questões da opinião pública

Por que a popularidade de Bolsonaro cresce?

As explicações vão da psicologia humana às instituições brasileiras, mas a principal é a distribuição de renda

Lucas de Abreu Maia
19ago2020_13h38
Foto: Alan Santos/PR

“Morriam nas ruas, nas lavouras e nas casas, de dia e de noite, indiferentemente, não como homens, mas quase como animais”, escreveu Giovanni Boccaccio no clássico O Decamerão, acerca da chegada da peste negra a Florença em 1348. Quase sete séculos depois, nos perguntamos como é possível que, diante dos mais de cem mil cadáveres da pandemia de Covid-19 no Brasil, a popularidade do presidente Jair Bolsonaro tenha não só se mantido estável, mas esteja em alta, quando não há dúvidas de que a tragédia brasileira seja culpa do governo atual. Pelos dados da pesquisa Datafolha realizada em 11 e 12 de agosto, 37% acham o governo ótimo e bom – a maior marca desde o início do mandato. Em junho, eram 32%. Os que acham o governo ruim e péssimo caíram de 44% para 34%. 

Perguntamo-nos, mal disfarçando a superioridade moral, em que momento nos tornamos tão indiferentes à morte. Ocorre que a resignação diante de uma doença avassaladora parece ser a regra, não a exceção, na história da humanidade. De 30% a 60% da população europeia morreu naquela que foi a maior pandemia da história. A resposta, contudo, não foi a revolta, fosse contra Deus ou contra a ordem social. Em vez disso, Boccaccio descreve a indiferença: “tampouco eram estes [os mortos] honrados por lágrimas, círios ou séquito; ao contrário, a coisa chegara a tal ponto que quem morria não recebia cuidados diferentes dos que hoje seriam dispensados às cabras.”

Não é que os florentinos fossem particularmente estoicos. Ao contrário: a aquiescência à morte alheia é recorrente nas narrativas das pragas, de Um Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe, até A Peste, de Camus. A resposta da humanidade diante da doença contagiosa não parece ser a raiva, mas a indiferença.

O aumento da popularidade de Bolsonaro justamente enquanto o Brasil chegava e ultrapassava a marca dos 100 mil mortos parece ter gerado um pânico na parcela mais iluminista da população do país. Será que perdemos nossa bússola moral? Vamos recompensar um governante cuja indiferença, incompetência e crueldade levou ao espalhamento da doença que a tantos matou e que muitos mais, infelizmente, há de matar? Mas a verdade, mais prosaica e talvez mais deprimente, é que há muitas explicações para o aumento na popularidade de Bolsonaro.



 A primeira delas é, justamente, a dificuldade da cognição humana de criar cenários contrafactuais. De pouco adianta epidemiologistas afirmarem repetidamente que a situação do país seria outra se o distanciamento social tivesse sido implementado a sério, se houvesse coordenação federal pelo Ministério da Saúde, se tivéssemos investido em testagem em massa e rastreamento de contatos. As pessoas vivem na realidade, não em cenários hipotéticos. O eleitor não projeta sobre o governante seu mundo ideal. O eleitor só conhece o aqui e o agora.

E o aqui e o agora de muitos brasileiros melhoraram na pandemia. A extrema pobreza caiu ao menor nível desde que se tem notícia. A desigualdade também está em queda. Claro que a melhora é temporária, mas os 600 reais do auxílio emergencial, pago pelo governo àqueles mais afetados pela pandemia desde abril, mudam a vida de muita gente. Basta pensar que isso é três vezes o valor médio do benefício pago pelo Bolsa família – e o efeito do Bolsa Família sobre a popularidade de Lula já foi bem estudado.

 

Pouco importa que, conforme bem notou Celso Rocha de Barros em artigo na Folha de S.Paulo de 17 de agosto, o governo federal fosse de início contrário ao auxílio emergencial e que Bolsonaro – de propósito, por incompetência ou ambos – demorou para liberá-lo. O eleitor não avalia intenções. O dinheiro acabou caindo na conta de mais de 66 milhões de brasileiros. Só isso importa.

Que só isso importe pode chocar àqueles de nós que podemos nos isolar enquanto mantemos, mais ou menos, nossa renda. No entanto, para uma grande parte do Brasil, o desemprego, os salários baixos e cada vez mais instáveis, a violência policial e a falta de perspectivas são ameaças constantes e antigas. A Covid-19 é só mais uma das muitas causas de morte. Por que haveriam de se preocupar com essa mais que com todas as outras? Para esses brasileiros, 600 reais são uma bonança como nunca viram.

A redução, provavelmente temporária, da extrema pobreza, é portanto claramente a maior causa por trás do aumento de popularidade de Bolsonaro – um aumento que não deveria surpreender ninguém familiarizado com a vasta literatura da ciência política que vincula a popularidade de um presidente ao poder de consumo da população. Mas essa não é toda a história. Talvez a verdadeira pergunta seja: com mais de 66 milhões de brasileiros ganhando 600 reais desde abril, não deveríamos esperar que a popularidade do presidente fosse bem maior?

