudou e ficou mais heterogêneo: conservadores, progressistas, gays, heterossexuais, bissexuais, sessentões, vintões, ricos, pobres, remediados etc. Não costumam estar juntos, não rola muito equilíbrio e papo yin/yang: há os que logo votarão à direita, há os que logo votarão à esquerda. Eles conseguem, no entanto, se unir justamente em uma questão: o sentimento avesso às políticas identitárias. É por isso que estão ali, juntos e assombrados, ouvindo as falas de Sylvia Rivera, amplificadas no Brasil por milhares de outras pessoas – não somente drags, travestis ou transgêneras, mas mulheres cis, negras, indígenas, quilombolas e ribeirinhas, entre tantas outras. Essas vozes apontam para si quando falam de política. Querem, como sempre e como nunca, se enxergar nos programas de governo. Para muitos que votarão à direita, não passam de uns particularistas egocêntricos empenhados em aparecer como vítimas nas redes sociais; para muitos que votarão à esquerda, desmobilizam o voto progressista ao deixar de lado lutas maiores e fundamentais. No fundo, a crítica de ambos é a mesma. O erro de enquadramento, também.

Afinal, em que momento nesse trem descarrilhado de pau-brasil, colocou-se em uma caixa a “questão feminista” e em outra o fato de, no país, as mulheres, maioria da população (51,6%), trabalharem mais, estudarem mais e ganharem menos do que os homens (elas recebem 76,5% do rendimento deles, segundo o estudo Estatísticas de Gênero/IBGE)? Quando, adentrando mais essa seara, colocou-se uma etiqueta na “luta da mulher negra” e outra na média salarial das mesmas, quase 60% menor que os ganhos de um homem branco?  Quando a “problemática racial” foi dissociada deste e de tantos índices escabrosos, como o número de homicídios entre não negros (brancos, amarelos e indígenas), que regrediu 6,8% entre 2006 e 2016, enquanto, no mesmo período, os assassinatos de quem tem a pele escura aumentaram 23,1% (dados do Atlas da Violência 2018)? Que olhar manco distingue a pessoa transgênera que se apresenta ferida em uma rede social do fato de essa mesma população ter expectativa de vida de 35 anos (segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais) ou, pior, de 27 anos (segundo o Grupo Gay da Bahia)? De a evasão escolar entre elas chegar a 82%, segundo a Ordem dos Advogados do Brasil?  

Trata-se mesmo de assuntos egoicos, individualistas? Ou estamos lidando com a fraturada base social brasileira? Pensar como “privadas” questões enraizadas em nossa história maculada pela escravidão e pelo machismo ou é um erro, ou pura má-fé. Quando falamos de identidade, falamos de estrutura, de uma maioria numérica que sempre foi desconvidada da festa justamente por ser uma minoria em termos de poder.

Raça e identidade não correm em separado de classe social: os números acima tornam insuspeita, por exemplo, a pobreza que caracteriza a maioria das pessoas dos grupos citados aqui. A luta de classes, para usar um termo usual, é também a luta de negras e negros, indígenas, pessoas transgêneras e cisgeneras. Algo, importante dizer, que os grupos identitários não podem esquecer – como um dia esqueceram os homens e mulheres gays que vaiaram Sylvia Rivera.

 

O tal erro de enquadramento, a falsa dicotomia, continua ocorrendo nos Estados Unidos: logo após as eleições que colocaram Donald Trump no poder, Mark Lilla, cientista político e professor na Universidade Columbia, em Nova York, escreveu um artigo, The End of Identity Liberalism (O Fim do Liberalismo Identitário), que se tornou escudo e espada tanto de liberais (no cenário norte-americano, aqueles mais à esquerda, como ele) quanto de conservadores republicanos. No texto, mais tarde ampliado e transformado no livro The Once and Future Liberal: After Identity Politics (O Liberal do Passado e do Futuro: Depois das Políticas Identitárias), ele vê a luta pelo reconhecimento das minorias como uma “retórica pseudopolítica”. Ao olhar para si, entende Lilla, os grupos abrem mão da política democrática mais ampla que prevê direitos e deveres para todos. O ensaio, publicado em 18 de novembro de 2016 no New York Times, foi um dos mais lidos no site do jornal naquele ano, mostrando como a questão pega fogo mesmo em uma sociedade na qual o debate sobre os direitos civis é presente desde os anos 60.

A perspectiva universalista de Lilla e seus milhares de apoiadores soa muito bonita – e também utópica, quase uma daquelas capas da revista religiosa A Sentinela, em que vemos famílias ao redor de rios de leite e mel e dóceis leões alimentados por crianças. Até agora, a política, seja lá, seja cá, se guiou justamente pelo discurso do “para todos”, sem mirar com força nas questões pertinentes a mulheres, negros, indígenas, pessoas transgêneras etc. Quantas vezes estas foram beneficiadas pelas leis, decisões e determinações da política e da Justiça? Por que o discurso universalista, que tecnicamente dá conta de todos, permitiu que no Brasil  a taxa de homicídios aumentasse 15% entre as mulheres negras e decaísse 8% entre as não negras (de 2006 a 2016)?

 

Foi por causa da pressão dos “desagregadores” e “vitimistas” que alguns caminhos estruturais se pavimentaram no âmbito do Estado brasileiro em relação às questões raciais. No governo FHC (1995-2002), foram criados o Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da População Negra e o Grupo de Trabalho para a Eliminação da Discriminação no Emprego e na Ocupação. Em 1996, durante o seminário internacional “Multiculturalismo e racismo: o papel da ação afirmativa nos estados democráticos contemporâneos”, FHC reconheceu que o Brasil é um país racista – foi a primeira vez em nossa história que um chefe de Estado assumiu esse fato. Com Lula (2003-2011), aconteceram ações ainda mais efetivas em relação à população negra, como a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e a criação da Lei 10.639/03, mais tarde alterada pela Lei 11.645/08, que obriga o ensino da história e da cultura afro e indígena em todas as escolas. Porém, como observa Sales Santos no artigo “Ações afirmativas nos governos FHC e Lula: um balanço” (disponível online), as medidas do tucano permaneceram mais no plano simbólico e as de Lula se revelaram insuficientes.

Soa aí o alerta máximo: boa parte das conquistas estruturais estão sob a artilharia de bancadas como a evangélica, que ataca o ensino da história africana e indígena nas escolas e tenta inviabilizar o uso do nome social de pessoas transgêneras, além de se opor a determinados espetáculos e exposições. Nesse sentido, chegou a hora de perguntar: com a escalada conservadora, é mesmo para Sylvia Rivera que as vaias devem ser direcionadas?

E por que a militante aparece como guia na primeira coluna sobre política que eu, nascida há 43 anos no Nordeste brasileiro, escrevo na piauí? Primeiro, para dizer que questões identitárias, tratadas por muitos como moda, não são novas ou tampouco se resumem a closes e lacres. Depois,  porque, no discurso proferido um ano antes da minha chegada a este planeta, Sylvia Rivera ofereceu o tablado e o microfone para mim e para todas as pessoas cujas existências são questionadas ou ignoradas. Era de identidade e de estrutura que aquela drag queen falava. De acesso ao poder.  De repovoamento. De novas e urgentes epistemologias. E é por ela, e é por mim, que falarei sobre política durante três meses aqui.

Fabiana Moraes

Fabiana Moraes (siga @fabi2moraes no Twitter)

Jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco. Autora de cinco livros, entre eles O Nascimento de Joicy (Arquipélago Editorial)

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