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A profecia do monte Roraima

A nacionalização da xenofobia poderá garantir um futuro para a extrema direita

Miguel Lago
27ago2018_07h54

Em tempos de candidatos presidenciais pregadores do “Deus Vivo”, nada mais normal do que adotar referências religiosas para fazer análise eleitoral. Foi num monte, não naquele onde o Cabo Daciolo se isolou recentemente, mas no monte Roraima, que se anunciou uma nova profecia sobre nosso sistema político: “Designarás a partir de agora um novo inimigo.” A eleição estadual de Roraima define o adversário comum de todos os candidatos, ou seja, o imigrante venezuelano.

A ditadura de Nicolás Maduro levou a Venezuela a uma crise humanitária. Em face da fome, da violência e da total falta de perspectivas, os venezuelanos estão se refugiando nos países vizinhos. A ONU estima que cerca de 2,3 milhões de pessoas já fugiram do país. A Colômbia recebeu mais de 800 mil refugiados e imigrantes, o Peru, 400 mil, e o Equador, 250 mil. O Brasil, somente 130 mil. Entretanto, no nosso caso, a ineficiência do governo federal não permitiu uma distribuição dos refugiados pelo território brasileiro, e a maioria deles segue estagnada no estado menos populoso do país, com pouco mais de 500 mil pessoas, com uma área de aproximadamente 225 mil quilômetros quadrados (equivalente a duas vezes e meia o tamanho de Portugal).

A crise econômica e a violência endêmica que atingem os brasileiros, sem falar na incapacidade do país de acolher devidamente os imigrantes e refugiados, contribuíram para a população de Pacaraima, em Roraima, liderar protestos violentos contra os venezuelanos: atiraram pedras, queimaram barracas e pertences, aos gritos de “vamos colocar fogo neles”.

 

Os bárbaros de Roraima fazem o ditador Nicolás Maduro parecer um homem civilizado, e cerca de 1 200 venezuelanos já retornaram ao seu país. Cabe sublinhar que existe uma motivação política por trás disso: a governadora de Roraima, Suely Campos (PP), mal avaliada pela população, com uma rejeição de 62%, busca desesperadamente se reeleger. De acordo com o governo federal, Campos restringiu propositalmente o acesso de refugiados aos serviços públicos e pediu repetidas vezes que a fronteira de Roraima com a Venezuela fosse totalmente fechada, o que infringiria acordos internacionais. Seu principal concorrente, o ex-governador José de Anchieta Júnior (PSDB), apesar de dialogar com o sentimento xenofóbico que se espalha pela região, é menos radical. O pecuarista Antonio Denarium (PSL), segundo colocado e candidato de Jair Bolsonaro, mantém, como seria de esperar, um discurso extraordinariamente xenofóbico. Com certeza, a figura do “refugiado” será o eixo central da disputa eleitoral para o governo de Roraima.

A tendência, no entanto, não se restringe ao ambiente político daquele estado. Ela se estende ao discurso de porta-vozes nacionais da extrema direita, que já pedem uma revisão da Lei de Migração brasileira. A ideia ainda está sendo gestada, mas é muito possível que venha a ser cada vez mais evocada nas próximas décadas.

As mudanças climáticas devem gerar nos próximos anos êxodos populacionais frequentes, em todo o mundo. Também a fome e a violência deverão levar milhares de pessoas a escapar de seus países, como ocorre agora na Venezuela e na Nicarágua. Antecipando-se ao futuro está a crise em Roraima, onde o inimigo comum designado por candidatos a governador, senador e deputado é o não-brasileiro.

 

A exclusão é fundamental para a definição de um sistema político. De acordo com o filósofo Ernesto Laclau, “aquilo que está excluído do sistema funda este último”. O que estabelece a unidade de um sistema não é algo positivo – por exemplo, que os diferentes agentes compartilhem objetivos comuns –, mas sim negativo – que esses mesmos agentes tenham um antagonista comum. Um adversário que está fora do sistema faz com que sejam apagadas as diferenças entre agentes desse sistema. Por isso a designação de um limite, de um fora, de um inimigo é fundamental para a criação de identidades políticas.

Os regimes políticos criam narrativas em torno de um inimigo a ser combatido: um inimigo que é vilanizado pela mídia, diabolizado pelos setores éticos da sociedade e objeto de discurso dos políticos. Combater o inimigo é uma forma fácil e ágil de gerar capital político. Na história recente da América Latina, pudemos ver durante os regimes militares a designação da esquerda e do comunismo como inimigos: o combate a eles servia de justificativa ao estado de exceção, à suspensão das regras, à perseguição e à tortura. Ao designar esses adversários, o sistema demonstrava que o valor preponderante a ser defendido era o da propriedade privada.

No período democrático – a partir dos anos 80 –, uma vez que as esquerdas foram reintegradas ao processo político, a guerras às drogas substituiu a guerra ao comunismo. Agora, o inimigo, tanto para a direita, quanto para a esquerda, é o traficante de drogas, figura antes irrelevante para o sistema político. Diante do traficante – que está fora da lei –, os políticos – que operam dentro da lei – parecem todos iguais, sejam os de direita, sejam os de esquerda. É como se a existência desse inimigo comum apagasse a diferença existente dentro do próprio sistema político. A designação do traficante como o maior inimigo define a legalidade como um valor preponderante desse sistema. Com a exaustão do ciclo democrático, Roraima pode estar anunciando um novo inimigo, totalmente inédito na história política latino-americana moderna: o imigrante. A designação do imigrante como limite excludente do sistema torna a questão da nacionalidade um valor preponderante, que se pode capitalizar politicamente.

 

Essa questão se colocou com força na Europa a partir dos anos 80, e hoje esquerda, direita e centro têm discursos contrários ao imigrante, cada um à sua maneira. A esquerda historicamente justificou sua xenofobia alegando que a imigração, por aumentar a oferta de mão de obra, exercia pressão sobre os salários das classes trabalhadoras: os imigrantes seriam uma espécie de “exército de reserva do capital”. A direita, por sua vez, salientou as diferenças culturais do imigrante, tentando mostrar a sua incompatibilidade com a cultura do país para onde se mudou, travestindo uma autêntica islamofobia em nome de valores fundamentais. Na Europa, o imigrante é um dos limites que definem o sistema político: um sistema no qual discursos racistas e intolerantes do ponto de vista religioso só são aceitáveis quando se fala do não-europeu.

Não à toa, os arautos da extrema direita brasileira buscam ativamente nacionalizar a questão dos refugiados venezuelanos: fazer com que transborde para além de Roraima. Se obtiverem sucesso na empreitada conseguirão deslocar o eixo do sistema político e inserir a questão da nacionalidade – do que significa ser brasileiro – como um dos valores preponderantes desse sistema. Em geral, essa é a fresta que a extrema direita precisa para poder entrar no sistema político e nele se manter. Ao falar agora superlativamente sobre a crise de refugiados, busca garantir para si vários anos de relevância política. A consolidação da extrema direita no país requer transformar o Brasil numa gigante Roraima, e o processo já está em curso.

Miguel Lago

Miguel Lago

Miguel Lago é cientista político, cofundador da rede Meu Rio e diretor da ONG Nossas

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