anais da corrupção

Paulo rico, Paulo pobre

Após deixar estatal paulista, Paulo Preto transferiu seu patrimônio e enriqueceu seus familiares; ele “empobreceu” em reais, mas possui 35 milhões de dólares em paraísos fiscais

Allan de Abreu
01mar2019_10h36
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO EM FOTO DE MATEUS BRUXEL/Folhapress
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO EM FOTO DE MATEUS BRUXEL/Folhapress

Assim que deixou a direção da Dersa, estatal paulista de obras viárias, em 2010, o engenheiro civil Paulo Vieira de Souza, 69 anos, demonstrou um surpreendente desapego dos seus mais valiosos bens imobiliários. Após sucessivas transferências de casas, apartamentos e terrenos para a ex-mulher, as filhas, algumas empresas e até sobrinhos, o patrimônio de Paulo Preto, como é conhecido, despencou de 5,7 milhões de reais em dezembro de 2009 para 1,1 milhão doze meses mais tarde. A redução de 70% no patrimônio do engenheiro coincide com sua saída do poder público e o avanço das investigações da Lava Jato. Há duas semanas, a força-tarefa da operação em Curitiba encontrou no Brasil, em nome do engenheiro, nove imóveis com valor declarado de 888 mil reais, além de 396 reais em uma de suas três contas bancárias no país.

Já a família Vieira de Souza e suas empresas enriqueceram vertiginosamente entre 2005 e 2010 – o patrimônio imobiliário quase dobrou, de 5,5 milhões de reais para 10,8 milhões de reais, de acordo com levantamento feito pela piauí em cartórios de imóveis do estado de São Paulo – todos os valores estão corrigidos pela inflação do período. Esses seis anos coincidem com o período em que, por indicação do amigo tucano Aloysio Nunes Ferreira Filho, o engenheiro foi diretor da Dersa, estatal responsável por grandes obras, com destaque para o Rodoanel, na Grande São Paulo. No cargo, seu salário, atualizado pela inflação, era de 25,2 mil reais mensais. Atualmente, os bens imóveis da família somam 12,8 milhões de reais.

 

 

A fortuna de Paulo Preto, 35,2 milhões de dólares (132 milhões de reais), está bem distante do país, mais precisamente no Deltec Bank, Bahamas, paraíso fiscal no Caribe, depois de uma temporada em um banco suíço. O Ministério Público Federal suspeita que, ao transferir bens imóveis para familiares e empresas e amealhar uma pequena fortuna em nome de uma offshore, Paulo Preto tivesse por objetivo blindar seu patrimônio. O engenheiro é apontado pela força-tarefa da Lava Jato como operador de propinas dos tucanos no governo paulista. Ele foi preso preventivamente no dia 19 de fevereiro, em investigação que o relaciona aos desvios de dinheiro da Petrobras. Nesta quinta-feira, dia 28, Paulo Preto foi condenado a 27 anos de prisão devido a fraudes em licitações de obras do Rodoanel por meio de um cartel de empreiteiras.

Terceiro de quatro filhos, Paulo Vieira de Souza nasceu em Taubaté, onde se formou em engenharia em 1972. Casou-se com Ruth Arana e passou a investir no mercado imobiliário – teve empresas de construção, incorporação e gerenciamento de centros comerciais. Em setembro de 1973, recém-formado, comprou uma casa no Butantã, bairro da Zona Oeste de São Paulo, por 274 mil reais, em valores corrigidos. Quatro anos mais tarde, construiu uma mansão de onze suítes – hoje transformada no Hotel Giprita, em Ubatuba, ainda de propriedade da família (está em nome da ex-mulher e das filhas).

Aos 31 anos, seu patrimônio em imóveis somava 1,6 milhão de reais. Em sociedade com o também engenheiro civil Paulo Roberto Millen, fundou a Souza Millen, incorporadora de imóveis – em 1986, a empresa construiu e vendeu um edifício de 88 apartamentos na Vila Suzana, Zona Sul da capital paulista. Na mesma época, criou outra empresa no ramo imobiliário, a JPB Comércio e Participações, sociedade com o empresário Jean Pierre Berjeaut, um dos fundadores da fábrica de cosméticos Natura.

No início dos anos 90, Paulo Preto – apelido que ganhou devido à pele escura e que ele odeia, por considerar racista – impulsionou seu patrimônio ao comprar três apartamentos em Santana, na Zona Norte de São Paulo, e de uma área de 171 hectares na cidade paulista de Campos do Jordão, em nome da JPB. O patrimônio imobiliário dele passou de 1,5 milhão de reais em 1991 para 6,4 milhões de reais, quatro vezes mais, dois anos depois. Naquela mesma época, entre abril de 1991 e janeiro de 1995, o engenheiro foi diretor de assuntos especiais do Metrô na gestão do governador Luiz Antônio Fleury Filho. No cargo, conheceu o então vice-governador, Aloysio Nunes Ferreira Filho, com quem estabeleceu estreita amizade, e tomou contato, pela primeira vez, com as grandes empreiteiras do país, que ele define como “irmandade”.

