questões planetárias

A chegada da primavera em Marte

Duas pesquisas inéditas comprovam a existência de moléculas orgânicas e reforçam a hipótese de vida no planeta – graças à mudança de estações

Edison Veiga
07jun2018_16h33
IMAGEM: MARK GARLICK_GETTY IMAGES (CONCEPÇÃO ARTÍSTICA)

Desde que observações astronômicas comprovaram que Marte tem uma inclinação em seu eixo – assim como a Terra –, constatou-se que o planeta vizinho também tem suas estações. O que não se sabia é que as variações de temperatura ao longo do ano marciano provocam um impacto na composição de sua atmosfera. Estudo inédito feito por cientistas da Nasa apurou que essas variações causam a liberação de um gás que está associado ao desenvolvimento da vida: o metano.

É a primeira vez que se comprova a presença consistente do gás na atmosfera marciana, além de sua relação com a variação da temperatura local – entre 140 graus negativos no inverno até 30 graus positivos no verão. Há ainda um segundo estudo, que encontrou compostos orgânicos no planeta, desta vez incrustados em rochas. As duas descobertas, publicadas na revista Science nesta quinta-feira, ainda não permitem a confirmação da existência de vida no planeta vizinho. Mas são indícios de que há milhões de anos houve de fato uma primavera marciana.

Os estudos foram realizados a partir de dados do rover Curiosity, o carrinho-robô de 899 quilos que vasculha o planeta desde agosto de 2012. Uma das tarefas do rover é a análise periódica da atmosfera do planeta – em uma delas, encontrou o metano, a molécula orgânica mais simples. “Na Terra, o metano é produzido na atmosfera predominantemente através de processos biológicos. Sua existência em uma atmosfera como a de Marte é reconhecida como uma bioassinatura potencial cujas fontes poderiam incluir bactérias metanogênicas”, escreveu o físico-químico Christopher Webster, da Nasa, um dos autores do estudo. “Houve inúmeros relatos de metano na atmosfera de Marte desde 2004. Nenhuma dessas observações anteriores mostra uma tendência sazonal, temporal ou espacial repetitiva.”

Usando dados de medições atmosféricas realizadas pelo rover durante três anos marcianos, o equivalente a 55 meses terrestres, os cientistas observaram que a concentração aumenta muito no verão, ao menos no hemisfério Norte do planeta. Isso leva a crer que o gás fica armazenado no subsolo do planeta, muito frio, em cristais à base de água (tecnicamente chamados de clatratos) e, com o aumento da temperatura na superfície, o metano é liberado na atmosfera. “Não podemos concluir exatamente de onde vem esse gás. Mas acreditamos que venha de baixo da superfície e esteja se infiltrando através de rachaduras e fissuras até ser liberado na atmosfera”, disse à piauí o cientista Webster.



A pesquisa que encontrou o metano também identificou, aliás, que  as concentrações do gás variam ao longo do ano, sendo mais altas no auge do verão. “Possivelmente por causa da temperatura elevada”, explicou Webster. No caso do planetinha vermelho, o ano é praticamente o dobro do terrestre – 687 dos nossos dias, para ser mais exato. Como sua órbita em torno do Sol é mais alongada do que a da Terra, as estações não têm todas a mesma duração. No hemisfério Norte do planeta, por exemplo, a primavera dura sete meses, o verão seis, o outono pouco mais de cinco meses e o inverno quatro meses.

A existência do metano não é suficiente para comprovar a hipótese de vida em Marte justamente porque – embora não seja o mais comum – o gás também pode ser resultado de reações químicas sem nenhum ser vivo envolvido. “Essas descobertas são passos na direção certa, embora ainda não definam se há ou houve vida em Marte”, comentou à piauí o físico e engenheiro brasileiro Ivair Gontijo, que faz parte da equipe da Curiosity, autor do livro A Caminho de Marte (Sextante, 2018).

 

A segunda pesquisa publicada nesta quinta-feira analisou amostras de solo marciano e encontrou moléculas orgânicas impregnadas em rochas de 3 bilhões de anos atrás. Essas rochas são denominadas lamitos – aglomerações sedimentares à base de argila e silte. Graças a ferramentas que o carrinho-robô Curiosity carrega a bordo, foi coletada terra de dois locais do planeta: a cratera Mojave, no quadrângulo de Oxia Palus, e as colinas Confidence, no chamado quadrângulo de Aeolis. A análise feita pela sonda envolveu o aquecimento do material, que liberou moléculas orgânicas voláteis, provavelmente remanescentes de rochas sedimentares ricas em nutrientes semelhantes aos encontrados na Terra. Como exemplos, os pesquisadores citaram o tiofeno, o 2 e 3-metiltiofenos, o metanotiol e o dimetilsulfureto.

Tampouco foi a primeira vez que moléculas orgânicas foram encontradas em Marte. O próprio Curiosity já havia coletado amostras. Mas é uma nova e forte evidência, degrau a degrau, da compreensão da atmosfera marciana – e da busca por vida no planeta. “A nova descoberta expande o inventário de moléculas orgânicas observadas in situ em Marte e promove nossa compreensão de como essas moléculas são preservadas na superfície”, avaliou à piauí a bioquímica e geóloga da Nasa Jennifer Eigenbrode, uma das autoras do estudo. “O ambiente da superfície tem muita radiação ionizante e oxidantes que tendem a quebrar os orgânicos. Assim, as informações registradas pelos orgânicos, e até certo ponto as próprias moléculas, são perdidas durante a exposição à superfície. O fato de que os vemos é uma surpresa para muitos cientistas, confirma uma previsão feita na década de 70, mas não comprovada até aqui.”

Apesar das descobertas, Eigenbrode joga um balde de água fria em quem espera a manchete “Confirmada existência de vida em Marte”. “Ainda não há as evidências necessárias. As moléculas orgânicas que foram detectadas podem ter vindo de meteoritos, processos químicos ocorridos em rochas ou, sim, da biologia. Por enquanto, simplesmente não temos informações suficientes, por meio das análises realizadas, para distinguir quais dessas possíveis fontes são responsáveis pela fabricação dos orgânicos”, afirmou.

Em conversa com a piauí, o brasileiro Gontijo procurou demonstrar que dá para enxergar algo além no horizonte vermelho. “Essas descobertas são passos na direção certa, embora não o suficiente para afirmarmos se há ou se já houve vida no planeta vizinho”, disse. “No entanto, se continuarmos insistindo, um dia iremos responder definitivamente a pergunta sobre a vida em Marte.”

Edison Veiga (siga @edisonveiga no Twitter)

É jornalista e escritor, mora em Bled (Eslovênia)

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