anais do desastre

A profundidade da lama

Pesquisadores vão a campo estimar até onde chega a catástrofe ambiental provocada pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho

Consuelo Dieguez
29jan2019_16h47
INTERVENÇÃO DE ISABELA DA SILVEIRA EM FOTO DE ISAC NÓBREGA/AGÊNCIA BRASIL

Os cientistas da Universidade Federal de Juiz de Fora montaram uma força-tarefa para analisar a natureza dos rejeitos da lama de minério da barragem do Feijão, em Brumadinho, pertencente à Vale, que rompeu na sexta-feira, 25 de janeiro. O rompimento despejou 12,7 milhões de metros cúbicos de rejeito na natureza e provocou a morte de 65 pessoas, além de 279 desaparecidos até o final da noite desta segunda-feira. O grupo de cientistas está em contato com pesquisadores do comitê de bacias hidrográficas, que estão em Brumadinho recolhendo amostras de água e sedimentos deixados pelos rejeitos de minério de ferro.

Ainda que a lama pesada fique sedimentada no fundo do rio Paraopeba e não chegue até o rio São Francisco, afirma o geógrafo Miguel Felippe, da UFJF, os danos para a natureza já são devastadores. Felippe explicou que lama de minério possui três camadas: a densa, que fica no fundo dos rios, a mais fina, que boia na superfície, e a química, misturada à água, com alto poder de contaminação. Os cientistas estão pesquisando se a natureza do rejeito de Brumadinho é o mesmo da barragem de Fundão, em Mariana, que rompeu em 2015. Caso seja, a contaminação dos rios – primeiro o Paraopeba e depois, possivelmente, o São Francisco – será semelhante à do rio Doce, para onde vazou o minério daquela barragem. Isso significa que os rios podem ficar impróprios para pesca e uso da água, como ocorre com o Doce.

No caso do rio Doce, segundo Felippe, os principais contaminantes foram ferro, alumínio e manganês. Mas alguns grupos de cientistas encontraram também bário, mercúrio e arsênio. “Se forem comprovados estes contaminantes, haverá mudança química na água dos rios”, alertou Felippe. Já o sedimento mais pesado, que é a lama, tem o efeito de sufocação. Felippe não acredita que isso venha a ocorrer com o São Francisco, já que a lama, por ser em menor quantidade que os 55 milhões vazados em Fundão, tende a se dissipar no caminho. O impacto maior deve ser mesmo no Paraopeba, um dos principais afluentes do São Francisco.

Ainda assim o efeito é dramático para a dinâmica dos rios, que será certamente alterada. “Muda o ambiente fluvial que é criadouro de vida. Acaba com os hábitos dos animais, sejam peixes ou outras espécies”, disse. “As consequências são graves. A transformação do rio é de médio e longo prazos e a sua recuperação não se dá de um dia para o outro.”

Ele alertou para o acúmulo de rejeitos nas margens do rio Paraopeba. Esse material é carregado de ferro e outros contaminantes. A cada chuva, os sedimentos correm para os rios, e agravam a contaminação. Felippe não acha menos preocupante o fato de os rejeitos pesados ficarem retidos no fundo do lago da barragem de Três Marias, sem prosseguirem pelo São Francisco. “Ainda que a lama não passe, os contaminantes atingirão o rio.”

Na tarde de segunda-feira, o Operador Nacional do Sistema Elétrico fechou a barragem de Retiro Baixo, onde espera conter parte dos rejeitos de minério de ferro que descem o Paraopeba. A decisão foi tomada para não comprometer as turbinas da usina. A expectativa era de que a lama não chegasse até a barragem de Três Marias, a 70 quilômetros dali, o que obrigaria o ONS a tirá-la também de operação. Enquanto a de Retiro Baixo gera apenas 20 megawatts, a de Três Marias gera cerca de 300 megawatts. Todo o sistema nacional produz, em conjunto, 109 mil megawatts.

A Cemig, empresa controladora da barragem de Três Marias, embora não acredite na possibilidade de a lama ter força para chegar à usina, está monitorando o movimento dos rejeitos. A assessoria de imprensa da empresa explicou que, se a lama chegar à represa, as comportas teriam que ser abertas para evitar a destruição das turbinas. “Não há muita saída”, explicou o porta-voz da Cemig, Carlos Santiago. “Mesmo porque, se a represa retiver a água, coloca a barragem em risco de estourar.” Afora isso, se a água fosse retida, a vazão do São Francisco ficaria comprometida.

