colunistas

Onde há fumaça…

… há o Pantanal em chamas, um vírus disseminado e o abandono da cultura – as marcas do governo do capitão

Eduardo Escorel
23set2020_11h00

Há quem desconsidere a fumaça que obrigou o avião em que viajava a arremeter. Meses atrás, o mesmo indivíduo desprezou o poder letal da Covid-19 – mais de 137 mil mortos e 4,5 milhões de contaminados depois, esse capitão reformado continua a negar a realidade e mente para iludir desinformados e receber aplausos da claque. Isso, ao mesmo tempo em que o Pantanal se tornou um braseiro, com 5820 focos de calor, o maior número no mês de setembro da história, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Outra postura de você sabe quem, imitada na semana passada (17/09) pelo presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, foi a de palpitar sobre assuntos que desconhece, entre eles filmes brasileiros, com o propósito declarado de influir nos temas de futuras produções. Em julho de 2019, o morador provisório do Palácio da Alvorada condenou “filmes como o da Bruna Surfistinha” (2011), de Marcus Baldini. Agora, Castello Branco reprova o filme Bixa Travesty, de Kiko Goifman e Claudia Priscilla, que considera “de qualidade mais do que sofrível”, desconsiderando ter sido premiado como Melhor Longa-Metragem pelo júri popular do Festival de Brasília, em 2018.

Não seria difícil mencionar outros sinais ameaçadores emitidos com frequência pelo governo federal – ele é omisso, ineficiente e mal intencionado. Foi “a demora do poder público para intervir no bioma em chamas”, dizem pesquisadores, que “fez com que as queimadas se propagassem rapidamente” no Pantanal (BBC News Brasil, 17/09). Alguns setores da sociedade vêm sendo destratados de maneira mais agressiva do que outros. A cultura, em geral, e o cinema, em particular, têm sido bem contemplados nesse quesito, sem causar a reação que seria de se esperar. Salvo ações discretas dos sindicatos e das associações de classe, além da grande mobilização em defesa da Cinemateca Brasileira, cujo resultado permanece indefinido, e talvez uma ou outra iniciativa da qual esteja esquecendo, não tem havido debate público amplo e consistente sobre a paralisia da produção de filmes. De maneira geral, produtores e diretores emudeceram, parecendo ter aceitado a extinção do seu ofício como uma fatalidade. Explicar essa passividade é um desafio que permanece aberto, mas sua origem é bem conhecida – resulta da dependência crônica do Estado que é consequência direta, por sua vez, dos termos desiguais que filmes brasileiros enfrentam ao competirem no mercado interno com a produção estrangeira.

Eis, porém, que, em meio ao insólito silêncio que nos envolve, uma voz solitária volta a pregar no deserto:



“Me desculpe. Eu estou com essa necessidade de desencavar tudo isso de dentro de mim, por que está me envenenando e nós precisamos, imediatamente, fazer um esforço conjunto, novamente, da profissão em conjunto – produtores, exibidores, distribuidores, para a gente reformular, aproveitar esta crise e reformular tudo e apagar os erros. Não é procurar punir… nós temos que aproveitar este momento e colocar tudo de cabeça para baixo.”

Quem disse isso há duas semanas (08/09), depois de ter falado durante trinta minutos sem parar sobre “uma situação” que nunca tinha pensado “viver no cinema brasileiro e estamos vivendo”, foi Luiz Carlos Barreto, em conversa com André Sturm no Diálogos Siaesp – YouTube, acessível na íntegra no link https://www.youtube.com/watch?v=aUarGCk5eM0.

Lembro de Barreto chegando em São Paulo com Nelson Pereira dos Santos, vindos do Rio de Janeiro, em 1963. Com Barreto ao volante do seu DKW-VEMAG azul, eles percorreram os 402 km da Via Dutra, trazendo na mala do carro as latas com os rolos das cópias de Vidas Secas (1963) e Garrincha, Alegria do Povo (1963) para serem exibidos pela primeira vez na capital paulista, em sessões programadas pela Cinemateca Brasileira no auditório da sede do Museu de Arte de São Paulo (MASP), na Rua Sete de Abril.

