colunistas

Pseudo-fake news

Problemas com a verdade na corrida eleitoral

Rafael Cariello
11set2018_06h30

Aconteceu comigo, uns três anos atrás. Trabalhava como editor na piauí e recebi de um escritor a proposta de um texto, mistura de ensaio e relato de viagem. Ele havia conduzido um grupo de alunos num longo percurso de trem por um pedaço da Ásia. Nessa espécie de Casa do Saber sobre trilhos, cabia ao ficcionista dar aulas de cultura geral ao grupo, aproveitando cada etapa do périplo como gancho para seus comentários eruditos. Ele se dispunha a narrar a experiência nas páginas da revista, e eu lhe disse que tinha interesse em ler uma primeira versão do relato.

Acreditava, baseado nas nossas conversas por telefone, que receberia uma descrição minuciosa do passeio: vagões elegantes, as cidades do oriente, impressões dos passageiros e entrevistas com cidadãos daqueles países.

O texto que recebi, contudo, era diferente. Nele, quase não se saía da cabeça do autor. Tomávamos conhecimento das suas divagações, mas não do mundo de carne, osso, metal, areia e concreto que o circundava. Os comentários eruditos estavam lá, mas poderiam ter sido feitos sem que ele tivesse tido que passar pelo apuro de percorrer milhares de quilômetros, num continente distante, na companhia de outros seres humanos.

A rigor não havia no relato qualquer descrição mais detalhada: nem das pessoas, fossem os viajantes ou os moradores dos locais visitados, nem das paisagens. Nas conversas que se seguiram, pedi modificações no ensaio-reportagem. Em determinado momento, expliquei: gostaria que o autor olhasse para fora; se não pelas janelas do trem, pelo menos para as pessoas ao seu redor, no vagão, nas estações. Faltava “realidade exterior” ao texto, argumentei. Foi então que ele soltou a frase.

“Esse é justamente o cerne da nossa divergência”, disse. “Eu não acredito em realidade exterior.”

 

Numa expectativa talvez tão ingênua quanto a minha, o TSE anunciou, faz alguns meses, que havia se preparado para combater possíveis fake news na campanha eleitoral deste ano.

“Temos uma tutela penal enérgica”, garantiu o ministro Luiz Fux, então presidente do Tribunal Eleitoral, acrescentando que poderia até anular candidaturas que se beneficiassem de notícias falsas, em prejuízo dos adversários. O artigo 323 do Código Eleitoral, lembrou, proíbe a divulgação de fatos inverídicos “capazes de exercerem influência perante o eleitorado”. Nos casos mais graves, além de ser excluído da eleição, o infrator corria o risco de ser preso.

A intenção era boa, mas o ministro errou o alvo. Assim como, suspeito, talvez também errem o alvo as agências de checagem de fatos, ao nos alertarem para imprecisões ou falsidades ditas por este ou aquele candidato. O problema, para usar uma dessas palavras que a ex-presidente Dilma Rousseff gostava de empregar, é “sistêmico”.

Às vezes fico com a sensação de que o TSE, as agências de checagem e os jornalistas profissionais de modo geral temos a vaga esperança de podermos convencer Dom Quixote de que aqueles gigantes ali na frente na verdade são moinhos de vento. Ou de que estejamos pedindo a um escritor pós-moderno que por favor se atenha às regras da ficção realista do século XIX.

Luiz Fux pareceu considerar que, a exemplo do que havia acontecido em 2014, a propagação de notícias falsas poderia causar danos a candidaturas específicas. Chegou inclusive a fazer referência à já famosa peça publicitária do PT no último pleito presidencial – aquela em que os efeitos de uma das propostas de Marina Silva, a de dar independência ao Banco Central, eram representados com a imagem da comida que num passe de mágica desaparecia dos pratos da família.

Ocorre que o ambiente de questionamento generalizado dos fatos, que se exacerbou nos últimos quatro anos, tem representado uma ameaça maior e mais difusa – uma ameaça, entre parcelas não desprezíveis do eleitorado, ao reconhecimento da legitimidade do pleito e do próximo governante. As dúvidas se referem menos a este ou aquele evento, a esta ou aquela declaração, do que ao próprio processo eleitoral, à possibilidade de trapaças ou favorecimentos que o maculem.

