questões do futebol

Ponto corrido é o antifutebol

Na última rodada do Brasileirão de 2009, três times entraram em campo com chances de levar a taça: Flamengo, Internacional e São Paulo. No ano seguinte, a mesma coisa aconteceria com outros três clubes: Fluminense, Cruzeiro e Corinthians. O fato de, em dois anos seguidos, seis clubes diferentes chegarem à última rodada podendo ficar com o título é algo que creio jamais ter ocorrido em nenhuma das mais importantes ligas europeias. Sem ufanismo, mesmo porque não se está falando de qualidade, mas de equilíbrio, a gente pode afirmar que começa amanhã o campeonato mais difícil do mundo.

Jorge Murtinho
24maio2013_14h31

Na última rodada do Brasileirão de 2009, três times entraram em campo com chances de levar a taça: Flamengo, Internacional e São Paulo. No ano seguinte, a mesma coisa aconteceria com outros três clubes: Fluminense, Cruzeiro e Corinthians. O fato de, em dois anos seguidos, seis clubes diferentes chegarem à última rodada podendo ficar com o título é algo que creio jamais ter ocorrido em nenhuma das mais importantes ligas europeias. Sem ufanismo, mesmo porque não se está falando de qualidade, mas de equilíbrio, a gente pode afirmar que começa amanhã o campeonato mais difícil do mundo.

Gosto muito do Campeonato Brasileiro, mas não gosto do sistema de pontos corridos e acho que o principal problema é conceitual. Seus defensores levantam a bandeira de que só os pontos corridos garantem a justiça, por premiar quem se organiza, quem se planeja, quem é mais profissional. E aí é que entra a questão do conceito: não faz sentido querer associar o futebol à justiça.

Você pode ter um time muito melhor, massacrar o seu adversário, chutar trinta bolas na trave. Mas, se no último minuto leva contra-ataque e toma o gol, um abraço.

Futebol não tem nada de justiça ou de merecimento: no futebol, como se diz à beira da praia lá em Rio das Ostras, o negócio é balançar a roseira. O jogo é assim, e quem não gostar que invente outro. Defender os pontos corridos em nome de uma suposta justiça é, portanto, ir contra o preceito básico do futebol. É ir contra uma das características que o fazem ser tão bacana.



Outra coisa: claro que as zebras são sempre divertidas, mas o momento sublime do futebol está mesmo é nos grandes clássicos. Nenhum corintiano vai dizer que o jogo da sua vida foi Corinthians e XV de Piracicaba disputado no Parque São Jorge. Vai ser sempre um Corinthians e São Paulo no Morumbi, um Corinthians e Palmeiras no Pacaembu. Só que, como os grandes costumam se devorar entre si (X ganha de Y que ganha de Z que ganha de X), os campeonatos por pontos corridos acabam decididos pelos jogos contra os pequenos. E quando a gente vai ver, o Cruzeiro não foi campeão brasileiro por ter derrotado o Internacional, o Flamengo e o Fluminense; o Cruzeiro foi campeão brasileiro por não ter perdido pontos para o Ipatinga, o Paysandu e o ABC de Natal.

Campeonato que se preza tem que ter final, com os dois times brigando pelo título. Todo flamenguista com mais de quarenta anos lembra que, na decisão do Brasileiro de 1980, os gols rubro-negros foram feitos por Nunes, Zico e Nunes. Entretanto, pergunte aos flamenguistas quem fez o primeiro gol do time no jogo do título de 2009, há menos de quatro anos. A maioria já esqueceu. O motivo? Em 1980 – contra o Atlético Mineiro de Reinaldo, Toninho Cerezo, Luisinho e Éder – houve uma decisão de verdade, com um timaço do outro lado jogando pelo empate para ser campeão. Já em 2009, o desinteressado adversário foi o Grêmio, que escalou oito reservas e entrou em campo doido para perder. Ano passado, depois da vitória sobre o Palmeiras por três a dois, Fred precisou ser avisado por um repórter que o Fluminense acabara de se tornar campeão brasileiro. Existe algo mais sem graça? Um título importantíssimo, mas frio, com menos de dez mil pessoas num estádio onde cabem quase quarenta mil, lá nos cafundós de Presidente Prudente.

