cientistas da pandemia

“Queremos testar medicamento contra Covid no Brasil”

Brasileiro reproduz em laboratório de universidade americana anticorpos que combatem coronavírus

Michel Claudio Nussenzweig
12abr2021_17h22
Foto: Universidade Rockefeller

Aos 66 anos, o imunologista brasileiro Michel Nussenzweig é chefe do Laboratório de Imunologia Molecular da Universidade Rockefeller, em Nova York. Nascido em São Paulo, aos 12 anos de idade mudou-se com os pais, os parasitologistas Ruth e Victor Nussenzweig, para os Estados Unidos, onde tornou-se professor, pesquisador e membro da Academia Nacional de Ciências do país. A partir do sangue de pacientes que sobreviveram à Covid-19, Michel e sua equipe conseguiram clonar dois tipos de anticorpos capazes de neutralizar a ação do Sars-CoV-2 e que poderiam ajudar no tratamento da doença. A empresa farmacêutica Bristol Myers Squibb comprou a licença para desenvolver um medicamento a partir da descoberta e, segundo o cientista, há negociações para a realização de testes clínicos no Brasil. 

(Em depoimento a Lia Hama)

 

Quando a pandemia da Covid-19 teve início na China, eu e a minha equipe do Laboratório de Imunologia Molecular da Universidade Rockefeller decidimos focar esforços para ajudar no combate à doença. Nos unimos a um time com cientistas de outros laboratórios norte-americanos com o objetivo de trabalharmos juntos na batalha contra o Sars-CoV-2. Formou-se um verdadeiro exército de cientistas, com especialistas de diferentes áreas: imunologistas, biólogos químicos, virologistas, infectologistas. Basta ver a quantidade de pessoas que assinam os estudos que publicamos sobre a doença desde então.

No nosso laboratório em Nova York, temos mais de 10 anos de experiência em pesquisas sobre HIV. Ao estudar pacientes que são infectados pelo HIV, mas não desenvolvem a doença, Aids, descobrimos que eles possuem no sangue anticorpos excepcionais, capazes de neutralizar a ação do vírus. Desenvolvemos então um método para isolar as células que produzem esses anticorpos superpotentes e clonar os anticorpos em laboratório. Com isso, conseguimos produzir uma grande quantidade dos chamados anticorpos monoclonais, que hoje são usados no tratamento de pessoas infectadas com o HIV. Posteriormente o mesmo método foi adaptado para o combate de outras doenças infecciosas, como zika, hepatite B e encefalite transmitida por carrapato. 

No caso da Covid-19, fomos atrás de pacientes que sobreviveram ao novo coronavírus para estudar se eles estavam produzindo anticorpos que poderiam ajudar a prevenir ou tratar a doença. Descobrimos que algumas pessoas conseguem desenvolver anticorpos muito potentes contra o Sars-CoV-2. O vírus tem em sua superfície uma proteína chamada S (de spike, em inglês, ou espícula), espécie de gancho que ajuda a invadir as células humanas. Achamos pelo menos quatro tipos de anticorpos que têm como alvo os domínios de ligação ao receptor (RBD, na sigla em inglês) dessa proteína S, bloqueando a proteína e neutralizando a ação do vírus invasor. Escolhemos dois desses anticorpos e os reproduzimos em laboratório. Eles se mostraram ativos mesmo contra as variantes do Sars-CoV-2, como as que surgiram em Manaus, no Reino Unido e na África do Sul.

Graças aos resultados promissores, a Universidade Rockefeller, onde eu trabalho, fez um acordo de licenciamento comercial com a empresa farmacêutica Bristol Myers Squibb para o desenvolvimento de um medicamento a partir desses dois anticorpos monoclonais. Caso a droga se mostre eficaz, a empresa se comprometeu a oferecê-la a um preço acessível em países em desenvolvimento como o Brasil. 

Em janeiro, começamos a fase 1 dos testes clínicos com um pequeno número de voluntários na Universidade Rockefeller, para assegurar que os anticorpos são seguros e eficazes. Daremos agora início à fase 2 nos Estados Unidos, com um número maior de pessoas. Estamos em conversações com o médico infectologista Esper Kallás, professor da Faculdade de Medicina da USP, para realizar a fase 3 no Brasil, com a participação de pacientes de todo o país. O objetivo é analisar se os anticorpos podem ajudar no tratamento de pessoas que foram infectadas pelo novo coronavírus, evitando que desenvolvam as formas mais graves da doença e sejam hospitalizadas. Isso ajudaria a desafogar a situação dramática das UTIs brasileiras.

Tenho acompanhado as notícias sobre o impacto da pandemia no Brasil. É uma tragédia o que está acontecendo. Infelizmente é algo que não vai terminar a menos que sejam tomadas as medidas necessárias tanto por parte do poder público como da população, incluindo a obrigatoriedade do uso de máscaras de proteção, o distanciamento social, o fechamento dos serviços não essenciais, a implementação do home office e a vacinação em massa o mais rápido possível. 

Se os testes clínicos com esses anticorpos monoclonais forem bem-sucedidos, esse tratamento será uma alternativa para pessoas que não respondem bem às vacinas. Aquelas que naturalmente têm um sistema imunológico deficiente ou que se encontram momentaneamente com a imunidade comprometida, como pacientes submetidos ao tratamento de câncer, por exemplo. Uma injeção desses superanticorpos bloquearia a capacidade de o Sars-CoV-2 invadir as células do organismo e se multiplicar. Como cientista, seria um sonho realizado ver o resultado de nossas pesquisas ajudando a salvar vidas em todo mundo.



Michel Claudio Nussenzweig

É professor e chefe do Laboratório de Imunologia Molecular na Universidade Rockefeller, em Nova York

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