questões da sucessão

PSB veta apoio a Alckmin

Resolução contra tucanos aprovada pelo partido aposta em Joaquim Barbosa, mas deixa brecha para Ciro Gomes

Allan de Abreu e José Roberto de Toledo
09mar2018_13h15
ILUSTRAÇÃO: JOÃO BRIZZI

O PSB fechou as portas para o presidenciável do PSDB, Geraldo Alckmin, contra a vontade do maior aliado do tucano entre os socialistas, o vice-governador paulista Márcio França. Com o veto do partido a uma aliança com Alckmin e sem o apoio do PSDB à sua pré-candidatura a governador, França namora outros presidenciáveis, entre eles o senador Álvaro Dias, do Podemos. Ele nega que as articulações indiquem uma traição ao “padrinho” tucano, mas admite o desconforto. “Vamos fazer de um jeito que diminua o constrangimento”, disse França à piauí.

O primeiro revés para o vice-governador veio no último fim de semana, quando o congresso nacional do PSB aprovou uma resolução antitucanos: a sigla não apoiará candidato a presidente que defenda as reformas da Previdência e trabalhista ou que pregue as privatizações da Eletrobras e da Petrobras. Apesar de não explicitar o nome do governador paulista, o texto mirou as pretensões de França em levar o PSB a apoiar o PSDB.

A resolução aprovada durante o congresso que ocorreu em Brasília previu três rumos possíveis para a sigla tomar na eleição presidencial: 1) ter candidatura própria, 2) não apoiar ninguém ou 3) aliar-se apenas a candidatos ditos “progressistas”, definidos por não defenderem as reformas do governo Temer e se oporem à privatização de quaisquer empresas estatais federais.

A primeira opção foi redigida para permitir – primordialmente – a candidatura do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa. A segunda é para a eventualidade de o magistrado não se filiar ao PSB. A terceira, para garantir que o partido não acabe na coligação do tucano – sem descartar a possibilidade de vir a apoiar a candidatura de Ciro Gomes (PDT).

França defende abertamente a segunda opção. “[Ter um candidato] atrapalha muito os arranjos estaduais”, afirmou. O vice-governador disse ter recebido o apoio formal do Podemos e do PSC e já iniciou conversas com os presidenciáveis dos dois partidos, Álvaro Dias e Paulo Rabello de Castro, respectivamente.

França não terá o apoio formal dos tucanos, já que o prefeito de São Paulo, João Doria, deve anunciar na segunda-feira, dia 12, sua pré-candidatura ao governo paulista. “Com 23 anos governando o estado, não dá para o partido abrir mão de um candidato próprio”, afirma um aliado do prefeito. Assim, Alckmin deverá dispor de dois palanques em São Paulo – o tucano defendia o apoio do partido a França.

Na disputa com Doria pelo apoio do presidenciável tucano, França garante contar com a preferência de Alckmin. “Eu me sinto escolhido [por ele] para sucedê-lo”, afirmou. O atual vice-governador, que assume o cargo no próximo mês, também diz ter o apoio de parte do PSDB paulista, incluindo o ex-presidente da Assembleia Legislativa Barros Munhoz e o prefeito de Santos, sua terra natal, Paulo Alexandre Barbosa. E alfineta Doria. “Ajudamos a construir a candidatura dele na promessa de que cumpriria na íntegra o seu mandato [de prefeito]. Certamente vai haver frustração no eleitorado paulistano.”

 

O socialista procura enaltecer os aspectos favoráveis de sua pré-candidatura, mas o fato é que perdeu poder dentro do seu partido. No congresso nacional do PSB, a sigla ampliou a presença do grupo ligado ao ex-governador Eduardo Campos na executiva nacional, em uma manobra capitaneada pelo presidente nacional do partido, Carlos Siqueira, reconduzido ao posto. A estratégia passou pelo aumento de nove assentos na executiva, de 34 para 43 integrantes. Isso possibilitou ampliar a participação da ala pernambucana de cinco para sete representantes, incluindo o filho de Campos, João Henrique, pré-candidato a deputado federal.