Nascidos com cinco meses de diferença, Barreto e Nelson tinham 35 anos na época. Repórter da revista O Cruzeiro, corroteirista e coprodutor de Assalto ao Trem Pagador (1962), Barreto era diretor de fotografia de Vidas Secas e coprodutor dos dois filmes a serem exibidos no Masp. Não era ainda o grande produtor e articulador político do cinema brasileiro que se tornou nas décadas seguintes e lhe valeu o apelido de Barretão, nem sempre pronunciado com afeto.

Crédito: FolhaPress

 

Passadas quase seis décadas, eis Barreto de novo, aos 92 anos, rompendo o silêncio. Ele nos diz, em versão resumida, queessa situação é a chamada crise anunciada. Ela não se instalou agora, não. Ela se instalou de quinze anos para cá, período em que essa crise foi sendo preparada…O Manoel Rangel [diretor-presidente da Ancine de 2006 a 2017] pecou por autoritarismo e centralização… Após a gestão Manoel Rangel foi o coroamento da crise. Começou em 2017 para 2018. Essa centralização e autoritarismo do Manoel o levou a promover, pessoalmente, 101 emendas à Medida Provisória 228. Oitenta por cento dessas emendas piorando o modelo que a gente tinha [formulado no final do governo FHC]. O modelo se baseava num tripé, ele anulou o tripé, que era a Ancine, o Conselho Superior de Cinema e a Secretaria do Audiovisual. O Conselho Superior era encarregado de elaborar as políticas públicas para serem executadas e cumpridas pela Ancine e pela Secretaria. O Manoel acabou com esse tripé. Ele centralizou tudo na Ancine e terminou fazendo da Ancine um bicho de sete cabeças… Agigantou-se no problema do fomento, centralizou tudo. A regulamentação ficou só em cima dos produtores. Não existe uma instrução normativa a respeito de regulação do mercado. Todas as proteções de mercado que existiam não foram aprimoradas, ao contrário, foram pioradas. Então, a Ancine se tornou uma agência de fomento. Ela não regulou e nem fiscalizou…

O Tribunal de Contas concluiu, em 2018, que a responsabilidade pelo acúmulo de 4 mil projetos sem prestação de contas concluída eram todas as diretorias da Ancine nos últimos quinze anos e está processando todos esses diretores por erros administrativos… Essa insegurança jurídica foi se agravando e, hoje, a Agência Nacional de Cinema é uma agência paralisada, que está nos asfixiando… É um movimento de defesa. Os diretores da Ancine, atualmente, e os superintendentes, e até os funcionários. Eu, se estivesse na posição deles, estaria fazendo a mesma coisa – me precavendo para não perder meu emprego ou não vir a sofrer um processo, como os ex-diretores… Em 2012, eu falei para o Manoel Rangel: ‘Manoel, você está deixando uma bomba-relógio…’

E não adianta querer agora jogar o negócio em cima do governo Bolsonaro. O governo Bolsonaro apenas se aproveitou dessa situação e paralisou, está sufocando nossa atividade. Mas ele…não é…não há perseguição, por enquanto. Imagine no momento em que houver a perseguição política, os motivos políticos para interromper a atividade, né? No momento, não é. É consequência desses quinze anos de erros, exageros…”

Não tenho meios de confirmar se foram exatamente 101 as emendas feitas à Medida Provisória, como disse Barreto. De qualquer modo, muitas não teriam piorado o texto inicial, conforme ele mesmo admite.

Quanto à Ancine se ter agigantado e burocratizado, tornando-se uma agência de fomento subordinada aos ditames do Tribunal de Contas da União (TCU), não há como discordar. Inegável também é a asfixia em curso e a paralisia da produção de filmes.

A meu ver, porém, Barreto minimiza a deliberada ação deletéria do governo federal. Acredito, ao contrário do que chegou a afirmar, que tudo não se resume a resolver o acúmulo de prestações de contas das produtoras em aberto na Ancine. Penso, como ele também disse, que é preciso mesmo virar tudo de cabeça para baixo, pois mesmo sobrevivendo, sairemos desta crise debilitados, com a profissão comprometida por alguns anos.

