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Pastor Cláudio – complacente ao filmar o inimigo

Sem revelações, documentário não reconstitui a história que seu protagonista não contou

Eduardo Escorel
27mar2019_11h56

Pastor Cláudio é um documentário perturbador. O incômodo decorre, em parte, do relato feito pelo pastor evangélico Cláudio Antônio Guerra, que foi delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no Espírito Santo, entre 1971 e 1990. Mas o desconforto resulta também do próprio filme, dirigido por Beth Formaggini, e da postura do entrevistador Eduardo Passos, psicólogo e militante de direitos humanos.

Na gravação do depoimento de Guerra feita para o filme, em 1º de abril de 2015, ele reitera entre outras barbaridades ter matado militantes de diferentes partidos e organizações clandestinas atuantes durante a ditadura (1964-1985), além de ter incinerado os corpos de outros. Isso, sereno, com aparente indiferença e sem demonstrar arrependimento, embora diga que mudou: “Hoje, sou outra pessoa. Hoje, eu sou leal a Deus.”

Guerra narra ainda outros crimes cometidos por agentes policiais e militares a serviço do Estado, nas décadas de 70 e 80, inclusive a morte de Zuzu Angel, em 1976, e o Atentado do Riocentro, em 1981, dos quais nem sempre participou pessoalmente, mas sobre os quais diz ter informações.

O relato do ex-delegado é estarrecedor, sem dúvida, particularmente quando escutado pela primeira vez. Soa requentado, porém, conhecendo seus inúmeros depoimentos anteriores feitos a partir de 2012. Sem novas revelações sobre os fatos que se tornaram notórios, ou sobre o próprio Guerra, o filme de Formaggini chega defasado à tela do cinema – sete anos depois de os crimes serem divulgados e decorridas quatro a cinco décadas desde que foram cometidos. Mais uma vez, a vocação de requiem do filme documentário debilita sua presumida contundência.

Registre-se que Formaggini concluiu, ainda em 2015, Uma Família Ilustre, versão preliminar resumida de Pastor Cláudio. Premiado em diversos festivais, o curta-metragem de 18’ foi feito com as mesmas gravações utilizadas depois no longa-metragem e está disponível no Portacurtas.

Desde a publicação de Memórias de Uma Guerra Suja, em 2012, o relato autobiográfico da atuação criminosa a serviço da ditadura do pastor Claúdio se tornou domínio público. O livro de Rogério Medeiros e Marcelo Netto teve ampla repercussão, esteve na lista dos mais vendidos e, segundo informações da editora Topbooks, foram feitas três reimpressões, totalizando quase 40 000 exemplares.

Apesar de alguns desmentidos e certa incredulidade, de forma geral a narrativa foi considerada verossímil, sem deixar de conter algumas imprecisões e episódios fantasiosos. Provocou ainda três ações judiciais contra a editora. A primeira, estapafúrdia, de uma ex-companheira do pastor; outra, relacionada a direito de imagem, e a terceira ainda está para ser julgada no Superior Tribunal de Justiça. Há notícias, além disso, de ameaças feitas à vida de Guerra.

Também em 2012, pouco depois de Memórias de Uma Guerra Suja ser publicado, Alberto Dines gravou, em Vitória (ES), a primeira entrevista de Guerra. Na apresentação do seu programa Observatório da Imprensa, produzido e exibido pela TV Brasil, Dines declara ter acabado “de ouvir um dos mais tenebrosos depoimentos, talvez uma das confissões mais fortes, mais dramáticas da história recente do Brasil”. (O programa está disponível aqui.)

Passados dois anos, Dines voltou ao assunto. A pedido de Guerra, gravou uma nova entrevista, feita em Serra, município próximo de Vitória. Sem novidades em relação ao livro e ao depoimento anterior, algumas declarações foram reiteradas com maiores detalhes. Na apresentação, Dines desta vez diz: “Agora, ao ouvir sua exortação calma, serena, nos ocorre que a banalidade do mal só pode ser enfrentada com a simplicidade do bem.” (Disponível em aqui.)

Segundo nos disse Lilia Souza, repórter e editora do Observatório da Imprensa, Dines “acreditava que o ex-delegado realmente havia se envolvido nas mortes e que as informações que o pastor tinha eram essenciais para esclarecer uma série de crimes daquela época, mas avaliava que havia algumas incongruências que mereciam uma investigação mais profunda por parte das autoridades”.

Em julho de 2014, Guerra prestou seu segundo depoimento público, em Brasília, à Comissão Nacional da Verdade, dessa vez com duas horas de duração. (Disponível na íntegra aqui.)

Cláudio Guerra e os desaparecidos. CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

 

Os crimes narrados em Memórias de Uma Guerra Suja e no primeiro programa do Dines voltam a ser descritos, inclusive o processo de incineração dos corpos, feito na usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro por ordem do coronel do Exército Freddie Perdigão, conhecido pelo codinome “Doutor Flávio”.

Entre as controvérsias havidas desde a publicação das memórias de Guerra, uma foi suscitada por Cecília Ribeiro Gomes, filha do proprietário da usina Cambahyba, ao afirmar que “teria sido impossível cremar corpos na usina, pois eles não caberiam nos fornos”. A diligência dos peritos da Comissão Nacional da Verdade apurou, porém, em agosto de 2014, que a data de fabricação das caldeiras, e o tamanho das portas dos fornos, reforçavam “a verossimilhança das declarações do ex-delegado.”

