colunistas

Oxigênio e sobrevivência

Prioridades na Cinemateca Brasileira e na vida

Eduardo Escorel
03jun2020_10h28

Referindo-se aos problemas institucionais crônicos da Cinemateca Brasileira (CB), Carlos Augusto Calil conclui a entrevista que ele e Adilson Mendes deram, na semana passada (26/5), ao podcast do site Outras Palavras afirmando: “Neste momento tudo isso é distante. Agora é socorro. Socorro é pagar salário, pagar as dívidas, retomar um mínimo de normalidade e bom senso. Se não houver um contraponto ao desmando do governo, a cultura fica atrelada. Ela fica a serviço ou, no mínimo, neutralizada por interesse do governo. A Cinemateca precisa ser salva, neste momento. Neste momento, ela precisa de oxigênio e perspectiva de sobrevivência, e depois o acerto de sua institucionalidade.” Trata-se de tentar esclarecer “Quem salvará a Cinemateca Brasileira?” e, para Calil, a receita se resume, de imediato, a fornecer “oxigênio e perspectiva de sobrevivência” para depois cuidar de sua configuração institucional. 

Com pouco mais de 15 mil assinaturas, a petição Cinemateca Brasileira Pede Socorro, divulgada em 15 de maio, está para ser encaminhada ao governo federal através da Secretaria do Audiovisual (SAv) da Secretaria Especial da Cultura. A petição termina com uma advertência: “Se a indiferença com o futuro do patrimônio audiovisual brasileiro persistir, as consequências serão ainda mais graves [do que o incêndio de 2016 e a enchente de fevereiro deste ano]. Sem os cuidados dos técnicos e as condições de conservação, todo o acervo se deteriorará de modo irreversível. Nesse caso, quando chegar o socorro de Brasília, as imagens do nosso passado terão se tornado espectros de nossa falência como nação.” 

Diante desse drama, sexta-feira passada (29/5) foi publicada no site de O Estado de S. Paulo a notícia que o governo federal vai rescindir o contrato de gestão [da CB] com a Associação Roquette Pinto – Acerp e reincorporar a Cinemateca à União. Em nota enviada ao Estado, o Ministério do Turismo e a Secretaria Especial da Cultura declaram que “a Cinemateca Brasileira não será fechada […] prosseguirá sob a direção da Secretária Regina Duarte.”  

Bem. O desmentido da decisão de fechar a CB que fora divulgada mais cedo no mesmo dia, poderia ser tranquilizador. Mas ao dar atenção primeiro à estrutura institucional do órgão, deixando para depois o oxigênio e a sobrevivência, o governo federal inverte as prioridades e mantém a Cinemateca em situação de risco. Diante das medidas urgentes indispensáveis para a instituição obter os meios necessários à preservação do seu patrimônio audiovisual e se recuperar, levando em conta o modus operandi do governo, persistem razões de sobra para causar apreensão. Embora defenestrada, a secretária Especial da Cultura não foi exonerada. Por sua vez, à frente da Secretaria do Audiovisual (SAv) está o quarto secretário em dezessete meses de gestão. Para se mostrar à altura do cargo e da dimensão da tarefa a ser resolvida, o atual secretário, Heber Trigueiro, teria que se mostrar capaz, em circunstâncias adversas, de socorrer a CB a curto prazo com os recursos necessários, sem aguardar que o novelo institucional seja desembaraçado.   



Manifestação do Movimento SOS Cinemateca está marcada para amanhã, quinta-feira, 4 de junho, às 11 horas, em frente à sede da Cinemateca, na Vila Clementino, em São Paulo. Será lido o manifesto CINEMATECA BRASILEIRA – Patrimônio da Sociedade, assinado por 11 instituições internacionais e cerca de 30 entidades profissionais brasileiras, entre elas Associação Paulista de Cineastas – APACI, Associação Brasileira de Cineastas – ABRACI, Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual – SICAV, Cinémathèque  Française, Cineteca di Bologna, International Federation of Film Archives – FIAF, Festival de Cannes, Institut Lumière e Federación Iberoamericana De Productores Cinematográficos Y Audiovisuales – FIPCA.  Em função da pandemia de Covid-19, o comunicado sobre o evento informa que todos deverão portar máscaras e manter distância de pelo menos 2 metros dos demais participantes.

