questões da desinformação

Reciclando a estrada alheia

Redes bolsonaristas usam fotos antigas para atribuir ao governo Bolsonaro obras de outras gestões

Plínio Lopes
10ago2020_17h00
Ilustração de Paula Cardoso sobre reprodução de internet

Um caminhão branco acelera para tentar vencer uma estrada de barro, mas fica atolado na lama. Outro caminhão vermelho preso no lamaçal precisa ser rebocado por um trator azul. Na sequência, membros do Exército Brasileiro fazem a terraplanagem de uma rodovia e aplicam asfalto. No final, são mostrados vários trechos de estradas asfaltadas e com ótimas condições de rodagem. Com essas imagens, um vídeo publicado no Facebook pela página Brasil Unido afirma que o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o Exército conseguiram recuperar a rodovia Transamazônica, a BR-230. “Há mais de 40 anos a Transamazônica esteve assim! Segundo os governos anteriores, era IMPOSSÍVEL arrumar a Rodovia TransAmazônica (sic)”, dizia o post. 

A publicação é falsa, mostrou checagem feita pelo Comprova – coalizão que reúne 28 veículos de comunicação (incluindo a piauí) para verificação de boatos. E é só um exemplo de uma prática comum nas redes bolsonaristas: atribuir realizações e obras de outros governos ao presidente Jair Bolsonaro. Desde junho, o Comprova mostrou serem falsas cinco publicações do tipo – que, juntas, tiveram mais de 234 mil interações e 1,8 milhão de visualizações.

No caso do vídeo da Transamazônica, parte das imagens é de outras rodovias, como a BR-163, no Pará, e a BR-116, no Rio Grande do Sul. Segundo o Exército afirmou ao Comprova, as gravações na rodovia paraense são do período que vai de “agosto de 2017 a dezembro de 2019” – abarcando, portanto, boa parte do governo de Michel Temer (MDB). Além disso, o próprio Exército afirmou que não concluiu obras na Transamazônica durante o governo de Jair Bolsonaro – disse, apenas, que está trabalhando em um trecho de 8 km em Cabedelo, na Paraíba. Procurado, o autor da publicação, Fernando Ferreira, disse que não verificou se a informação era correta. “Não me lembro exatamente de onde veio, eu vi no Facebook e compartilhei”, disse. Na página, criada em maio e que já tem 11 mil seguidores, ele publica conteúdos críticos ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ex-ministro Sergio Moro, além de posts favoráveis ao presidente Bolsonaro.

Outro exemplo é uma publicação que mostrava uma suposta evolução de obras públicas entre os governos dos ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2011) e Dilma Rousseff (2011–2016), do PT, e os primeiros dezoito meses de mandato dE Bolsonaro. Com três fotografias, mostrando caminhões atolados na lama, trens abandonados e a obra da transposição do Rio São Francisco abandonada, o post atribuía tais resultados aos “14 anos de PT”. E relacionava outras três fotos, com rodovias asfaltadas, trilhos de trem novos e a obra da transposição finalizadas, aos “18 meses de Bolsonaro”. As fotos de obras atribuídas a Bolsonaro foram, na verdade, feitas antes da posse dele.



A fotografia mostrando uma estrada nova e asfaltada foi publicada no portal do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) em fevereiro de 2010. Ela ilustra uma matéria sobre a pavimentação de 124 km da BR-163, no Pará. A obra foi realizado por um convênio com o Exército Brasileiro e teve investimento de 1,4 bilhão de reais. Na época, o presidente era Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Já a foto que mostra trilhos de trem novos foi retirada do banco de imagens da empresa norte-americana Getty Images. Embora o site não informe onde a fotografia foi feita, ela foi publicada no repositório em 13 de agosto de 2015 – anos antes da eleição de Jair Bolsonaro.

