pandemia na quebrada

Racismo em tempos de Covid-19

Moradora da periferia de São Paulo diz que epidemia agravou problemas já existentes, como discriminação racial, trabalho precário e violência

Luana Almeida
30jun2020_18h57
Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

No começo de junho, auge da epidemia de Covid-19, Miguel Otávio, de 5 anos, morreu após cair de um prédio enquanto estava sob os cuidados da então patroa de sua mãe, empregada doméstica no Recife. O caso explicita o racismo e as condições de trabalho das domésticas no Brasil. Luana Almeida, moradora da extrema periferia de São Paulo, na Zona Leste da cidade, é filha e sobrinha de empregadas domésticas. A seguir, ela conta como, em sua comunidade, a pandemia é um entre muitos problemas que afetam os brasileiros mais pobres – que precisam enfrentar não só as dificuldades extras trazidas pela Covid-19, mas também o racismo e a violência cotidiana.

Em depoimento a Camille Lichotti

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O problema da chegada de uma pandemia para nós, moradores da periferia, que já tínhamos nossas questões, é agravar o que já existia, saca? A violência, o descaso, o desprezo acerca de serviços básicos que nos são prestados. Os problemas só se agravaram, principalmente para as pessoas que não pararam de trabalhar, porque não tinham outra opção. Existe o auxílio emergencial, mas quem conseguiu pegar o auxílio? Quem teve direito? Quantas pessoas na quebrada conseguiram pegar aqueles 600 reais? O que significam 600 reais dentro da renda das pessoas? Para umas pessoas não significa muito dinheiro, para outras, sim. Mas, ao contrário do que o governo pensa, nenhuma pessoa autônoma ou que depende do seu trabalho para ter renda consegue ficar só com 600 reais. 



Se não fosse por conta da necessidade, uma mãe não sairia de casa e muito menos levaria seu filho para o trabalho. No caso do menino Miguel, isso fica muito evidente, como a falta de uma renda básica fixa faz com que as pessoas precisem sair para trabalhar. Para o pessoal da quebrada, trabalhar não é problema, nunca foi. Desde cedo já entendemos que temos que trabalhar para ter alguma coisa. Aqui o sonho de uma menina de 14 anos é trabalhar. Eu mesma quando tinha essa idade não via a hora de ter um emprego. Minha mãe falava “Calma, sua hora vai chegar”, e com 16 anos comecei a trabalhar. 

Mas, por outro lado, as pessoas exploram essa nossa ideia de que precisamos trabalhar. Isso fica claro nas condições que nos oferecem, principalmente quando falamos do serviço de empregada doméstica – que era o serviço que a mãe do Miguel prestava, né? Teve uma galera que não dispensou suas empregadas nem no início da pandemia. Pelo menos as empregadas domésticas que eu conheço já voltaram para a casa dos patrões. Ou o patrão paga Uber ou busca em casa. Quando você mantém isso como serviço essencial, mas não reconhece o valor, quer dizer que é essencial porque alguém precisa te servir, porque é quase servidão mesmo. Não falo de reconhecimento financeiro e nem de tratar “como alguém da família”, não é sobre isso. É sobre você ter respeito pela pessoa. 

O livro Eu, empregada doméstica – a senzala moderna é o quartinho da empregada, da Preta Rara, tem muitos relatos sobre essa situação. Eu queria até comprar para minha mãe, mas quem deve ler esse livro não são as empregadas domésticas, elas já sabem bem o que passam. No caso do Miguel foi mais que falta de respeito, foi excesso de crueldade mesmo. A patroa não teve nenhum olhar humanizado para o Miguel, sabe? E é aí que entra o racismo, e é por isso que precisamos pautar essa discussão o tempo todo. Estamos no meio de uma pandemia, e a patroa não consegue olhar a situação: a mãe tendo que levar a criança para o trabalho. Minha mãe é empregada doméstica e eu já fui para os trabalhos da minha mãe, não era um problema para a patroa dela. Mas isso jamais dá o direito de você olhar pro filho daquela pessoa com esse olhar cruel, sabe? 

A gente está vivendo aqui no meio de uma crise, mas na verdade são várias crises. Essa crise do coronavírus veio para agravar as crises já existentes aqui. É como se tivéssemos que ficar com um olho no peixe e outro no gato. Os casos de violência doméstica aumentaram, os casos de violência policial aumentaram. O racismo sempre existiu, e pessoas negras continuam morrendo mesmo durante uma pandemia, quando era para estarmos todos seguros em casa. Era para a gente estar tendo que lidar apenas com uma questão, a pandemia. Acreditar que não é real é mais confortável, mas essas questões estão custando vidas. Isso é preocupante, alarmante e urgente. É para ontem. Estar discutindo isso em plena pandemia só mostra o quão real é. Se fosse mimimi a gente estaria descansando, afinal, para que falar de racismo no meio de uma pandemia? Como se as pessoas negras não estivessem morrendo, crianças negras não estivessem morrendo… A gente não está dormindo. Isso está acontecendo. 

 

Luana Almeida

Tem 24 anos, é produtora cultural e ligada a projetos musicais independentes da periferia de São Paulo.

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