anais da posse

Operação lata-velha

De carro novo, Wilson Witzel assume o sucateado governo do Rio com o desafio de levantar um estado em frangalhos

Allan de Abreu
01jan2019_15h47
ILUSTRAÇÃO: ISABELA DA SILVEIRA

Estacionado junto à escadaria do Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, um carro da Polícia Militar em péssimas condições aguardava o início da cerimônia de posse do governador Wilson Witzel na manhã desta terça-feira. O protagonista da solenidade chegou às 8h45, com quinze minutos de atraso em relação ao horário previsto, a bordo de um Chrysler Town & Country preto. Novo, o automóvel foi alugado especialmente para a data, segundo a assessoria do governador – um contraste gritante com o veículo do 5º Batalhão de PM, que ostentava avarias nas portas, arranhões nas laterais e nos para-choques, além de bancos sujos e do painel com as saídas de ar quebradas. O carro em frangalhos parecia dar um recado a Witzel: de agora em diante, o ex-juiz federal e ex-fuzileiro naval terá de combater o sucateamento do poder público, após quinze anos de domínio do MDB no estado.

Filiado ao PSC, Witzel chegou à Alerj na companhia da mulher, Helena, e de três dos quatro filhos. Desceu do Chrysler acenando com as duas mãos para dezenas de simpatizantes, subiu as escadarias do palácio e, ao som das gaitas de foles do Corpo de Fuzileiros Navais, sentou-se à mesa do plenário entre o cardeal Orani João Tempesta, arcebispo da Arquidiocese do Rio, e o presidente da Assembleia, o petista André Siciliano. Também estavam na mesa o prefeito Marcelo Crivella, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e o presidente do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, André Fontes. O clima solene não impediu que Witzel cumprimentasse alguns deputados de maneira nada ortodoxa: batendo continência militar, lançando o polegar para cima ou distribuindo coraçõezinhos com as mãos. A ausência mais marcante foi a do senador eleito Flávio Bolsonaro, principal cabo eleitoral do ex-juiz durante a campanha.

Nem uma gafe de Siciliano quebrou o entusiasmo de Witzel. O presidente da Alerj anunciou a “declaração de poste” do novo governador. Logo em seguida, ruborizado, corrigiu-se: “Declaração de posse.” A plateia riu discretamente. No discurso, Witzel chorou ao citar a mulher – “chama que ilumina os meus sonhos” – e sinalizou uma mudança de rumo em relação às gestões emedebistas. Enfatizou, por exemplo, o combate à corrupção, diante de um Legislativo sob suspeita de malversação do dinheiro público (10 dos 70 parlamentares estão presos, acusados de receberem “mensalinhos” do governo fluminense). “É chegada a hora de libertar o Rio da irresponsabilidade e da corrupção, que marcaram as últimas duas décadas da política estadual”, proclamou. O governador aproveitou para afagar a categoria de que fez parte até o início de 2018: “Quero parabenizar todos os juízes deste país. A Justiça é o pilar da moralidade e da decência.” Entre os presentes no plenário, estava o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, responsável pelo julgamento das ações decorrentes da Operação Lava Jato no Rio.

Witzel, que já defendeu o abate de criminosos se estiverem portando fuzis nas ruas, prometeu endurecer as políticas de segurança pública um dia após o fim dos dez meses de intervenção militar no estado. “Vamos reorganizar as estruturas policiais para serem capazes de investigar e prender aqueles que comandam o crime organizado e fazem da lavagem de dinheiro a fonte que abastece o comércio de drogas e de armas. São narcoterroristas, e como terroristas serão tratados.”

Fora da Alerj, o vendedor de livros Edson Rosa protestava solitariamente. Vestido com a camisa da Seleção Brasileira, um dos símbolos dos apoiadores de Jair Bolsonaro, ele caminhava de um lado a outro da grade de proteção do Palácio Tiradentes. Carregava uma placa de rua com o nome da vereadora Marielle Franco, assassinada em março. Durante a campanha eleitoral, num palanque em Petrópolis, dois candidatos a deputado destruíram uma placa parecida sob o olhar complacente de Witzel. “É para ele não se esquecer desse caso”, explicou Rosa.

Depois da solenidade, o governador deu uma rápida entrevista coletiva e anunciou, sem entrar em detalhes, uma de suas primeiras medidas: o estado vai compartilhar o banco de dados de criminosos procurados com empresas que possuem sistemas de vigilância por câmeras, como supermercados e lojas, para facilitar a identificação e a captura deles pela polícia. Na entrevista, Witzel também enfatizou o “gigantesco” déficit no orçamento fluminense, hoje em torno dos 8 bilhões de reais, e prometeu equilibrar as contas públicas por meio do combate à sonegação fiscal e à redução de despesas.

Da Alerj, o governador seguiu para o Aeroporto do Galeão. Num avião da Força Aérea Brasileira e em companhia de Rodrigo Maia, viajou a Brasília com a intenção de prestigiar a posse do presidente Jair Bolsonaro, à tarde. Antes de tomar o rumo do aeroporto, fez questão de subir na soleira do Chrysler e posar sorridente para os fotógrafos e cinegrafistas que o rodeavam.

 

Allan de Abreu (siga @allandeabreu1 no Twitter)

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

Leia também

Últimas Mais Lidas

Moro em baixa, Bolsonaro em alta

Monitoramento revela que, após demissões e vazamentos da Lava Jato, sentimento positivo do Twitter sobre o presidente atinge ponto mais alto desde a posse

Dor e Glória – lembranças luminosas de Almodóvar

Inteligência e sensibilidade marcam filme que traduz vulnerabilidade física do diretor e de Banderas

Na era da Lava Jato, Supremo nunca afastou juiz

Tribunal recebeu 190 pedidos de suspeição de magistrados desde 2014 e rejeitou todos

Um general da ativa no centro da articulação política

Novo ministro terá de deixar Alto Comando do Exército; divergências no uso da verba de comunicação e atritos com ala olavista, inclusive Carlos Bolsonaro, explicam demissão de Santos Cruz

RBG – Ruth Bader Ginsburg, a juíza da Suprema Corte que faz diferença

Mesmo aquém de seu personagem, documentário é chance de conhecer mulher singular

Moro contra a parede

Para especialistas, conversas entre ex-juiz e Dallagnol indicam parcialidade e, no limite, podem levar Supremo a anular julgamento de Lula

Alertas mais precisos contra o desmatamento

Nova plataforma gratuita de monitoramento flagrou, em seis meses de testes, quase 900 quilômetros quadrados desmatados

Mais textos
1

Excelentíssima Fux

Como a filha do ministro do STF se tornou desembargadora no Rio

2

A redenção dos cinco

Um filme sobre os rapazes presos por um estupro que não cometeram

3

Um general da ativa no centro da articulação política

Novo ministro terá de deixar Alto Comando do Exército; divergências no uso da verba de comunicação e atritos com ala olavista, inclusive Carlos Bolsonaro, explicam demissão de Santos Cruz

4
5

Moro contra a parede

Para especialistas, conversas entre ex-juiz e Dallagnol indicam parcialidade e, no limite, podem levar Supremo a anular julgamento de Lula

7

Procura-se um presidente

Dependência virtual e extremismo de Bolsonaro precipitam corrida política no campo da direita

8

Na era da Lava Jato, Supremo nunca afastou juiz

Tribunal recebeu 190 pedidos de suspeição de magistrados desde 2014 e rejeitou todos

10

Democracia corrompida

Políticos, empresários e partidos em vertigem no documentário de Petra Costa