Não é nenhum adversário político específico que o candidato Jair Bolsonaro prejudica quando coloca em dúvida a confiabilidade da urna eletrônica, por exemplo. Ao levantar preventivamente a hipótese de fraude, ele incentiva os seus eleitores a, dependendo das circunstâncias, não respeitar o resultado das eleições. Também nisso, aliás, ele segue a cartilha de Donald Trump.

Qualquer observador sério sabe que as urnas eletrônicas são confiáveis. Os especialistas e as agências de checagem podem repetir esse fato exaustivamente, mas isso importa pouco para o efeito alcançado pelo candidato do PSL.

Ao levantar essa suspeita ele cria uma confusão entre o que é verdadeiro e o que é falso – e o faz com uma torção da própria ideia de fake news, atribuindo aos adversários e ao “sistema” a possível manipulação da verdade.

A dúvida cai em solo fértil, num ambiente de intensa e crescente desconfiança entre rivais políticos. Nas horas seguintes à tentativa de homicídio contra o ex-capitão, em Juiz de Fora, houve gente de esquerda questionando a veracidade do ataque – inclusive depois que os médicos já haviam se manifestado sobre o estado de saúde do paciente. Pesquisadores que se dedicam ao escrutínio das interações na internet demonstraram que não se tratava de fenômeno marginal, mas de uma suspeita compartilhada por parcela expressiva dos usuários de Twitter que se referiram ao episódio. Muitos levantavam a hipótese de que a facada fosse uma fabricação da própria candidatura do PSL.

Como explicar esse tipo de pensamento conspiratório? Talvez alguns desses comentaristas tivessem dificuldade em conciliar a “realidade exterior” com duas certezas para eles inegociáveis: a de que as vítimas são sempre moralmente superiores; e a de que eles são bons, e Jair Bolsonaro, mau.

E assim, numa estranha aliança entre cinismo e crenças exacerbadas, os fatos e sua confirmação empírica parecem relegados a segundo plano.

 

Há uma diferença importante, que é preciso esclarecer, na relação que alguns líderes políticos, de um lado, e parcelas dos eleitores, de outro, mantêm com a verdade e a busca de objetividade.

Para líderes populistas como Donald Trump, trata-se com frequência de uma relação cínica. O discurso, qualquer discurso, é apenas um instrumento de poder. Agem assim, desprezando a verdade, porque podem. No caso de países democráticos, a multiplicidade de meios de comunicação a seu dispor – inclusive vários abertamente simpáticos às suas causas e ideias – lhes permite contornar o tipo de mediação a que estariam sujeitos, no passado, na tentativa de falarem com a própria base. Antes, quando havia apenas alguns poucos e grandes veículos, seria ali também, como o restante da sociedade, que seus eleitores obteriam informações. E os líderes populistas estariam submetidos ao mesmo tipo de escrutínio que os demais políticos. Não mais.

É radicalmente diferente, por sua vez, a relação que parcelas expressivas dos eleitores desses políticos mantêm com a verdade. Justamente por se sentirem ameaçados em algumas de suas crenças mais fundamentais, eles se dispõem a votar em líderes que defendam os seus valores. Muitos dos apoiadores de Trump e de Bolsonaro – e também muitos eleitores de esquerda – não são cínicos, ao contrário: acreditam fervorosamente na verdade, na sua verdade. E reagem a qualquer opinião ou informação que possa representar uma rachadura no edifício de suas crenças.

No passado, esses sistemas demasiadamente coerentes de interpretação da realidade seriam postos à prova com fatos contraditórios e explicações alternativas, à disposição do conjunto dos cidadãos nos veículos tradicionais de informação. Agora boa parte dos adeptos de uma visão de mundo qualquer pode manter contato direto e trocar informações, pelas redes sociais, sem precisar passar pelo filtro de meios de comunicação que não apresentam reforços às suas convicções 100% do tempo.

Num caso e no outro, o do político cínico e o dos eleitores aferrados às suas verdades, faltam freios e contrapesos aos discursos e às certezas. Aqueles de que ainda dispomos, para tentar fazer frente à manipulação e ao dogmatismo, parecem frágeis. Mesmo depois das eleições, vai ser difícil fazer política assim.

Rafael Cariello

É roteirista do Conversa com Bial da TV Globo. Foi editor da piauí e correspondente da Folha de S.Paulo em Nova York

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