questões da política

Russomanno, seus adversários e o dilema da pancadaria

Como bater no líder das pesquisas de intenção de voto?

Julia Duailibi
10ago2016_15h12
Foto: Danilo Verpa/Folhapress

Agora que a candidatura do deputado Celso Russomanno (PRB-SP) à Prefeitura de São Paulo foi confirmada, após a decisão de ontem do Supremo Tribunal Federal que o inocentou da acusação de peculato (desvio de recursos públicos), os adversários se veem às voltas com uma dúvida: como bater no líder das pesquisas de intenção de voto?

Para candidatos com alta rejeição, nada pior que atacar os adversários. A literatura diz que quem lança a primeira pedra tende a despertar a aversão do eleitor. Isso torna-se um problema especialmente para os campeões em rejeição, a senadora Marta Suplicy (PMDB) e o prefeito e candidato à reeleição, Fernando Haddad (PT), respectivamente segundo e quarto lugares nas pesquisas.

Tanto Marta quanto Haddad precisam crescer entre o eleitor que, nas últimas eleições, se convencionou chamar de vermelho. É o paulistano que votou no PT, que tem renda e escolaridade mais baixas e que vive na periferia da cidade. Parte desse eleitorado também nutre, agora, críticas ao PT. Russomanno tem bom desempenho nessa faixa, impedindo o crescimento do petista e da ex-petista no estrato. Para chegarem ao segundo turno, Marta e, principalmente, Haddad vão precisar que o deputado do PRB perca um pouco da sua força entre esse eleitor, e daí volta a questão: quem tentará desconstruir Russomanno primeiro?

Com a maior parte dos dez minutos diários da propaganda eleitoral na TV, que começa no dia 26, o candidato do PSDB, João Doria Júnior, em quinto lugar nas pesquisas, precisará crescer entre os eleitores azuis, os de maior renda e escolaridade e que vivem no centro expandido. Parte desse eleitor, com o perfil mais à direita e que nas últimas eleições votou no PSDB, também pretende ir de Russomanno. Doria tem de se tornar conhecido entre esse eleitor e trazer parte dos votos que estão com o adversário. De novo a pergunta: quando e como bater? Pelo menos num primeiro momento, a pancadaria não pode ficar a serviço de Doria. Desconhecido do eleitor, ele precisará antes apresentar suas credenciais e só depois, se for o caso, partir para o ataque. A literatura também diz que o eleitor torce o nariz para os novatos que são nervozinhos.

Além do bater ou não bater, outra questão que se impõe é como desferir os ataques. As novas regras da legislação eleitoral proíbem o uso de locutores e apresentadores na propaganda política. Os candidatos costumavam terceirizar para esses personagens as críticas mais duras aos adversários, na tentativa de não se vincularem diretamente a elas. Se as campanhas não inventarem alguma gambiarra (tipo recorrer a “apoiadores”, termo genérico da lei, que ninguém sabe ainda de fato o que significa), os candidatos terão de colocar a cara para fazer as críticas, e essa será uma operação arriscada.

O dilema da pancadaria russomanniana ocupou a campanha de 2012. Naquele ano, o deputado tornou-se líder nas pesquisas em agosto, e José Serra (PSDB) e Haddad passaram a disputar o segundo lugar. Tucano e petista precisavam, por vias inversas, desidratar a votação de Russomanno para garantir a vaga no segundo turno. Serra queria diminuir a intenção de voto dele entre os azuis, e Haddad tinha que enfraquecê-lo entre os vermelhos. Quem daria o primeiro tiro? “Ninguém sabia onde Russomanno cairia primeiro, e essa era a questão. E se a gente batesse, e ele começasse a perder votos justamente entre os vermelhos? Haddad cresceria, e isso a gente não queria”, lembra um integrante da campanha de Serra em 2012.

Haddad abriu a temporada de ataques após intervenção de Lula, aflito com o seu candidato que não deslanchava nas pesquisas. O próprio ex-presidente aprovou o filme, criado por João Santana e veiculado na propaganda eleitoral com o primeiro golpe, que questionava proposta de Russomanno para o transporte público da cidade – o então candidato queria que o passageiro pagasse pelo tamanho do trecho usado o que, obviamente, lhe custou votos entre os que moravam na periferia. A receita deu certo. Com os ataques à proposta, o eleitor vermelho migrou para Haddad e o levou para o segundo turno.

Em 2012, Serra e Haddad preferiam enfrentar Russomanno no segundo turno. Russomanno tinha que cair, mas não derreter. Raciocínio similar ainda se faz hoje: Russomanno representaria uma candidatura mais frágil, ligada a um partido menor e com pouca consistência. Seria, portanto, mais fácil de ser desconstruído no tête-à-tête do segundo turno. Na última eleição, porém, os ataques funcionaram como um tiro de canhão que naufragou a nau de Russomanno. Passaram Serra e Haddad para o segundo turno. Agora, o deputado tem a seu favor o eleitor arrependido de ter desistido do seu voto em cima da hora.

A dosagem dos ataques na eleição municipal deste ano levará em conta ainda a variável Operação Lava-Jato. O telhado de vidro do PMDB, de Marta, do PT, de Haddad, do PSDB, de Doria, e até de Russomanno, citado em uma das delações premiadas, funcionará como um inibidor da pancadaria. Com medo do chumbo grosso que um ataque pode deflagrar, um candidato tende a esperar o outro jogar a primeira pedra. Ainda assim, num cenário de crise com a política tradicional, Russomanno e Doria, que se apresentam como apresentadores de TV e empresários, tendem a se beneficiar.

 

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Julia Duailibi trabalhou na piauí, na TV Bandeirantes, na Folha de S.Paulo, na Veja e n’O Estado de S. Paulo

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