questões epidemiológicas

Pesquisa revela 12 vezes mais infectados que dados oficiais

Estudo em seis distritos de São Paulo feito por epidemiologistas, laboratório Fleury e Ibope encontra 5% de moradores com anticorpos para SARS-CoV-2

Camille Lichotti
15maio2020_22h30
Foto: Folhapress

Pesquisa para medir o alcance da infecção pelo novo coronavírus na cidade São Paulo trouxe resultados preocupantes: em seis distritos da capital, 5,2% dos moradores já tiveram contato com o vírus. Isso significa que um total de 18.299 pessoas já estavam infectadas quando a pesquisa foi realizada – 12 vezes o total de casos registrados nesses distritos pela vigilância epidemiológica da cidade até então, 1.535. A estimativa é que 91,6% dos infectados não entraram nas contagens oficiais. O estudo foi realizado por epidemiologistas, pelo grupo de laboratórios Fleury, em parceria com o Ibope, e concentrado em seis distritos, escolhidos por apresentarem as maiores taxas de casos e mortes por Covid-19 por cem mil habitantes. As análises foram feitas em Bela Vista, Jardim Paulista, Morumbi, Pari, Belém e Água Rasa. 

Para realizar os testes, os pesquisadores coletaram uma amostra de sangue venoso de 520 pessoas. A pesquisa de soroprevalência investigou a existência de anticorpos para o Sars-CoV-2, causador da Covid-19, produzidos dias depois da infecção. As amostras foram coletadas de 4 a 12 de maio em domicílios escolhidos aleatoriamente. Mesmo preliminares, os resultados atestam a gravidade do problema de subnotificação no Brasil e confirmam que os dados oficiais não retratam o verdadeiro estágio da doença. O Brasil é um dos países que menos testa no mundo – cerca de 3.400 testes por milhão de habitantes – e esse apagão de dados dificulta a adoção de estratégias de contenção da Covid-19. 

O teste realizado pelos pesquisadores identifica a presença de anticorpos também em pessoas assintomáticas, que não são testadas pelo SUS e não chegam sequer a entrar na contagem defasada de casos confirmados ou suspeitos mantida pela estatística oficial. Mas esses portadores assintomáticos também ajudam a espalhar a doença. A única forma de diminuir transmissão é o isolamento social.

Os pesquisadores relataram problemas na abordagem dos moradores. Alguns deles se recusaram a receber as equipes. Quando não eram os moradores, eram os porteiros. Os pesquisadores alertam que a circulação de boatos e fake news prejudicaram a ação da equipe. “Não existe nenhum tipo de teste sendo feito pelo estado ou município”, dizia um cartaz. “Estão assaltando as casas com esse pretexto”, foi outro boato que circulou pelas regiões da pesquisa.



As áreas escolhidas têm perfis socioeconômicos diferentes. Os distritos do Morumbi, Bela Vista e Jardim Paulista foram escolhidos por apresentarem mais casos em relação à população. Até o dia 11 de maio eram 1.265, 479 e 439 casos por cem mil habitantes, respectivamente. Pari, Belém e Água Rasa, áreas mais pobres e de maior de vulnerabilidade social, foram escolhidos por apresentarem as maiores taxas de morte. Até a mesma data, eram 92, 82 e 64 óbitos por 100 mil habitantes, respectivamente. Até o dia 11 de maio foram registrados 175 óbitos por Covid-19 nesses distritos. Levando em conta a quantidade de infectados calculada pela pesquisa, a letalidade aparente da doença é 0,95%. É um número parecido com o encontrado por pesquisadores franceses, que estimaram uma taxa de letalidade de 0,7% no país em maio, depois de quase dois meses de lockdown. 

Os pesquisadores brasileiros pretendem replicar o estudo para toda a cidade de São Paulo em junho. A capital concentra atualmente o maior número de casos registrados no Brasil. Uma pesquisa semelhante, mas feita com testes rápidos e menos precisos para detecção de anticorpos, está em campo no Brasil inteiro e deve ter resultados na próxima semana. Para essa pesquisa, a Universidade Federal de Pelotas faz a coleta e o Ibope realiza a amostragem.  

Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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