Passados de sete a cinco anos desde que as informações contidas no livro de memórias, em dois programas Observatório da Imprensa e no depoimento à Comissão Nacional da Verdade se tornaram conhecidas, sem contar o noticiário da mídia em geral, seria de esperar que um documentário baseado em depoimento original do ex-delegado Guerra não se limitasse a repetir os fatos da ótica do entrevistado. Mas é isso que ocorre em Pastor Cláudio.

Causa estranheza, desde o início do filme, o grau excessivo de cortesia dispensado a Guerra e a ausência de questionamento de suas afirmações. O entrevistador é complacente com o entrevistado e evita provocar antagonismos. Essa postura tática teria a intenção de levar Guerra a crer que há alguma conivência entre eles e a facilitar seu depoimento? Para o espectador, acredito que essa passividade de quem conduz a entrevista cause intenso mal-estar.

Caso raro de filme com bibliografia, apresentada nos créditos finais, Pastor Cláudio inclui Ver e Poder entre suas referências. Nessa coletânea de artigos e intervenções em debates, o cineasta e crítico de cinema Jean-Louis Comolli (Editora UFMG, 2008) pergunta se para combater o inimigo é preciso filmá-lo. E ainda: “Como? A que preço, sob que riscos se deve filmar?” (“Como filmar o inimigo?”, 1995).

As indagações de Comolli são feitas com o pensamento voltado para a filmagem dos dirigentes e militantes da Frente Nacional, partido francês de direita. Mas suas respostas indicam o que mais prejudica Pastor Cláudio.

Antes de responder, Comolli desdobra sua pergunta inicial em várias outras:

“Como representar, com efeito, o mecanismo tortuoso que faz com que a denúncia das ignomínias habituais […], até mesmo dos seus crimes – sempre negados, portanto, ao mesmo tempo que realizados –, seja transformada em argumento de sedução suplementar? […]”

“Será que passamos daquele ponto sem volta em que nem a mais assustadora descrição é suficiente para nos infundir medo?”

“Descrever para denunciar não é mais suficiente. Forçar o traço para denunciar, também não. Denunciar para preservar nossa boa consciência e nos colocarmos ao lado dos bons? Denunciar não é mais suficiente. Falemos de luta. Luta política, isto é, corpo a corpo cinematográfico – expor, explicar, colocar as palavras e os corpos em perspectiva, e não mais chapados. Filmar com profundidade (de campo, de cena). Campo e fora de campo. Visível e invisível. Em relevo, colocar em relevo. […] dar corpo e presença ao inimigo para que ele apareça em sua potência, tal como ele se apresenta hoje na cena política – uma ameaça a ser levada a sério. Aqui, o horror não é caricatural. Ele está no pensamento lógico, na racionalização, no cálculo, na negociação. O horror está na concretização da mais meditada aliança.”

“Debilmente ainda, o discurso público ousa articular o que interditava a si mesmo alguns meses antes. O ambiente é de aproximação, de sorrisos, de sorrisos perigosos. A morte ronda, sorridente, afável, ela já pousou sua mão sobre esse ombro, ela pode voltar. Com ela, voltam os fantasmas do passado, fascismo […]. Essas sombras passam no meio de corpos que são cada vez mais reais, cada vez mais espessos. Pois agora isso se reencarna. As ideias do inimigo ganham em corporeidade. É isso que dói.”

A meu ver, Pastor Cláudio não atende esses requisitos, apesar de Formaggini certamente conhecer o artigo “Como filmar o inimigo?” e o pensamento do autor. Creio, porém, que ela deu menos atenção ao início e se apegou demais ao final de uma recomendação de Comolli em que ele afirma ser “preciso odiar o inimigo, sem dúvida, e combatê-lo sem piedade, mas para isso é preciso compreendê-lo e poder contar a história que é dele e que ele não conta”.

Formaggini procurou compreendê-lo. Não me parece que tenha conseguido contar a história que ele não conta. Certamente, faltou odiá-lo e combatê-lo sem piedade. Assim, resta por fazer a “investigação mais profunda” que Dines pediu e o caso merece.

*

Pastor Cláudio estreou em 14 de março, em dez salas de dez cidades (Rio, São Paulo, Niterói, Porto Alegre, Teresina, Aracaju, Belo Horizonte, Manaus, Vitória e Recife), com uma sessão por dia, em média. A partir do dia 21, passou a ser exibido em doze salas, de doze cidades, inclusive Brasília, Rio Branco e Palmas, sempre com uma sessão diária, em média.

Na primeira semana, encerrada dia 20, Pastor Cláudio teve 1 010 espectadores, segundo informação da Arthouse, distribuidora do filme. A receita média de 1.347 reais nos quatro primeiros dias, em cinco salas, segundo os dados do portal Filme B, não indica que Pastor Cláudio possa alcançar resultado comercial expressivo. O circuito e a bilheteria são modestos, mas podem ser considerados heroicos levando em conta as características do filme e as condições do mercado exibidor.

Mais uma vez, configura-se o fenômeno da inadequação existente, de parte a parte, entre parcela significativa da produção brasileira e o circuito de salas. Enquanto não forem redefinidos os termos da exibição de filmes que não se enquadram nas expectativas de entretenimento do grande público, continuaremos a assistir à triste sucessão de fracassos comerciais previsíveis. Até quando?

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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