questões latino-americanas

A oposição subterrânea na Argentina

É de dentro do metrô de Buenos Aires que vem a mais nova onda contra o presidente candidato à reeleição

Monica Yanakiew
23out2019_11h13
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE TONI PIRES/FOLHAPRESS

Na última segunda-feira, 21 de outubro, pouco antes do meio-dia, Mirta Lopez, de 65 anos, entrou no metrô de Buenos Aires e começou a falar no celular, quase aos gritos. “Nãaao (risadinha), paramos de fazer churrasco… mas juntamos as crianças para brincar.” A jovem ao lado levantou a voz: “Estou no metrô… tive que vender o carro.” O rapaz atrás dela também viajava com o telefone grudado no ouvido: “Férias? Nem pensar… estamos nos mudando para um apartamento menor.” Os pedaços de conversa se multiplicaram pelo vagão, de forma sincronizada – cada qual resumindo, numa só frase, algum drama da empobrecida classe média argentina. De repente, assim como começou, o rosário de queixas terminou. A cena se repetiu até nove da noite, ao longo de diferentes linhas de metrô, e vai continuar até 25 de outubro, antevéspera do primeiro turno da eleição presidencial argentina, neste domingo (27).

O que parecia uma improvisação teatral faz parte de uma ação de comunicação em massa de cinco dias organizada por jovens peronistas. O objetivo é buscar os votos dos ainda indecisos entre o liberal Mauricio Macri, que tenta a reeleição, e o peronista Alberto Fernández, à frente nas pesquisas e com chance de vencer no primeiro turno. Os últimos detalhes antes do início da mobilização foram discutidos nas três semanas anteriores. Um dos encontros, acompanhados pela piauí, aconteceu na noite de 2 de outubro, no Centro Cultural Simona, em Chacarita, o bairro portenho conhecido pelo cemitério com o mesmo nome, onde está enterrado o cantor de tango Carlos Gardel.

Irene Polimeni Sosa chegou cedo e sentou no chão, à espera dos companheiros da autodenominada Patrulha Perdida – a maioria, como ela, da geração “sub-30” (com menos de 30 anos). Quando o salão encheu, os quase setenta participantes formaram um círculo para discutir o plano: mobilizar batalhões de jovens peronistas nas quatro semanas anteriores à votação.

A Patrulha Perdida não tem dono, nem chefe. É um amontoado de grupos e indivíduos, nascido da necessidade dos jovens de se expressar politicamente, fora das estruturas partidárias. O lema deles é: traga uma boa ideia, consiga três cúmplices e executamos. Desde março, eles começaram a se reunir toda quarta-feira, em torno de uma missão: derrotar o liberal Macri no primeiro turno e em todas as frentes. Nesta eleição os argentinos também renovarão metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado e escolherão os governos de três províncias e da capital Buenos Aires.

Naquele dia 2 de outubro, surgiram muitas propostas criativas e artísticas, planejadas a partir de então com precisão quase militar. O comunicador Pedro Rosemblat, conhecido como Pepe, conduziu a discussão. “Faltam menos de quatro semanas para a votação… tudo indica que Alberto ganhará, mas Macri continua de pé. O que vamos fazer?”, perguntou ao público. Um a um, cada “grupo comando” respondeu. O Comando Festival organizaria shows musicais para atrair o voto jovem. O Comando Troll se infiltraria nas redes sociais dos macristas. 

Irene Sosa falou pelo Comando Publika. Anunciou que já havia 1 710 recrutas, todos voluntários, segundo ela, para uma missão mantida até então em segredo: a intervenção no metrô. “Neste momento, essas pessoas estão recebendo informações sobre o que planejamos”, disse. A roda aplaudiu. 

As mensagens, divulgadas por meio de diferentes grupos de WhatsApp, indicavam os dias, os horários e os locais de ensaio dos que participariam da ação no metrô de Buenos Aires – quarto maior distrito eleitoral da Argentina e bastião político de Macri. Antes de ocupar a Casa Rosada, ele foi chefe de governo da capital argentina, de 2007 a 2015. Neste mesmo período, a senadora Cristina Fernández de Kirchner, viúva e sucessora do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), governava o país. Ela planeja voltar ao poder como vice de Alberto Fernández. Ele conta com o apoio da coligação Frente de Todos, liderada por peronistas das mais diversas tendências – entre os quais os jovens da Patrulha Perdida, com seus comandos de campanha paralelos e independentes.

