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Pesadelo em Manaus

Mais trinta mil mortos pela Covid em apenas trinta dias. Quem é o responsável por essa tragédia?

Eduardo Escorel
20jan2021_10h04
<i>Frame</i> do curta-metragem <i>I am a live</i>
Frame do curta-metragem I am a live FOTO: CAO GUIMARÃES/DIVULGAÇÃO

O que aconteceu em Manaus na última semana é desesperador. Difícil pensar em qualquer outra coisa, a não ser nessa tragédia. Diante de tamanho sofrimento, sobre o que eu poderia escrever ao retomar esta coluna, passado um curto período de férias?

Em artigo publicado no último sábado (16), no UOL, o escritor Julián Fuks reagiu com presteza à tragédia brasileira. O título de sua coluna é O inimaginável em Manaus: retrato de um país à beira da asfixia estatal. Tomo a liberdade de sintetizá-la aqui, mas recomendo a leitura na íntegra:

É inimaginável. O que nos chega numa profusão de notícias dramáticas, de vídeos caóticos, de áudios desesperados, o que subjaz à aflição de tantas vozes, sim, é inimaginável. O que acontece neste mesmo instante atrás das fachadas dos hospitais, através de suas portas escancaradas, por seus corredores abarrotados, nas câmaras de cuidado que se fizeram câmaras de morte: é inimaginável. O que nenhum fotógrafo até agora parece ter se atrevido a registrar, nenhum cinegrafista, os corpos arfantes subitamente privados do elemento mais essencial: é inimaginável. E porque é inimaginável, e porque seu horror foge às palavras, vale a incitação de Didi-Huberman: devemos imaginá-lo apesar de tudo.

[…] Neste caso específico, basta a imagem que constituímos em nossas mentes, o cenário de terror composto pelos relatos que nos chegam de Manaus. Há homens e mulheres morrendo por falta de oxigênio dentro dos hospitais, definhando no exato espaço que os deveria salvar. […]

Fuks conclui, mais adiante no texto:

Somo a minha voz aflita a tantas outras vozes. Por sua condução desastrosa da pandemia, equivocada em todos os aspectos, deliberadamente irresponsável e impiedosa, Bolsonaro tem que ser afastado do poder. Cabe imaginar o inimaginável: que a urgência seja enfim reconhecida, e que as muitas forças do país se somem nessa medida indispensável. Quem sabe assim o oxigênio volte a circular entre nós, quem sabe assim o país escape à morte por asfixia estatal…

 

Passado pouco mais de um mês desde que minha última coluna de 2020 foi publicada, no dia 16 de dezembro, o número de vítimas fatais da Covid-19 no Brasil pulou de 180 mil para mais de 210 mil. A média móvel de mortes nos últimos catorze dias aumentou 36%. Já foram contaminados pelo novo coronavírus mais de 8,5 milhões de brasileiros, e a média móvel de casos subiu 53% em duas semanas. Quem é responsável por essa calamidade? Nós sabemos quem. Embora não seja o único, ele é certamente o principal responsável e deve responder por isso, perdendo o mandato que hoje exerce e sendo proibido de concorrer a qualquer cargo eletivo no futuro.

As trapalhadas do governo federal submetem a vacinação a incertezas recorrentes. A atuação criminosa do Planalto fez do Brasil o segundo país do mundo com mais mortes pela Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos. No momento em que esta coluna está sendo publicada, somos também o terceiro país em quantidade de contaminados pelo vírus, perdendo só para americanos e indianos. Drauzio Varella foi muito claro na entrevista que deu à GloboNews, na última semana, quando enfatizou o que precisa ser feito hoje:

Nós temos que dizer para a população: vocês têm que tomar a vacina para não correr o risco de aumentar o número de mortes que nós temos no Brasil, que é absolutamente injustificável. Porque aí a morte é por uma causa evitável. É vergonhoso que um país como o nosso, com o SUS que nós temos, com condições de prestar ajuda médica à população, tenha que enfrentar esse número de mortes.

 

Na esfera restrita do cinema, uma reação expressiva à pandemia é I am a live, de Cao Guimarães – vídeo de 10 minutos e 22 segundos que fica em exibição até 7 de fevereiro na Galeria Nara Roesler, em São Paulo. O curta-metragem faz parte da exposição coletiva Na Espera: Produção no Isolamento, que reúne obras realizadas durante a quarentena. A partir do título, Guimarães indica ter se tornado uma live ambulante, restrito a encontros virtuais devido às medidas de isolamento contra o coronavírus. Contatos pessoais, apenas com o círculo familiar mais próximo. Ao mesmo tempo, para quem estiver disposto a ouvir, o artista avisa nesse mesmo título, a meia voz, que está vivo.

