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Rodrigo Maia: um olho nos Bolsonaros, o outro em 2022

Presidente da Câmara diz que Temer operou impeachment de Dilma e que, se quisesse ser presidente a qualquer custo, teria sido em 2017

05out2019_16h13
Malu Gaspar entrevista o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na Conversa com a Fonte
Malu Gaspar entrevista o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na Conversa com a Fonte FOTO: TUCA VIEIRA

Um Rodrigo Maia disposto a mostrar que é mais do que um herdeiro político tímido com potencial eleitoral limitado surgiu no palco do Festival Piauí de Jornalismo sem gravata e bem mais sorridente do que o usual. O presidente da Câmara dos Deputados fez graça de sua relação com o ministro Paulo Guedes, mandou indiretas a Carlos Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, e explicitou seu interesse em ampliar sua atuação política no cenário nacional.

Na Conversa com a Fonte deste sábado (5), a repórter Malu Gaspar mencionou uma publicação nas redes sociais que Bolsonaro compartilhou chamando Maia (DEM-RJ) de “primeiro-ministro das couves”. Em sua resposta, o deputado mostrou que passou a segurar a língua ao rebater ataques palacianos. “Alguém reproduziu para ele, né?”, reagiu Maia, em referência à administração dos perfis de Bolsonaro nas redes por seu filho Carlos. “Tenho uma frase boa, mas não vou falar, porque vou estar com o presidente amanhã, não posso”, respondeu no auditório da Faap, onde ocorre o evento. “Eu liguei para a Folha de S.Paulo e disse: falei para vocês não fazerem essa matéria de primeiro-ministro que o cara ia ficar chateado. E não é verdade. Fico apanhando pelo que eu não estou fazendo”, afirmou.

A entrevistadora disse que o grupo de apoio a Maia no Congresso trabalhou por uma espécie de parlamentarismo branco, para atuar em contraponto ao Executivo. “Se eu quisesse ser presidente eu seria no lugar do Michel [Temer]”, disse o deputado, referindo-se a 2017. Maia afirmou que, à época, não endossou a tentativa de tirar o ex-presidente do poder — para que o próprio Maia assumisse, como defendeu parte do Congresso — por entender que era uma questão de responsabilidade com o país. Gaspar o provocou: então, em 2022, ele não disputará nas urnas a maior cadeira do país? “No voto é outra coisa”, respondeu Maia, rapidamente.

Para o deputado, sua atitude com Temer foi diferente daquela que o próprio então vice-presidente adotou com Dilma Rousseff no processo que culminou com o fim do governo petista. “É óbvio que o Michel [Temer] operou o processo de impeachment da Dilma, mas ela ia cair de qualquer jeito.”

Maia não perdeu a oportunidade de cutucar o segundo filho do presidente, de temperamento irascível. “Vou transferir o Carluxo para o deputado Pastor Sargento Isidório, para ele cuidar dele para mim”, soltou Maia. O deputado federal pelo Avante foi o mais votado da Bahia, se diz um ex-gay que acredita na cura da homossexualidade e mantém um centro de tratamento para dependentes químicos em Salvador.

Mais adiante na conversa, Maia voltou a falar sobre sua atuação política nacional. “Meu perfil inicial não é de candidato majoritário”, considerou, “mas eu posso ajudar. Tenho boa condição de ajudar a coordenar e construir um bloco grande de pessoas e partidos, atrair sociedade para a gente ter espaço para participar do debate como a gente já participa”.

Além do discurso pela estabilidade do país, Maia deixou escapar outro motivo pelo qual modera os ataques ao governo. Tem uma parcela do eleitorado de Bolsonaro que o presidente da Câmara pretende manter a seu lado.”Estava vendo o Datafolha. Deu lá 25% de ótimo e bom para mim. Eu tinha 8% no ano passado”, comparou. “Dos 25%, 35% avaliam o governo Bolsonaro como ótimo e bom. Por que, se eu só apanho da rede social do Bolsonaro? É porque os 35% avaliam positivamente a agenda econômica dele, que é a minha agenda. Eu vocalizo só isso nos últimos meses.”

Ao ministro Paulo Guedes, cuja proximidade com Maia sofreu abalos desde o início do ano, o deputado fez elogios relativos. “Desses ministros todos, Guedes é que o melhor compreendeu a política”, disse. Mas quando questionado sobre a articulação política do governo, ele citou apenas Rogério Marinho, secretário Especial da Previdência e Trabalho do Ministério da Economia. 

O Rodrigo Maia descontraído do Festival Piauí de Jornalismo ainda fez graça da forma como Guedes conduz articulações políticas. Contou que, na véspera de Marcos Cintra ser demitido da chefia da Receita por, entre outros fatores, defender a volta de uma nova CPMF, o ministro da Economia o convidou para conversar. 

“Ele me chamou lá e ficou uma hora lá defendendo a CPMF. Ó como eu fiquei: calado”, continuou. Mas por que reagiu assim, se discorda? “Estou há cinco meses dizendo que sou contra e ele ainda assim tenta defender. Melhor ficar calado”, concluiu.

Sobre Luciano Huck, o deputado contou que, na campanha de 2018, o apresentador de tevê tentou condicionar o lançamento de sua candidatura a presidente a um apoio prévio de partidos como o DEM de Maia. “A decisão de ser candidato é da pessoa. Ele não pode querer transferir para os outros”, criticou o entrevistado. Mas Maia disse que Huck continua no centro de articulações para a eleição de 2022. “Tem muita gente com expectativa no nome dele, porque ele entra num cruzamento de votos em que geralmente a centro-direita tem mais dificuldades de entrar, principalmente no Nordeste”, justificou.

Maia levou a plateia às gargalhadas ao oferecer uma explicação do motivo pelo qual o Senado obstrui menos votações de interesse do governo do que a Câmara. “Os senadores têm menos energia, a idade média é maior. Você pode ver, eles não ficam à noite pra votar”, notou, seriamente. A plateia se divertia, porém. E o presidente da Câmara se preocupou com a reação do público. “É melhor eu ficar tímido de novo”, disse, provocando ainda mais risos.

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