As flash mobs viraram uma espécie de febre na campanha peronista na oposição a Macri. No dia 29 de setembro, um domingo ensolarado, um piano apareceu no meio da tarde no gramado em frente ao planetário de Palermo – a poucos quarteirões do apartamento onde Macri vivia até ser presidente. A multidão foi se juntando. Muitos foram convocados por grupos de WhatsApp para o chamado Karaokê Cósmico, e foram se juntando ao ritmo do grupo de cumbia Sudor Marika. O ritmo era alegre, a letra nem tanto: “Já não consigo pagar o aluguel/Não sei o que fazer, não sei o que fazer/Que o dinheiro não seja um privilégio/Quero férias quando termino o colégio.” 

Macri também tem se empenhado em mostrar força nas ruas. Depois de convocar marchas em trinta cidades, encerrou a campanha no dia 30 de setembro com um ato na Avenida Nove de Julho, em frente ao Obelisco. Armados com bandeiras nacionais, seus apoiadores gritavam: “Sim, podemos, sim, podemos”, numa menção à cada vez mais remota chance de vitória.

Na era digital, enquanto a velha guarda política se reinventa para conquistar votos e likes no mundo virtual, a Patrulha Perdida aposta no corpo a corpo. Por quê? Pepe Rosemblat, de 29 anos, responde com a experiência de um influencer que faz sucesso no YouTube, nas rádios e na televisão – e tem 280 mil seguidores no Instagram. “Porque enviar mensagens pelo celular não é o mesmo que dar um beijo. Porque xingar Macri no Twitter não é o mesmo que juntar pessoas nas ruas em torno de um mesmo projeto de país. Porque sair de casa representa um esforço, mas também um compromisso maior.” Durante a reunião, apenas duas pessoas pararam para ler mensagens no celular. O mesmo clima analógico dominou os ensaios da intervenção no metrô, quatro dias depois, num clube de bairro. Telefone, só mesmo para ler o roteiro enviado aos atores, diretores e produtores. O número de inscritos tinha aumentado para 1 800. Irene – que tinha participado do projeto piloto como atriz – repassou o texto como diretora.

A intervenção no metrô não fala de política – apenas reproduz as dificuldades do cotidiano argentino na gestão de Macri, candidato à reeleição pela coligação Juntos por el Cambio (Juntos pela Mudança). O presidente foi eleito, em 2015, com a promessa de recolocar a Argentina no mapa dos países com peso econômico e influência no mundo, depois de doze anos do casal Kirchner no poder. Com ele, os argentinos não teriam limites para comprar dólares, a inflação anual seria reduzida a um dígito, e os empresários perderiam o medo de investir. O governo criaria empregos realizando obras públicas.

Em setembro, faltando três meses para o final do primeiro mandato de Macri, o Instituto Nacional de Estatística e Censo (Indec) divulgou cifras oficiais, mostrando uma realidade bem diferente daquela prometida pelo presidente. Somente em setembro, o custo de vida dos argentinos aumentou 5,9% – mais que em todo o ano no Brasil. A inflação acumulada desde setembro de 2018 chegara a 53,5%. É um dos índices mais altos do mundo e o segundo maior na região, depois da Venezuela. A economia continuava em recessão e a pobreza atingia um terço da população. E o governo já tinha avisado ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que não teria condições de pagar o empréstimo “histórico” de 57 bilhões de dólares, que pedira para estabilizar o câmbio e que conseguira, com o apoio dos Estados Unidos. Além do mais, a economia continua em recessão e 15,9 milhões de argentinos (35,4% da população) vive na pobreza. Segundo Agustin Salvia, diretor do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA), “cinco a seis pontos percentuais dos novos pobres são de classe média” – uma realidade que a campanha do metrô quis mostrar.

Cabelos escuros encaracolados, olhos verde-musgo, Irene tem 22 anos e mora com a mãe. Poeta, atriz e feminista, ela estuda Artes Combinadas na Universidade  de Buenos Aires (UBA) e trabalha, sem carteira assinada, para uma lanchonete, entregando comida aos escritórios próximos da Casa Rosada – o palácio presidencial. Caminha quatro horas diárias, em média, levando encomendas. “Nos últimos três anos e meio, passei a andar muito mais”, comenta, enquanto espera, no balcão, as sacolas com sanduíches e saladas. “Cada passagem custa 21 pesos e eu ganho em média 460 pesos por dia. Penso duas vezes antes de tomar um ônibus de casa para cá ou para a faculdade”, conta. “Todo mundo está apertando o cinto e cortando gastos, só para pagar as contas no fim do mês.”

No dia 7 de outubro, Irene chegou atrasada na lanchonete. Tinham acabado de cortar a luz da casa dela. Com a recessão, sua mãe, professora de literatura, perdeu alunos particulares. E a conta de eletricidade veio com um aumento maior que o esperado. No governo Macri, as tarifas dos serviços públicos – que vinham sendo subsidiadas desde a crise de 2001 – foram reajustadas. A crise afetou também o pai de Irene, que é jornalista de rádio e mudou de emprego três vezes nos últimos três anos. Ele foi demitido da emissora de rádio pública, na troca de governo, e teve que sair da Rádio La Plata, porque a empresa deixou de pagar os empregados.