O vídeo de Guimarães transcorre em dimensões distintas e bem harmonizadas. Uma é visual; a outra, sonora. Do começo ao fim do curta-metragem predominam imagens em gradações de cinza e branco. Vemos vegetação e caminhos desertos à beira-mar, envoltos em névoa densa – ambiente onírico tão bonito quanto desolador. O áudio, além da trilha sonora do grupo musical O Grivo – notável, como sempre –, inclui a gravação de uma live em que dois homens conversam. Um deles é o neurocientista e professor titular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Sergio Neuenschwander; o outro, o contista, ensaísta e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Teodoro Rennó Assunção. O tema do diálogo é a morte. Reproduzo um trecho.

Neuenschwander: Agora, a ideia da morte, ela só é poderosa por uma única coisa maravilhosa que o ser humano tem que se chama consciência. Porque você só pode morrer sofrendo [se estiver] consciente. Isso é muito importante. Inclusive, a medicina de hoje procura avaliar a ideia da morte roubando a sua consciência…

Assunção: Eu quero ter o direito de me matar. Não quero ser morto por um vírus, não. Eu quero ter esse luxo de quem sabe decidir a própria morte. É muito diferente você estar deprimido e pensar em se matar, e ser acometido por um vírus e ter de morrer, mesmo sem querer. É bem diferente.

Neuenschwander: Estranhamente, a gente tem uma noção muito clara sobre a morte. Sabe por quê? Porque a gente morre todos os dias. Quando você perde a consciência. Quando você dorme sem sonhar, você está morto. Então, a gente tem uma experiência muito rica sobre a morte, todos os dias.

Pouco antes de o vídeo terminar, surge por um instante a imagem da tela de um laptop dividida durante a live. Além de Beto Magalhães, Cao Guimarães transborda de satisfação enquanto ouve a conversa entre o neurocientista e o escritor, seus amigos de longa data.

Assunção: Tem um livro, esse livro é muito interessante. Olha só como ele chega ao detalhe, aonde ele vai chegar para dizer que a gente está sempre apagando. Além do sono toda noite, ao piscar os olhos. Ninguém consegue ficar sem piscar os olhos.

Segue-se uma breve sequência de encerramento, feita de piscadas visuais – imagens alternadas com tela preta, todas com duração inferior a um segundo. E o vídeo termina.

Quem escreve com conhecimento de causa sobre o inimaginável em Manaus é Milton Hatoum, em sua coluna no jornal O Globo, no último domingo (17): “É na confluência de incompetência, descaso e crueldade que reside a tragédia de Manaus e no interior do Amazonas. A morte de dezenas, talvez de centenas de brasileiros por falta de oxigênio é uma ironia macabra: afinal, o estereótipo mais conhecido da Amazônia é o ‘pulmão do mundo’ […] O governo atual regozija-se com a plataforma de exploração de gás no Campo de Azulão, mas falta oxigênio para bebês, pacientes com insuficiência respiratória e para doentes de Covid-19 […] Há décadas o povo amazonense é vítima de descaso, humilhação, enganação, crueldade. Morrer por falta de oxigênio é o ápice desse exercício de crueldade.”

*

Callado, de Emília Silveira, estreia nas salas de cinema amanhã, quinta-feira (21), no Rio de Janeiro e em São Paulo. Antonio Callado, falecido em janeiro de 1997, completaria 104 anos no próximo dia 26. Com roteiro de Miguel Paiva e Silveira, o documentário, feito com apuro e com um acervo valioso, nos traz de volta o autor de Quarup em momento mais do que oportuno. É Callado quem diz no filme que “tanto o poeta como o romancista… esse homem não pode fingir que não tem nada que ver com o que está ocorrendo em volta dele. Isso, eu acho absolutamente monstruoso. Sobretudo em momentos graves da vida nacional. E você sabe que a gente vive momentos graves neste país. Ele não pode alegar que como ele é escritor, ele não sabe do que ocorre nas prisões, ou onde seja no país, no interior do país. Realmente, isso eu acho indesculpável. Quanto à liberdade de criação, essa deve ser total. Não vejo nenhuma incompatibilidade, entende, entre o sujeito escrever a mais hermética das novelas, ou dos poemas, e participar ativamente da vida, inclusive do sofrimento do país. Pelo amor de Deus!”

*

Na próxima terça-feira (26), às 11 horas, Piero Sbragia, Juca Badaró e este colunista conversam, no canal “3 em Cena”, com Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald, diretores do documentário #eagoraoque, que foi exibido entre outubro e novembro de 2020 na 44ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo. O filme foi incluído na próxima Mostra de Tiradentes. A sinopse publicada na Mostra de São Paulo indaga: “Como agir politicamente hoje? É possível mudar as coisas, as pessoas, a sociedade? E agora, o que fazer?” A conversa que acontece na próxima terça-feira poderá ser acessada através deste link.

*

A 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes, online e gratuita, acontecerá dos dias 22 a 30 de janeiro. Além de #eagoraoque, a programação inclui outros 114 filmes a conferir.



Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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