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Seja bem-vinda, Elena

A estreia de Elena, na próxima sexta-feira, 10 de maio, não é um acontecimento banal. Mereceria ser saudado com fanfarras, ou melhor, com o movimento molto moderato de uma sonata, mais adequado à sua narrativa em tom menor. Demonstração rara de sensibilildade e talento, o filme dirigido por Petra Costa trata, sem sentimentalismo ou comiseração, da dor e culpa dela e da sua mãe.

Eduardo Escorel
06maio2013_12h36
Elena
Elena

A estreia de , na próxima sexta-feira, 10 de maio, não é um acontecimento banal. Mereceria ser saudado com fanfarras, ou melhor, com o movimento molto moderato de uma sonata, mais adequado à sua narrativa em tom menor. Demonstração rara de sensibilildade e talento, o filme dirigido por Petra Costa trata, sem sentimentalismo ou comiseração, da dor e culpa dela e da sua mãe.

Petra Costa, também narradora do filme, busca sua irmã. Vai a Nova Iorque na esperança de encontrá-la. Percorre a cidade, encontra o amigo que falou com ela por último. Ao mesmo tempo, recorre aos vídeos gravados por ela, às cartas mandadas para a família, em fitas K-7, quando vivia sozinha nos Estados Unidos. Mesmo sabendo que ela não responderá, começa a narração off dirigindo-se a Elena. É a maneira que encontrou para falar com ela.

Nessa busca, desafia interdições decretadas aparentemente por temor que pudesse repetir o ato de Elena – não podia ir morar em Nova Iorque, nem ser atriz. Queriam que esquecesse a irmã. E Petra admite que andando pelas ruas ouvindo a voz de Elena começa a se “perder” nela. Mas não só escapa a essa fatalidade, como acaba conquistando a conivência da sua mãe que participa da procura e tem presença destacada no filme.

A narrativa complexa e delicada de flui de forma harmoniosa, articulando com maestria materiais heterogêneos, sem se tornar lúgubre. O lamento de Petra, feito com dignidade, é composto de belas imagens, muitas vezes abstratas que exprimem impressões, pensamentos e lembranças.

Mencionada apenas uma vez, a discreta referência a Ofélia é reiterada nas imagens recorrentes de água, concentradas no início e no fim do filme. Elena é retratada como tendo sido uma menina sonhadora – romântica e dada a depressão. Como em Hamlet, em meio à vegetação, mulheres flutuam. E em certo momento, uma emerge e respira, voltando à vida.

Para Petra, conforme ela diz na narração, “as dores viram água, e pouco a pouco viram memória”. Dessa maneira, o sofrimento parece ter se diluído, e o medo de que seguisse os passos da irmã se dissipado. É só com a busca empreendida ao fazer que ela se torna independente em relação à irmã e consegue viver.

Recebamos de braços abertos. O comovente filme merece.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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