Em 1999, ao ser nomeado para comandar a Secretaria-Geral da Presidência, no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, Aloysio Nunes convidou o amigo para coordenar o programa Brasil Empreendedor, de auxílio a microempresas, com salário de 16,5 mil em valores corrigidos. “Eu entrei no 4º andar, numa sala perto do banheiro; oito meses depois, estava com três salas e 32 funcionários para mim”, disse à piauí, em reportagem publicada em 2012. Deixou o emprego em janeiro de 2003, para dois anos mais tarde retornar ao poder público, desta vez no comando da Dersa, na gestão do governador José Serra, onde o engenheiro reencontrou-se com a “irmandade”. Mais uma indicação de Aloysio Nunes. Paulo Preto soube retribuir a generosidade do amigo.

Em 2007, uma filha do engenheiro, a advogada Priscila de Souza, e a então mulher dele, Ruth Arana, fizeram um empréstimo de 300 mil reais, em valores da época, para Aloysio Nunes comprar um apartamento no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Na época, Priscila trabalhava para empreiteiras que tinham contratos com a Dersa.

Era o auge profissional de Paulo Preto. Durante as obras do Rodoanel, ele ganhou o prêmio de profissional do ano de 2009 do Instituto de Engenharia de São Paulo – o texto laudatório da assessoria da entidade exalta o lema do então diretor da Dersa: “Definir metas, traçar as estratégias e chegar lá.”

“Com uma canetada, cortei 108 milhões de reais da irmandade antes do começo da obra. Concorda que eles ficaram putos? Mas eles iam lá no Serra e perguntavam: ‘É pra fazer o que esse cara está dizendo? E ele falava: É’”, disse na mesma entrevista à piauí, em 2012. “Então, o que quero dizer é que tudo o que foi feito por mim na Dersa tinha o aval do governador José Serra.” O reinado do engenheiro na estatal acabaria em abril de 2010, quando o vice Alberto Goldman assumiu o governo no lugar de Serra, que deixou o cargo para disputar a Presidência. Ainda naquele mês, Goldman demitiu Paulo Preto – segundo o então governador, o “estilo falastrão” dele era incompatível com o cargo.

O nome do engenheiro veio à tona no segundo semestre daquele ano de 2010, quando, durante um debate na tevê, a então candidata petista Dilma Rousseff disse que Serra, seu adversário, devia explicações sobre “seu assessor Paulo Vieira de Souza” que fugira “com 4 milhões de reais de sua campanha”. O tucano não respondeu e, no dia seguinte, negou conhecer o engenheiro. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Paulo Preto soltou as frases que ficariam famosas: “Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada. Não cometam esse erro.” Naquele mesmo dia, Serra reformulou sua frase: admitiu que, sim, conhecia o engenheiro.

Desde então, Paulo Vieira de Souza não voltou a ocupar cargos públicos. Longe dos holofotes, tornou-se alvo de investigações do Ministério Público. Paulo Preto é réu em nove ações na Justiça por episódios relativos ao seu período na Dersa. São seis processos por improbidade administrativa e duas ações penais na Justiça Federal – a força-tarefa da Operação Lava Jato em São Paulo o acusa de participação direta em um cartel formado pelas empreiteiras, entre elas Odebrecht, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, para superfaturar o valor das obras do Rodoanel, além de desviar 7,7 milhões de reais em programas de reassentamento de famílias desalojadas em decorrência da obra. Paulo Preto foi condenado no caso do cartel. O engenheiro chegou a ser preso duas vezes por breves períodos em 2018 em decorrência dessas investigações.

Entretanto, quando os promotores e procuradores federais cruzaram o caminho de Paulo Preto, encontraram-no com muito menos imóveis em seu nome do que nos anos em que comandou a Dersa. Isso porque ele passou a transferir bens para parentes e para suas empresas. Tudo começou em 2009, quando o engenheiro terminou formalmente o casamento com Ruth Arana – à piauí, três anos depois, ele disse que a separação foi apenas no papel, por motivos fiscais. Em decorrência do divórcio, Paulo Preto doou à ex-mulher, em 2010, quatro imóveis: uma gleba de terras em Campos do Jordão, dois apartamentos e uma casa, no valor, somado, de 3,7 milhões de reais. Quatro anos mais tarde, Ruth transferiu os bens à empresa P3T Empreendimentos e Participações, criada naquele ano – o engenheiro ainda transferiria para a empresa um apartamento em Taubaté e uma casa no Guarujá. A P3T pertence ao engenheiro, à ex-mulher e às duas filhas do casal: a advogada Priscila e a jornalista Tatiana, ex-cerimonialista na gestão Serra. Essa última é ré, junto com o pai, na ação penal que acusa Paulo Preto de irregularidades nas desapropriações de áreas decorrentes das obras do Rodoanel.

