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Scorsese pede para se explicar

Quem sonha em fazer filmes enfrenta situação brutal, afirma cineasta

Eduardo Escorel
13nov2019_08h04

Martin Scorsese pede para explicar a declaração que fez, no início de outubro, sobre os blockbusters da Marvel. Em artigo publicado no New York Times, em 4 de novembro, reproduzido dois dias depois no Globo, ele volta a discriminar os filmes da bem-sucedida franquia ao dizer que existem “dois campos separados” – o do “entretenimento audiovisual mundial” e o do “cinema”, categorias que considera discrepantes e inconciliáveis. Embora chegue a reconhecer que ainda há “superposições de tempos em tempos entre esses dois conjuntos”, argumenta que “isso está se tornando cada vez mais raro”. E teme que “o domínio financeiro de um esteja sendo usado para marginalizar e depreciar a existência do outro”. Daí sua defesa do que considera ser cinema – filmes que correspondem ao seu “senso” pessoal do que “eram e poderiam ser”, desenvolvido na época em que era um cinéfilo aspirante a cineasta.

Deixando de lado esse ocioso debate semântico sobre o que é ou não cinema, já comentado há duas semanas, volto ao assunto movido pelo aspecto do recente artigo de Scorsese que me parece mais relevante – sua concepção de cinema que apresenta e opõem ao “entretenimento audiovisual”. Para ele, cinema é uma forma de arte que pressupõe “uma revelação estética, emocional e espiritual” com “personagens – a complexidade de pessoas e sua natureza contraditória e às vezes paradoxal, a maneira como elas podem ferir e amar umas às outras e, de repente, encarar a si mesmas”. Esse foi o projeto de sua geração, escreve Scorsese, tendo por modelo filmes de Samuel Fuller, Ingmar Bergman, Alfred Hitchcock, Gene Kelly e Stanley Donen, entre outros.

Visão semelhante a essa, respeitadas diferenças de gosto e peculiaridades nacionais, serviu de impulso para o surgimento tanto da Nouvelle Vague, quanto do Cinema Novo, além dos demais novos cinemas surgidos mundo afora a partir da década de 1960 – tratava-se de criar obras de arte inovadoras que fossem expressões culturais autênticas de seus respectivos países.

E nas últimas três décadas, o que ocorreu? É possível dizer que o conjunto da produção audiovisual brasileira mais recente se aproximou do ideal delineado por Scorsese? Ou seria mais correto admitir que a par do aumento exponencial de recursos públicos investidos na produção foi dada ênfase em produções pretensamente comerciais, com destaque para comédias que, mesmo quando bem-sucedidas na bilheteria, demonstraram ser incapazes de tornar seus produtores menos dependentes de incentivos financeiros do Estado?

 

Quaisquer que sejam as respostas a essas perguntas, diante da perspectiva sombria que se vislumbra desde a posse do atual governo, torna-se imperiosa a necessidade de saber qual é o cinema nacional que se deseja produzir e ver exibido nas diversas mídias do mercado interno, inclusive a tela grande do circuito de salas escuras existente no país. É desse ângulo que acredito interessar mais considerar a visão do cinema formulada por Scorsese.

Novos sinais recentes de desapreço pela cultura e, em particular, ao cinema, da parte do governo federal, confirmam indicações dadas desde o início do ano de que a sobrevivência do cinema brasileiro está ameaçada. A intenção deliberada de asfixiar a atividade foi confirmada com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que pretende reformular os fundos públicos, entregue ao Congresso Nacional há uma semana (5/11). Caso seja aprovada e inclua o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), eliminando ou restringindo a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), a principal fonte de investimento público na indústria do audiovisual estará comprometida. Se isso ocorrer sem que tenha sido criado mecanismo de financiamento alternativo, a produção cinematográfica nacional, já virtualmente paralisada, será interrompida de vez, causando uma crise equivalente à do início da década de 1990.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, é um exemplo de filme que, de algum modo, representa o cinema que Scorsese defende

 

Há quem conteste a legitimidade da PEC apresentada pelo ministro da Economia Paulo Guedes e critique o Estado mínimo dos seus sonhos (Monica de Bolle, “Precisamos falar de Paulo Guedes”, Época, 11/11. No que diz respeito ao cinema, não se trata de considerar o arcabouço institucional existente, incluindo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), isento de críticas, muito menos que prescinda de reforma drástica. Inaceitável, porém, é que instituições e leis que regem a atividade sejam tratadas como se tivesse caído do céu, quando resultam de um processo de décadas, ao longo do qual se foi acumulado conhecimento sobre os meandros da atividade.

Na quinta-feira (7/11) foi anunciado que o ministro da Cidadania, Osmar Terra, aquele que se notabilizou pelo próprio silêncio ao longo deste ano, livrou-se de uma pequena gaveta emperrada onde havia sido enfiada a Secretaria Especial de Cultura, com a qual ninguém do governo sabe o que fazer. Transferida para o ministério do Turismo e nomeado um novo secretário, aguardam-se aberrações que será capaz de cometer. No mesmo dia, circulou a notícia de que a senhora Zitah Oliveira está cotada para ser a nova presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Oliveira, da Anjoluz Filmes, é produtora do filme inédito A Palavra (2018), anunciado como sendo “evangélico” e dirigido por Guilherme Almeida Prado.

Na ausência de política cultural de Estado, impõem-se refletir sobre as condições necessárias para que seja possível produzir filmes no Brasil, reconhecendo de antemão a impossibilidade de competir no mercado interno, dada a desigualdade dos termos em que essa competição ocorre, com o “entretenimento audiovisual mundial” do qual fazem parte, em posição de destaque, os blockbusters da Marvel. Se formos capazes de admitir essa premissa, não seria o caso de darmos maior ênfase a projetos que tenham a ambição de serem reconhecidos como uma forma de expressão artística em que se assiste a “algo absolutamente novo” sendo “levado a áreas de experiências inesperadas e talvez até inomináveis”, como escreveu Scorsese? Para ele, “nesses casos o senso do que é possível ao contar histórias com imagens e sons em movimento será expandido”.

Afinal, foi essa linhagem que deu e continua a dar valor artístico ao cinema brasileiro. São projetos que correm “riscos”; filmes que têm “a visão unificadora de um artista individual”, como assinala Scorsese – “por que, é claro, o artista individual é o maior risco de todos”.

Scorsese conclui em tom melancólico, dizendo que, “para quem sonha em fazer filmes ou está apenas começando, a situação neste momento é brutal e inóspita para a arte. E o simples ato de escrever essas palavras me enche de tristeza terrível”. Nesse ponto, não há como discordar. Ainda mais por aqui, onde o cenário previsível para o futuro próximo não é nada animador.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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