No início do ano, Irene começou a militar em Les Jóvenes, um grupo criado para trazer temas jovens para o debate nacional. Mais de um terço dos argentinos habilitados para votar têm entre 16 e 30 anos de idade. Les Jóvenes defende o aborto legal, seguro e gratuito e a igualdade de gênero. Como muitos da idade dela, Irene usa a linguagem inclusiva – uma novidade dos últimos três anos. Os sub-30 já não dizem “todos e todas”, mas sim “todes” – termo linguisticamente igualitário, para incluir também aqueles que não se sentem representados pelas categorias de homem ou mulher.

Irene é militante peronista, fiel ao movimento criado pelo general Juan Domingo Perón, que foi presidente da Argentina por três vezes e morreu há 45 anos. “Não é algo do passado – o conceito de justiça social, que Perón pregava, continua tão vigente como na década de cinquenta”, diz Irene. “Para os jovens que, como eu, estão se formando agora sequer há expectativas de trabalho – não há futuro. Estamos angustiados. Temos memória histórica do que aconteceu no país há dezoito anos.”

Em dezembro de 2001, Irene era uma criança de 3 anos – pequena demais para entender a magnitude da crise política, econômica e social que sacudiu a Argentina. De um dia para o outro, o governo congelou as contas bancárias e o peso perdeu dois terços de seu valor. O povo saiu às ruas batendo panelas e gritando: “Fora todos.” Cinco presidentes passaram pela Casa Rosada em duas semanas e eleições foram convocadas para 2003.

Néstor Kirchner – governador da longínqua província de Santa Cruz, no extremo Sul da Argentina, e desconhecido para a grande maioria – ganhou com 22% e forjou a própria identidade de “peronista progressista”. Resgatou a bandeira dos direitos humanos, reabrindo os processos contra os militares, responsáveis pelos crimes da ditadura (1976-1983). E abriu espaço para os jovens. “Essa crise é a pior desde a de 2001 e nos afeta a todos”, diz Irene, enquanto ensaia. “Isso é o que queremos mostrar – mas também queremos dizer que merecemos algo melhor e podemos mudar a realidade com o nosso voto.” Como dizer isso, sem irritar os passageiros do metrô que apoiam Macri, nem violar as regras eleitorais? “Usando a sutileza. Mostrando uma situação real, que muitas vezes é triste, sem perder a alegria, nem a ternura”, responde Sergio Rosemblat – psicólogo, diretor de teatro e especialista em comunicação em massa.

A pedido do filho, Pepe, Sergio adaptou a técnica de “marketing ao vivo”, que usou com êxito com o setor privado, à campanha política. Em 1990, ele foi contratado por Procter & Gamble para lançar um sabão em pó na Argentina. “Tínhamos um orçamento menor que o concorrente, então tínhamos que ser criativos”, disse. A opção foi usar atores, no transporte público, para fazer propaganda do produto. Foram vistos por sessenta mil pessoas. “Um mês depois a empresa fez uma pesquisa e trezentas mil pessoas disseram ter visto a publicidade”, conta Sergio. “Passados outros trinta dias, o público tinha aumentado para 500 mil.” O segredo, segundo ele, é o boca a boca. “É diferente assistir a uma propaganda na televisão ou interagir com ela. É uma experiência que você vai lembrar e contar para outros”, explica. Ele usou a mesma técnica, anos depois, com a empresa Nokia, na Espanha.

Na campanha do metrô, nada foi deixado por acaso. Houve reuniões com os sindicatos dos trabalhadores e com os vendedores ambulantes, para que ninguém pisasse no calo do outro. Os atores e diretores também contavam com o Comando Audiovisual, para filmar e viralizar a encenação, e advogados, caso alguma coisa desse errado.

As pesquisas de opinião indicam que Fernández será eleito presidente, com chance de vencer no primeiro turno, mas também mostram sua vantagem caso haja segundo turno, em novembro. Depois do insucesso de Macri, um eventual governo peronista deverá contar com apoio parlamentar, provincial e sindical. O problema mesmo vai ser governar sem dinheiro e numa conjuntura internacional desfavorável, tendo ainda uma vice-presidente acusada de corrupção. Pergunto a Irene se ela tem medo do futuro. “Claro que sim, muito…”, diz. “Mas eu tenho 22 anos. Minha obrigação é ter esperança.” 

 

Veja aqui um dos vídeos com a intervenção no metrô de Buenos Aires:

Monica Yanakiew (siga @MonikaKiev no Twitter)

Baseada em Buenos Aires, cobre a América Latina há quase vinte anos. É coautora do livro "Argentinos: Mitos, Manias e Milongas" (Editora Planeta).

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