A imagem mostrando parte da obra da transposição do Rio São Francisco finalizada foi publicada em agosto de 2015 na conta do Ministério da Integração Nacional no Flickr, um site de compartilhamento de fotografias. A estação de bombeamento exibida na foto foi inaugurada em 2015 – ou seja, durante o governo da presidente Dilma Rousseff (PT). Do mesmo modo, outras duas publicações falsas atribuíram ao governo Bolsonaro a inauguração de um canal de irrigação no Ceará – o vídeo utilizado é de 2017 e não tem qualquer relação com o governo Bolsonaro; e a remodelação, pelo Exército, de um trecho da transposição do Rio São Francisco – a publicação afirmava que um pedaço da obra inaugurada em 2017 teria desmoronado, mas isso não aconteceu.

E não são apenas obras e realizações palpáveis de outros governos que são apropriadas pelas redes de desinformação. Em julho, uma publicação do site Notícias de Direita afirmando que Bolsonaro teria 64% de aprovação viralizou e teve mais de 12,5 mil interações apenas no Facebook. O texto era cópia de uma reportagem do portal G1 de setembro de 2008. A matéria original mostrava os números de aprovação do segundo governo do ex-presidente Lula, e não de Bolsonaro. Procurado, o site Notícias de Direita não respondeu às tentativas de contato do Comprova. O site foi retirado do ar e não existe mais. A última pesquisa de opinião publicada pelo Datafolha, realizada nos dias 23 e 24 de junho deste ano, mostra que apenas 32% dos brasileiros aprovam a gestão de Bolsonaro, enquanto 44% acreditam que ela é “ruim” ou “péssima”.

A estratégia de atribuir obras e feitos de outros governos ao atual presidente não é  manobra nova das redes de desinformação. Entre julho e dezembro de 2019,  período do primeiro ano da gestão Bolsonaro, o Comprova checou pelo menos quatro publicações falsas ou enganosas com essa temática – juntas, elas tiveram mais de 80 mil interações e 115 mil visualizações.

*
As verificações citadas no texto foram feitas pela equipe do Comprova, com participação de jornalistas dos seguintes veículos: AFP, UOL, Poder360, GaúchaZH, Jornal do Commercio, Correio 24 Horas, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, Correio de Carajás, A Gazeta, Rádio BandNews FM, Nexo e revista piauí. Você pode acessar todas elas no site do Projeto Comprova: https://projetocomprova.com.br/

Plínio Lopes (siga @Plluis no Twitter)

Repórter freelancer, trabalhou na Agência Lupa e é especializado em jornalismo de dados e fact-checking

Leia também

Últimas Mais Lidas

“Mamadeira de piroca” versão 2020

Monitoramento em oito capitais mostra como candidatos conservadores acusaram adversários usando “ideologia de gênero”

Inválidos, Paes e o Bispo

Paes derrota Crivella em todas as 49 zonas eleitorais, mas perde para abstenções em números absolutos

Foro ao vivo no 2º turno: o que concluir das eleições

Podcast de política da piauí fez um balanço do resultado das eleições municipais; a íntegra do programa ao vivo está disponível no YouTube

Jogada pela direita rumo a 2022

DEM e MDB saem fortalecidos do segundo turno diante de derrotas petistas e de um bolsonarismo menos enraizado do que se previa em 2018

PT saudações

Partido do ex-presidente Lula perde prefeituras e vereadores e fica fora das capitais; para cientista político, "polarização afetiva" ajuda a explicar rejeição à legenda

Nas redes, deu Boulos; nas urnas, Covas

Candidato do Psol foi maior surpresa das mídias sociais na eleição este ano 

Redes bolsonaristas mentem mais sobre eleição

Boatos sobre fraudes na votação e nas urnas eletrônicas se espalharam em novembro, estimulados por apoiadores do presidente e pelo próprio Bolsonaro

Mais textos
4

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

5

A transparência no jornalismo do húngaro Tamás Bodoky

O fundador do portal Atlatzo abre o segundo dia da programação do Festival Piauí de Jornalismo

6

Lições de literatura e sociedade

Antonio Candido fala sobre o fazendeiro Pio e a invasão da USP

7

Na cola de quem cola

A apoteose da tecnologia e o adeus aos estudos

10

The Newsroom – em tempo

O terceiro capítulo de The Newsroom, exibido domingo (19/8) no HBO, deu conta de uma das questões levantadas no post publicado neste blog na semana passada.