O manifesto declara, entre outros aspectos,  “ […] estarmos assistindo à inaceitável deterioração de suas [da CB] funções que já atingiu um patamar absolutamente incompatível com sua importância. Técnicos valiosos e especializados foram demitidos, e as atividades foram reduzidas drasticamente. Entre outras coisas, isso se refletiu na subutilização dos equipamentos de ponta, fruto de vultosos investimentos, que correm o risco de sucateamento. muito a Cinemateca, em grave crise financeira, não recebe recursos governamentais necessários para o seu pleno funcionamento. Desde abril está com os salários dos poucos funcionários que restam atrasados e luta para pagar a conta de luz, que pode ser cortada a qualquer momento. Um eventual apagão elétrico será desastroso, pois atingirá a climatização das salas onde estão arquivados verdadeiros tesouros de seu acervo histórico. Sem refrigeração e inspeção constante, os filmes em nitrato de celulose – material altamente inflamável – ficarão expostos ao tempo e poderão entrar em autocombustão, como já ocorreu em 2016 […] a história do audiovisual nacional corre enorme risco […]” (o texto integral do manifesto e a lista completa dos signatários estão disponíveis aqui).

Sob certo aspecto, guardadas as diferenças devidas, reproduz-se na sociedade brasileira com um todo situação equivalente à da CB – a gravidade da pandemia impõe assegurar primeiro “oxigênio e perspectiva de sobrevivência”, além de aumentar o percentual de adesão ao isolamento social enquanto não houver evidências de inflexão das curvas de mortos e contaminados. Estão em curso, porém, diversas iniciativas para afrouxar o distanciamento físico, favoráveis à livre circulação individual, assim como à retomada da atividade comercial, prestação de serviços etc. É uma dicotomia alarmante. A mim, observador leigo em questões médico-sanitárias, diante dos dos 31.243 óbitos e 555.129 casos confirmados até 2 de junho, no Brasil, a chamada flexibilização parece um caso típico de recusa da realidade e mergulho na ilusão, mesmo admitindo haver situações diferenciadas país afora.

Não é a primeira vez que evoco a formulação do filósofo e escritor Clément Rosset (1939-2018), segundo a qual não há “nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real”. A recusa teria três formas radicais de se manifestar: suicídio, loucura e cegueira voluntária, como a de Édipo “perfurando os olhos […] e que encontra aplicações mais comuns no uso imoderado do álcool e da droga.” 

Cena do filme Limite

 

Modo usual de se livrar do “real que incomoda”, segundo Rosset, seria não recusar ver, nem negar o real que é mostrado, mas persistir no mesmo ponto de vista e comportamento, “exatamente como se não tivesse visto nada”. A percepção presente e o ponto de vista anterior coexistem. “Trata-se menos de uma percepção errada do que uma percepção inútil […] que constitui uma das características mais marcantes da ilusão.” “Na ilusão […] a coisa não é negada: somente deslocada, posta em outro lugar […] o iludido vê, à sua maneira, tão claro quanto qualquer outro.”

A reflexão de Rosset, desenvolvida em O real e seu duplo – Ensaio sobre a ilusão (José Olympio, 2008), ajuda no esforço para tentar entender ao menos duas questões presentes nesta hora. A primeira decorre das medidas de flexibilização que parecem ser precipitadas nos locais em que persiste o aumento diário de vítimas da Covid-19 e de contagiados pelo novo coronavírus. Creio ser ilusório acreditar que já podemos retomar atividades usuais anteriores à pandemia sem nos expor a riscos sérios nas cidades mais atingidas pela Covid-19, mesmo onde o número de mortes e de contagiados se estabilizou nos últimos dias, mas sem indicar tendência de queda.  

