Igualdades

A roleta russa da Covid no Brasil

João Gado F. Costa, Francisco J. Ricci, Amanda Gorziza e Renata Buono
05abr2021_09h39

A Covid-19 já tirou a vida de mais de 330 mil brasileiros. O risco de morte de uma pessoa que contrai a doença está relacionado com diversos fatores, como renda, raça, lugar de moradia, idade e presença de comorbidades, ou seja, outras doenças. O risco de um paciente morrer de Covid, caso hospitalizado, equivale a colocar duas balas em uma arma de cinco tiros e disparar contra si mesmo; esse risco aumenta para três balas se o indivíduo for para UTI; e chega a quatro se for intubado. A mortalidade de pacientes com Covid em Unidades de Terapia Intensiva na região Norte é maior do que a média nacional – 79% das pessoas internadas em UTI nessa região entre fevereiro e agosto de 2020 morreram. A Covid também escancara a desigualdade brasileira: o risco de morte em uma UTI pública é maior que em uma privada. Além disso, a possibilidade de pretos e pardos morrerem pela doença é maior que a de brancos. Os números foram compilados pelo Pindograma, site de jornalismo de dados. Confira no =igualdades desta semana.

Estudo sobre as hospitalizações de pacientes com Covid no Brasil entre 16 de fevereiro e 15 de agosto de 2020 mostrou que o risco de morte de todos os hospitalizados foi de 38%. Se o paciente for para a UTI, o risco sobe para 59%; se for intubado, vai a 80%.

Entre fevereiro e agosto de 2020, 59% das pessoas admitidas em UTIs no Brasil morreram. Já no auge da pandemia na Itália, em abril, a mortalidade em UTIs no país foi de 48%.

O risco de morrer de Covid em uma UTI pública no Brasil é maior que em uma privada. A mortalidade de pacientes com Covid internados em UTIs privadas foi de 30%, enquanto em UTIs públicas foi de 53%. 

Na região Norte, a mortalidade de pacientes com Covid internados em UTIs é maior do que a média nacional. 79% das pessoas internadas em UTIs no Norte entre fevereiro e agosto de 2020 morreram. No Nordeste, a mortalidade foi de 66%; no Sul, 53%; no Centro-Oeste, 51%. Já no Sudeste, que registrou a menor taxa, o risco de morte em UTI foi de 49%.

Alguns grupos têm maior risco de desenvolver as formas mais graves da Covid, como é o caso de idosos acima de sessenta anos. Apesar disso, a mortalidade de pacientes mais jovens no Brasil também é significativa. De fevereiro a agosto de 2020, 31% dos pacientes nordestinos com menos de sessenta anos morreram – o dobro do registrado no Sul, onde 15% das pessoas dessa faixa etária que estavam internadas morreram. 

Estudo mostra que pobres, negros e pessoas de baixa escolaridade correm risco maior de morrer por Covid na cidade de São Paulo. A possibilidade de uma pessoa parda morrer da doença é 42% maior que a de uma pessoa branca. Para uma pessoa preta, o risco é 77% maior que o de uma pessoa branca.

No começo de junho de 2020, a taxa de mortalidade da Covid no Brasil era de 5,3% e, nos Estados Unidos, 5,7%. Atualmente, o cenário se inverteu. Os Estados Unidos têm taxa de 1,8% de mortalidade, e a do Brasil está em 2,5%. Ou seja, atualmente, o risco de morrer de Covid no Brasil é maior que nos Estados Unidos.

Fontes: Estudo de Bozza, Ranzani e pesquisadores publicado na revista The Lancet Respiratory Medicine; estudo de Grasselli e outros na Jama Internal Medicine; estudo de Ribeiro e pesquisadoras na International Journal of Epidemiology; UTIs Brasileiras; Brasil.io; CDC COVID Data tracker



João Gado F. Costa (siga @jgfcosta no Twitter)

É repórter do Pindograma, site de jornalismo de dados, e estudante de linguística na Universidade de Columbia, em Nova York.

Francisco J. Ricci (siga @FranciscoJRicci no Twitter)

É fundador e repórter do Pindograma. Estuda Economia e Política na Universidade de Nova York

Amanda Gorziza (siga @amandalcgorziza no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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