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Nesta quarta-feira (23/09), à noite, no Belas Artes Drive-In, em São Paulo, haverá a sessão de abertura da segunda etapa do 25º Festival de Documentários É Tudo Verdade. Será exibido para convidados A Cordilheira dos Sonhos (2019), de Patrício Guzmán, ao mesmo tempo em que o filme estará disponível online, em âmbito nacional, podendo ser acessado sem custo em www.etudoverdade.com.br. Conforme foi divulgado, a mostra competitiva brasileira, da qual participam dez filmes, terá duas sessões online de cada título, com hora marcada para começar às 21 horas e às 15 horas do dia seguinte à estreia, com limite de 1500 visionamentos por título, também no site do Festival. Os longas-metragens da disputa internacional estrearão diariamente às 18 horas, permanecendo disponíveis por até 24 horas, com limite de 1000 visionamentos por título no mesmo site indicado. O Festival segue até 4 de outubro, véspera do dia em que será anunciada a premiação, seguida da exibição de Wim Wenders, Desperado (2020), dirigido pelo australiano Eric Friedler e por Andreas Frege.

Em entrevista a Mônica Bergamo, publicada no domingo (20/09) na versão impressa da Folha de S.Paulo, Amir Labaki, criador e diretor do Festival, foi claro: “…é muito triste e preocupante que a gente tenha dúvidas do que vai acontecer no ano que vem, com a paralisia da produção… há uma estratégia deliberada de destruição das instituições culturais brasileiras. Está em marcha uma postura que é abrir mão dos técnicos em toda a máquina federal da cultura, demolir o que existia e empregar apaniguados… o governo federal trata a cultura como inimiga ideológica. É um desmonte lesa-pátria sendo levado a cabo por oportunistas de plantão.”

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Na próxima terça-feira, 29/09, às 11 horas, Piero Sbragia, Juca Badaró e este colunista conversam ao vivo, no canal 3 em Cena, com Sandra Werneck, Bebeto Abrantes e Spartakus, um dos quatro influenciadores digitais (os outros três são Jout Jout, Bispo Arnaldo e Rita Von Hunty) acompanhados em You Tubers (2020), dirigido por Werneck e Arantes. O filme estreou no canal Curta! em 11 de setembro, depois que o lançamento previsto em salas de cinema ficou em aberto, sem previsão de data, em função da pandemia. Nas palavras de Abrantes, You Tubers “mostra um pouco da pessoa e da persona desses novos influenciadores digitais. Esse é um fenômeno com mais de dez anos. Mas, até onde sei, trata-se do primeiro longa documentário sobre o assunto”. O filme está disponível na plataforma Tamanduá.

Acesso à conversa da próxima terça-feira, 29/09, através do link https://youtu.be/GEK04T11Iy8 .

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Sementes: Mulheres Pretas No Poder, de Éthel Oliveira e Júlia Mariano, estreou em 7 de setembro e está disponível online, com acesso gratuito, no site embaubafilmes.com.br. O documentário foi filmado no Rio de Janeiro, durante o primeiro turno das eleições de 2018, acompanhando seis candidatas: Mônica Francisco, Renata Souza, Talíria Petrone, Rose Cipriano, Tainá de Paula e Jaqueline Gomes. Sementes: Mulheres Pretas No Poder nasce do desejo de contar como a barbárie da morte de Marielle Franco se transformou no maior levante político conduzido por mulheres negras que esse país já viu e nasce, também, com o objetivo de quebrar, de certa forma, essa cultura no audiovisual, e mostrar uma história sobre lideranças negras, contadas por profissionais negras”.

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Outra opção segura é visitar o CINEMA ROOM e assistir a cinco filmes de Cao Guimarães, disponíveis até 25 de setembro no link https://www.xippas.com/category/cinema/cor-acao-mo-vi-mento/ . No texto de apresentação, Guimarães escreve: “… Eu mando esta carta. Carta de cores, sem saber seu destino, ou seu destinatário. Ainda assim, eu sei que nós precisamos dessas cores em movimento.”

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Iniciado em 8 de setembro, prossegue até dia 27 o DOBRA – Festival Internacional de Cinema Experimental, hospedado pelo Canal da Cinemateca do MAM, na plataforma Vimeo, e exibido no site do Festival, integrando a celebração dos 65 anos da Cinemateca. Todas as sessões dos dez programas de filmes são gratuitas e estão disponíveis em www.festivaldobra.com.br. Há ainda um curso e bate-papos online. Com a curadoria de Cristiana Miranda, Lucas Murari e Luiz Garcia, foram selecionados 44 filmes, sendo catorze brasileiros, dos 1.094 inscritos de 71 países.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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