Além de engordar o patrimônio da P3T, o engenheiro também doou uma casa no Jardim Paulista, em São Paulo, para os sobrinhos Alexandre, Vanessa e Guilherme, e um apartamento na Zona Norte da cidade a um motorista filho de japoneses, sem ligação direta com a família. Atualmente, Paulo Preto mora em um apartamento na Vila Nova Conceição, Zona Sul da capital paulista, registrado em nome da P3T.

A força-tarefa da Lava Jato em Curitiba descobriria, mais recentemente, que, em paralelo à carreira de engenheiro e gestor público, Paulo Preto manteve uma frenética atividade de doleiro no Brasil e no exterior, auxiliando diretamente a Odebrecht, maior estrela da “irmandade”, no esquema de desvio bilionário de recursos da Petrobras. Em sua delação, o doleiro Adir Assad disse que, em 2008, convidou Paulo Preto para integrar um esquema de lavagem de dinheiro da Odebrecht. Desde o ano anterior, o engenheiro possuía quatro contas no banco Bordier & Cie, de Genebra, Suíça, registradas em nome da offshore panamenha Groupe Nantes, do qual Paulo Preto era o beneficiário econômico e controlador.

 

Documento do banco Bordier & Cie, de Genebra, Suíça, atesta que conta pertence a Paulo Preto

 

Para o Ministério Público Federal no Brasil, as contas continham dinheiro oriundo de propinas de empreiteiras que o engenheiro angariou nos tempos de Dersa. Uma delas é a Odebrecht, que, em 26 de novembro de 2007, transferiu para uma das contas do Groupe Nantes 275 mil euros. Quase um mês depois, na véspera do Natal daquele ano, um dos responsáveis por gerenciar as contas do engenheiro na Suíça solicitou ao banco de Genebra a entrega de um cartão de crédito para Aloysio Nunes Ferreira Filho em um hotel de Barcelona, Espanha, onde o então chefe da Casa Civil do governador Serra estava hospedado. Para o MPF, é a prova de que a conta suíça também continha dinheiro ilícito não só de Paulo Preto, mas também da cúpula tucana – o que Ferreira Filho nega. No ano seguinte, 2008, a Andrade Gutierrez depositaria outros 643 mil dólares e a Camargo Corrêa, 309 mil dólares.

 

Controlador da conta de Paulo Preto na Suíça pede para banco disponibilizar cartão para Aloysio Nunes

 

Entre 2009 e 2010, as contas da offshore de Paulo Preto na Suíça receberam 3 milhões de dólares por meio de 31 transferências bancárias a partir de outras contas bancárias gerenciadas pelo advogado Rodrigo Tacla Durán. Durán, por sua vez, recebera os valores de offshores controladas pela Odebrecht. O objetivo das operações financeiras, segundo o MPF, era interpor camadas de lavagem do dinheiro e dificultar uma possível fiscalização.

Naqueles mesmos anos, segundo a delação de Adir Assad, Paulo Preto disponibilizou milhares de dólares para a Odebrecht e outras empreiteiras no Brasil – o que era essencial para girar o esquema de propina, uma vez que essas empresas necessitavam de muito dinheiro em espécie no Brasil para preencher o caixa dois de políticos, sobretudo no período eleitoral de 2010. Era um sistema de dólar-cabo no atacado – nesse esquema, o cliente entrega reais em espécie no Brasil para ter dólares creditados em suas contas no exterior, ou transfere dólares em contas no exterior e recebe em espécie, em reais, no Brasil.

Adir Assad disse que Paulo Preto costumava guardar grandes quantias de dinheiro em dois apartamentos na capital paulista: um na avenida Brigadeiro Luís Antonio e outro em nome da cunhada Sonia Arana – na delação, o doleiro afirma que o imóvel ficava no bairro Vila Nova Conceição, mas, na realidade, o apartamento de Sonia, com 156 metros quadrados, está situado no bairro vizinho de Indianópolis, onde a família Vieira de Souza ainda possui vários imóveis. No total, o apartamento chegou a abrigar 100 milhões de reais em dinheiro vivo – o engenheiro, segundo Assad, costumava colocar parte das notas para secar ao sol devido à umidade. Assad disse que entrava na garagem do prédio com um automóvel estilo perua e carregava, por viagem, de 12 a 15 malas com cerca de 1,5 milhão de reais cada.

Em 2017, quando a Lava Jato já descobrira o esquema de propinas e lavagem de dinheiro da Odebrecht, Paulo Preto transferiu o dinheiro da Suíça para as Bahamas. Mas, naquele mesmo ano, o Ministério Público suíço abriu investigação sobre o engenheiro e enviou ao MPF brasileiro os dados bancários que possibilitaram a investigação do engenheiro pela Lava Jato em Curitiba. Ao ser preso preventivamente há uma semana, Paulo Preto vive sua terceira temporada atrás das grades. Segundo reportagem da Folha, o engenheiro ameaça fechar um acordo de delação com os procuradores federais. Procurado pela piauí para comentar tanto a evolução patrimonial do engenheiro quanto o envolvimento dele nos esquemas da Odebrecht, o advogado José Roberto Santoro não se pronunciou.

Allan de Abreu (siga @allandeabreu1 no Twitter)

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

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