Só o caráter épico de uma decisão pau a pau é capaz de tornar inesquecível um gol de barriga, como o de Renato Gaúcho. De redimir e consagrar jogadores de qualidade discutível e apelidos que não ajudam – Cocada, Adriano Gabiru, Flávio Caça Rato. E de alimentar assuntos como o impedimento de Túlio e a condição legal de Camanducaia na final do Brasileirão de 1995, entre Botafogo e Santos. Não há santista que não coloque o juiz Márcio Rezende de Freitas na condição de inimigo número 1 do clube.

Para que emoções e discussões como essas ocorram nos pontos corridos, é preciso que, depois de 37 rodadas e 111 pontos disputados, dois times cheguem ao capítulo final em igualdade de condições. O que até pode acontecer, como está lá no primeiro parágrafo desse post, mas vamos combinar que não é bolinho.

As duas mais importantes e cultuadas competições futebolísticas que existem são decididas no mata-mata. Quer dizer: pra Copa do Mundo, o mata-mata serve. Pra Champions League, o mata-mata serve. Pro Campeonato Brasileiro, o mata-mata é um retrocesso. Não faz sentido.

Leia aqui o post de apresentação do blog

Jorge Murtinho

Jorge Murtinho foi autor do blog questões de futebol no site da piauí

Leia também

Últimas Mais Lidas

A renda básica, o teto de gastos e o silêncio das elites

Desafio é fazer caber no orçamento de 2021 um programa mais robusto que o Bolsa Família e mais viável em termos fiscais que o auxílio emergencial

A culpa é de Saturno e Capricórnio, tá ok?

Como Maricy Vogel se tornou a astróloga preferida dos bolsonaristas 

Um satélite oculto

Governo declara sigilo sobre decisões de Junta que analisa gastos públicos e complica a mal contada história do equipamento de 145 milhões para monitorar a Amazônia

Cresce força de PMs na política

Entre profissionais da segurança pública que se candidataram, proporção de eleitos triplicou de 2010 a 2018

Homicídios crescem mesmo durante isolamento social

Anuário Brasileiro de Segurança Pública destaca “oportunidade perdida” para reduzir mortes violentas e maior subnotificação da violência de gênero

Praia dos Ossos: ouça o sexto episódio

Podcast original da Rádio Novelo reconta o assassinato de Ângela Diniz

O PL das Fake News e a internet que queremos

Projeto, da forma que está, contribui para a desinformação

Mais textos
4

Maria Vai Com as Outras #4: Gênero, número e raça

Empresária do ramo da beleza e uma doutora em psicologia explicam como as grandes empresas veem, recebem e remuneram a mulher negra

6

Camaradas!

O PCB existe, luta e não entrega os pontos

7

Incomum, decisão pró-Bretas envolveu falha judiciária

Ao menos 19 juízes não conseguiram da Justiça duplo auxílio-moradia; AGU levou 29 meses para recorrer de sentença a favor de Bretas

9

Em defesa dos adjetivos

Ditadores e generais costumam dispensar tudo o que não seja verbo e substantivo

10

Maitê Proença tira sutiã contra botox de Álvaro Dias

FINA ESTAMPA - O sucesso do vídeo contra a usina de Belo Monte botou em polvorosa os atores globais. Nos últimos quatro dias, 14.329 vídeos foram gravados com opiniões contra e a favor da unha encravada, da comida orgânica, da ilha de Capri, de assessores de imprensa e de cremes para as mãos, entre outras dezenas de assuntos. "A população brasileira não pode ficar às cegas", explicou William Bonner, que gravou um depoimento defendendo as mechas brancas nos cabelos de âncoras de telejornais do horário nobre.