Do mesmo modo, a percepção inútil, característica da ilusão, talvez ajude a explicar a persistência do apoio de 33% dos entrevistados ao presidente da República, equivalente a cerca de um terço do eleitorado, segundo pesquisa Datafolha publicada em 27 de maio. Apoio que se manteve estável mesmo após a divulgação das enormidades perpetradas na reunião ministerial de 22 de abril e os desmandos cometidos ao longo da última semana. Haverá partidários convictos nesse grupo de apoiadores, mas mesmo esses parecem ter adotado a postura de quem está muito apressado e encontra um sinal vermelho no caminho, conforme exemplo dado por Rosset. Dentre as posturas possíveis, há a do motorista iludido que, embora faça “justiça ao real, concordando, pelo menos em aparência, com a percepção ‘normal’”, uma vez que percebe o sinal vermelho, conclui ser a sua vez de passar e avança o sinal, com as consequências previsíveis.

Na pesquisa da XP/Ipespe realizada na terça e na quarta-feira passadas (26 e 27 de maio), o grupo que considera o governo ótimo ou bom oscilou um ponto para cima, em relação à pesquisa anterior, chegando a 26%. Os que consideram o governo ruim ou péssimo, após aumento de 8% em pesquisas anteriores, oscilou um ponto para baixo, chegando a 49%.  

Há previsões sendo feitas indicando que chegaremos a ter mais de 125 mil mortos – quem ignora e se omite diante de catástrofe dessa dimensão, como é o caso do morador provisório do Palácio da Alvorada, ou furou os próprios olhos, ou assumiu a responsabilidade de avançar o sinal apesar de ter visto que estava vermelho. 

É possível conviver com ilusões menos ameaçadoras em relação às quais temos como nos precaver. A do cinema é uma delas. A começar por acreditarmos estar assistindo a pessoas e artefatos em movimento quando, na verdade, o que vemos é a sucessão imperceptível de imagens estáticas. A partir dessa invenção técnica no final do século XIX, criou-se a linguagem que, em sua vertente dominante, redobrou a ilusão dando ao espectador a impressão de estar diante de um fluxo visual contínuo, em vez de uma soma de fragmentos visuais delimitados. O caráter ilusório da impressão de realidade que o cinema nos dá se reafirma ademais por meio do glamour das estrelas e dos ambientes fantasiosos aos quais parece dar acesso. Mas apesar de ser, portanto, ilusório por natureza, há um cinema, documentário e de ficção, dedicado à tentativa ambiciosa de conciliar ilusão e realidade. Aprendizes e praticantes dessa vertente podem desenvolver percepção apurada para as armadilhas do caminho, inclusive as existentes em outros campos. 

No capítulo de filmes que há para assistir em isolamento físico, continua até 7 de junho o We Are One A Global Film Festival, com exibição diária gratuita de vários filmes escolhidos pelos curadores dos festivais de Berlim, Cannes, Veneza, Sundance, Toronto e Tribeca, entre outros. Um dos destaques é As Pontes de Sarajevo

Chagall dans son jardin à Saint-Paul-de-Vences (1952-1970), de Frédéric Rossif e Henri Langlois; Matisse (1951), de Frédéric Rossif e Henri Langlois; e Entretien entre Serge Daney et Jean-Luc Godard (1988), de Jean-Luc Godard, destacam-se entre as novidades da semana disponíveis na plataforma de streaming gratuito da Cinemateca Francesa.

As quatro partes de Me Cuidem-Se!, filme-processo de Bebeto Abrantes e Cavi Borges, com montagem de Wellington Anjos, continuam disponíveis no Vimeo por meio dos links https://vimeo.com/402303098 , https://vimeo.com/407230515 , https://vimeo.com/412990012 e https://vimeo.com/419779018. A quinta parte estreia hoje, 3/6.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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