questões musicais

Outros sons

Eliete Negreiros
27set2012_19h37

Foi com Arrigo que aprendi a ouvir outros sons. Quando o conheci, eu já cantava, tocava violão e estudava filosofia. Conhecia bem a música popular brasileira, nossos clássicos. Pequena ainda, por influência de meu pai, ouvi Aracy de Almeida cantando Noel Rosa, Marlene cantando Assis Valente. Aprendi a tocar violão na época da bossa-nova, ouvia e tinha visto Caetano e Gil pela TV, acompanhei todos os festivais de música, conhecia a música de Paulinho da Viola e dos outros bambas da MPB. Tinha uma relação catártica com a música: ouvia, gostava, aprendia, cantava e pronto. Sempre fui intérprete: gostava de expressar meus sentimentos no canto e ainda hoje sou assim. Naquela época, eu não pensava na estrutura da canção, em como ela era feita, não analisava. Com Arrigo, aprendi a pensar a música. No começo, isso me parecia uma heresia: como assim, pensar? Música é para sentir! Mas depois fui descobrindo como a música era feita e, com isso, um novo modo de perceber, mais abstrato, mais sutil foi nascendo em mim. Sambar é chorar de alegria, é sorrir de nostalgia, dentro da melodia, já ensinava Noel. Fui aprendendo a ouvir melhor, a ouvir coisas que antes não ouvia. Foram se abrindo novas portas da percepção: Stravinsky, Schoenberg, Stockhausen. E foi misturando minha formação popular com esta nova visão musical que fui tecendo meu trabalho, aliando elementos tradicionais a elementos de vanguarda, ouvindo com ouvidos mais livres, como aprendi na cartilha sem receita de Oswald de Andrade e na vida de cada dia com meu amigo Arrigo Barnabé.


A Sagração da Primavera – Igor Stravinsky


A Sagração da Primavera por Pina Baush

Em 1982 Arrigo produziu meu primeiro LP, Outros Sons, onde gravei as músicas dos então novos compositores, Arrigo, Itamar, Passoca, Paulo Barnabé e uma mini antologia da canção popular. Este trabalho, Arrigo chamou  de primitivo-futurista, partindo da música Pipoca Moderna, na gravação de Caetano Veloso, onde há um entrelaçamento do antigo e do novo, da música que vem do folclore e da letra concretista de Caetano.



A música Outros Sons, de Arrigo e Carlos Rennó era, em si mesma, um manifesto: uma nova sonoridade era criada a partir da incorporação de procedimentos musicais e literários da arte de vanguarda à música popular brasileira, com alusão à Sagração da Primavera de Stravinsky. Composição atonal, com rítmica avassaladora, sonoridade percussiva, coloração timbrística original Outros Sons é um ritual  que sagra o encontro entre o primitivo e o moderno, o som dos tambores, rataplãs retumbantes tã-tãs tumbadoras tambores, sacra sã sangração sagra o clã em clamantes louvores, a música  de Stravinsky e a literatura de James Joyce, bababadalga ragta kami naron, konbtonton neron tuon tun trovar, nons kon,  o som da queda, Finnegans Wake. No meio do rito, aparece também um super-herói: oh yeahvoé shazam!


Outros Sons

Em Peiote, baião atonal de Paulo Barnabé, há uma alusão ao Canto dos Adolescentes, de Stockausen.

E também a citação da canção n.8, Noite, de Pierrot Lunaire, de Arnold Schoenberg, numa recriação de Augusto de Campos. Pierrot Lunaire (1912) foi composta para um ciclo de poemas de Albert Giraud, simbolista belga. O canto é uma declamação, um canto falado: na partitura só há uma indicação aproximada das notas. É o canto melancólico de um pierrot apaixonado, que vivia só cantando, versão moderna, expressionista e angustiada daquela canção de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres:


Peiote

Uma atmosfera impressionista surge na canção de Robinson Borba, Coração de árvore, um fandango com harmonia sofisticada:

O lirismo ingênuo e sofisticado está presente no som da viola da moderna moda de Passoca, Sonora Garoa:

E de meu amigo Itamar Assumpção gravei Fico Louco.

Na parte dedicada à canção popular, brasileira e americana, as canções que escolhemos foram cantadas por Orlando Silva e Sylvinha Telles. Dentre estas, a versão que Haroldo Barbosa fez de Beguin the beguine, de Cole Porter, gravada por Orlando Silva. Aprendi esta canção ouvindo Orlando Silva e Ella Fritzgerald.

Outros Sons foi chamado pela crítica musical de Novo Tropicália porque nele se realiza uma síntese do que estava acontecendo musicalmente em São Paulo no final dos anos 70 e início dos 80, a chamada vanguarda paulista. Com uma nova linguagem, quebramos as barreiras entre a dita cultura de elite e a cultura popular, entre o velho e o novo e convocamos os novos músicos e letristas para esta sagração.

Antropofagicamente, ao som de trumpetes e tambores, devoramos  Stravisnsky, Schoenberg, James Joyce, felizes e velozes, vorazes e ferozes. Pipoca moderna. Pipoca aqui, ali, pipoca além. Desanoitece a manhã? Tudo mudou?

Eliete Negreiros

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