Por mais que os 37% de apoio a Bolsonaro, segundo o último Datafolha, choquem aqueles que acompanhamos o noticiário com suficiente atenção pra saber que a reação do governo à pandemia foi catastrófica – e que, mais importante, não dependemos de 600 reais para viver –, não podemos perder de vista que o saldo da avaliação do presidente é muito baixo. A diferença entre os que acham a administração dele ótima ou boa e os que a consideram ruim ou péssima é de só 3 pontos percentuais. Conforme apontou Cesar Zucco no site da piauí, 30% ou 40% de popularidade estão longe de ser números confortáveis para um presidente. É bom lembrar que a popularidade de Dilma Rousseff estava na casa dos 30% após os protestos de 2013 e que esses números eram considerados uma catástrofe à época. Gilberto Kassab deixou a prefeitura de São Paulo com cerca de 30% de ótimo ou bom – foi uma das piores avaliações da história.

Claro que os tempos são outros e que nem Kassab nem Dilma carregavam sobre os ombros o peso de mais de 100 mil mortes. É verdade, também, que a popularidade de Bolsonaro pode hoje estar mais próxima ao patamar de 40% que de 30% – embora seja cedo para afirmar isso com qualquer certeza.

 

Uma outra pergunta interessante, apresentada por Maria Cristina Fernandes no Valor Econômico de 7 de agosto é: como Bolsonaro pode sobreviver politicamente mesmo com essa popularidade medíocre? Afinal, Donald Trump tem cerca de 40% de popularidade e parece estar encaminhado para uma derrota nas eleições presidenciais americanas, em novembro.

O presidente americano também enviou cheques à população do seu país – e, diferentemente de Bolsonaro, Trump foi esperto o bastante para, de cara, associar seu nome ao auxílio. Ainda assim, a gestão que fez da pandemia parece ter prejudicado a ele mais que a Bolsonaro. Por quê?

A primeira razão para isso é que o fracasso americano diante da Covid-19 é, se possível, ainda mais chocante que o brasileiro. Os EUA são o país mais rico e tecnologicamente avançado do mundo. Que nos EUA tenha morrido mais gente que em qualquer outro lugar do mundo é uma catástrofe inimaginável e que provavelmente vai afetar a posição do país globalmente para o resto da história.

Há ainda o fato de que a economia americana depende muito menos do Estado que a brasileira. Os 1.200 dólares pagos – em uma única parcela, é bom ressaltar –, embora importantíssimos, claro, significam muito menos a um americano que 600 reais mensais significam a um brasileiro.

Mas o papel mais importante, talvez, caiba às instituições políticas. Num país claramente bipartidário, como são os EUA, cada ponto de popularidade perdido pelo presidente vai diretamente para a oposição. Portanto, um presidente que só é aprovado por 40% dos americanos está sob o sério risco de não se reeleger.

À guisa de comparação, um primeiro ministro com aprovação baixa é rapidamente removido em um sistema parlamentarista, por meio do voto de desconfiança. Já o Brasil está num limbo. Vivemos num regime presidencialista, mas, diferentemente dos EUA, temos uma miríade de partidos. A oposição a Bolsonaro não é galvanizada por um único grupo político ou candidato. O resultado é um governo que pode sobreviver com uma aprovação medíocre.

Difícil dizer quão sustentável é essa aprovação, medíocre que seja. Ninguém sabe ao certo por quanto tempo e a que custo o governo conseguirá manter o auxílio emergencial. A inesperada redistribuição de renda amorteceu o impacto mais violento da crise econômica gerada pelo distanciamento social. Mas parece claro que vários países sairão da pandemia com dívidas enormes. Não vejo como o Brasil – que já tinha suas contas públicas em frangalhos – consiga evitar uma crise fiscal por muito mais tempo. Como o governo Bolsonaro reagirá a ela? Quem acha que bem não está prestando atenção.

Diante da gestão assassina da pandemia, da incompetência generalizada, do flerte autoritário e da corrupção comezinha da família Bolsonaro, a resiliência da popularidade do presidente pode chocar. Mas, na verdade, o que deveria nos surpreender é quão inelástica ela vem se demonstrando, mesmo com a enxurrada de dinheiro no bolso dos brasileiros. Resta saber quanto tempo a benevolência do Estado durará.

Sob o risco de soar poliana, espero que a atual tragédia brasileira nos ofereça ao menos uma lição para o futuro: quem quiser governar o Brasil e ser popular precisa de uma política pública agressiva de redução da pobreza e da desigualdade. Lula já havia sugerido que esse era um caminho seguro para o sucesso político. Bolsonaro, sem querer, acabou provando o ponto do seu maior adversário.

Lucas de Abreu Maia (siga @lmaia no Twitter)

É jornalista e doutorando em ciência política na Universidade da Califórnia, San Diego. Foi repórter de O Estado de S. Paulo e Exame

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