A Vale afirmou nesta segunda-feira que vai construir um dique em Pará de Minas, a cerca de 75 quilômetros de Brumadinho, ainda antes de Retiro Baixo, para tentar segurar os rejeitos. O objetivo, conforme afirmou em coletiva de imprensa o diretor financeiro da companhia, Luciano Siani, é “reter os coloides, partículas muito grossas [de minério], e permitir a continuidade da captação de água” nas cidades ao longo do leito do Paraopeba. Siani informou também que a empresa vai pagar 100 mil reais para cada família das vítimas, a título de auxílio, enquanto não se discute como será feita a indenização.

Durante a tarde desta terça-feira, a equipe de cientistas da Universidade Federal de Juiz de Fora tentava entender o que significa a proposta da Vale de colocar o dique – uma “membrana”, como definiu Siani – para conter a passagem dos rejeitos e evitar que a lama chegue até o São Francisco. “O que Samarco fez, à época do rompimento daquela estrutura, em Mariana, foi construir um dique no rio Santarem. Isto é impossível de ser feito no Paraopeba, por ser um rio muito maior”, afirmou Miguel Felippe, “Mas as informações divulgadas pela Vale até aqui são insuficientes para uma avaliação mais precisa.” A piauí pediu à assessoria de imprensa da Vale que detalhasse a técnica da membrana. A empresa não respondeu até a publicação desta reportagem.

Outra alternativa tentada pela Samarco em 2015, para evitar que a lama chegasse até o mar do Espírito Santo, foi colocar barreiras esféricas usadas para a contenção de vazamentos de petróleo no mar. Não funcionou. O óleo tem uma viscosidade diferente da lama. É possível que o combustível grude nessas barreiras, em forma de bolas, mas a lama passou por elas sem ser detida.

Integrante da força-tarefa de cientistas no rompimento de Fundão, Felippe contou que ele tentou argumentar com os técnicos da empresa que instalavam os balões, a Ocean Pact, contratada pela Samarco, Vale e BHP, de que a técnica não funcionaria para a lama. “Quase me enxotaram de lá”, contou. “Evidentemente, a técnica não funcionou”, disse. Aquela, segundo ele, foi uma tentativa das três empresas de dar uma justificativa à Justiça que ameaçava multá-las caso não conseguissem deter os rejeitos. A lama não foi contida, e menos de 6% das multas ambientais foram pagas.

De qualquer forma, explicou o cientista, ainda que seja eficaz uma membrana para conter resíduos físicos, ela não é capaz de reter os contaminantes misturados à água. Isso significa que tanto o Paraopeba quanto o São Francisco serão contaminados por substâncias tóxicas contidas na lama.

O geógrafo Luiz Jardim, da Universidade do Estado do Rio Janeiro, usou de uma imagem dramática para explicar o que aconteceria caso a lama chegasse espessa à barragem de Três Marias, que fica no início do rio São Francisco. “Seria uma escolha de Sofia. Decidir como matar o São Francisco. Ou por sufocamento, permitindo que as comportas fossem abertas, arrastando a lama para o rio, ou pela retenção da água.” O rio Paraopeba é um dos principais afluentes do São Francisco e impedir que a água seguisse seu curso reduziria sua vazão.


As ações da Vale desabaram, na segunda-feira, dia 28, no Brasil e na bolsa de Nova York, e a companhia perdeu 72 bilhões de reais de seu valor de mercado. Os maiores controladores da Vale são os fundos de pensão das empresas estatais – Previ, Petros e Funcef – e o BNDES, com cerca de 27% das ações com direito a voto, sendo seus maiores acionistas, e a Bradespar, braço de participação do Bradesco, e a japonesa Mitsui, com cerca de 11% das ações com direito a voto. Embora a empresa tenha sido privatizada em 1997, o Estado brasileiro continua como seu maior acionista.

Até o acidente da barragem de Fundão, em Mariana, a Vale fazia parte do Índice de Sustentabilidade Empresarial, o ISE, da B3 (que é a fusão da Bolsa de Valores de São Paulo e da BM&F). Neste índice, são negociadas as ações das trinta empresas com maior liquidez no mercado, isto é, as mais atraentes para os investidores, por serem empresas comprometidas com a sustentabilidade. Com a procura cada vez maior dos investidores por ações de empresas que respeitam o meio ambiente, pertencer ao ISE é um atestado de qualidade que ajuda na valorização da companhia. Durante três anos, a Vale ficou de fora do ISE, e voltou a fazer parte do seleto grupo este ano. A pergunta do mercado é se ela será novamente retirada. Este seria mais um baque para a Vale que, nos últimos dois anos, fez pesados investimentos em comunicação para tentar recuperar a sua imagem, prejudicada com o rompimento da barragem da Samarco, em 2015, controlada por ela e pela anglo-australiana BHP Billiton, o que foi considerado o maior desastre ambiental brasileiro e o maior desse tipo na mineração mundial.

Consuelo Dieguez (siga @consuelodieguez no Twitter)

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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