França, que chegou a cogitar uma disputa à presidência nacional do partido, permaneceu no mesmo posto na executiva, o de secretário de Finanças, e manteve seus dois aliados, ambos paulistas: o prefeito de Campinas, Jonas Donizette, e o ex-prefeito de São José do Rio Preto, Valdomiro Lopes. A influência de França na Executiva, porém, acabou diluída diante do aumento de seus integrantes.

Apesar do embate interno de forças, o congresso do PSB, que começou na quinta-feira, dia 1º, e foi até o sábado passado, pareceu transcorrer sem imprevistos, com França ovacionado ao chegar. Mas tudo indica que a manobra de Siqueira deu certo: o pernambucano venceu o confronto antes mesmo de começar a partida, como lembrou um integrante da executiva à piauí. E o vice-governador paulista não pareceu contrariado, longe disso. Hoje prevalece a tendência entre os socialistas de não ter candidato à presidência e liberar os diretórios estaduais para acordos locais, como deseja França.

Mesmo assim, de acordo com integrantes da executiva do PSB ouvidos pela piauí, não se pode descartar a hipótese de candidatura própria. Seriam três as opções: além de Barbosa, os ex-deputados Beto Albuquerque (RS) e Aldo Rebelo (SP), com larga vantagem para o primeiro. Siqueira tem mantido conversas reservadas com Barbosa, mas o ex-ministro ainda não decidiu se será ou não candidato pelo partido. “Ele só diz que está acompanhando o cenário”, afirma o deputado federal Júlio Delgado (MG), o maior entusiasta da candidatura de Barbosa na sigla. “Há um claro sentimento pró-Joaquim nas bases do partido. Ele teria condição de atrair muitas doações de pessoas físicas na campanha, porque é um nome conhecido. Quem doaria para o Beto ou o Aldo?”, compara o mineiro. O prazo para a filiação de Barbosa se encerra dia 7 de abril. A assessoria do ex-ministro diz que ele não tem concedido entrevistas.

 

A consolidação do grupo político de Campos no comando do PSB e o entusiasmo com a candidatura de Joaquim Barbosa são o epílogo de um processo de expurgo promovido pela direção da sigla contra deputados da ala temerista que se filiaram no embalo do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016. Desde o ano passado, sete deputados federais e três senadores deixaram o partido. A maior parte optou por trocar de sigla antes de uma provável expulsão, após votarem a favor da reforma trabalhista e contra as denúncias do Ministério Público Federal contra Temer, contrariando deliberação do diretório nacional do partido. Entre os que deixaram a sigla estão os deputados Heráclito Fortes (PI), Danilo Forte (CE) e Fábio Garcia (MT), que foram para o DEM, assim como os senadores Fernando Bezerra Coelho, que migrou para o PMDB, e Romário, atualmente no Podemos. Como senadores, Coelho e Romário também tinham assento na executiva. Dos seus 34 antigos integrantes, cinco desistiram de tentar a reeleição no congresso socialista da última semana, entre eles Mauro Mendes Ferreira, ex-prefeito de Cuiabá e aliado de Fábio Garcia.

Com 32 deputados e quatro senadores, o PSB tem a sétima maior bancada no Congresso Nacional. A expectativa dos socialistas é manter essa bancada na atual janela de trocas partidárias, que também termina dia 7 de abril, e superar a bancada petista nas eleições de outubro e tornar-se o maior partido de esquerda no Legislativo.

P.S.: Após a publicação desta reportagem, o vice-governador paulista Márcio França enviou a seguinte nota: “Não perdi espaço no PSB, ao contrário: acrescentei mais dois nomes, o prefeito de Guarulhos, Gustavo Costa, e o deputado Aldo Rebelo.”

Allan de Abreu (siga @allandeabreu1 no Twitter)

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Editor-executivo da piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

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