questões político-culturais

Teatro político

Ricardo Nunes, vice da chapa de Bruno Covas, faz encontro em teatro que recebeu repasse de 150 mil reais autorizado pela prefeitura de São Paulo

João Batista Jr.
26nov2020_17h45
Ricardo Nunes, candidato a vice de Bruno Covas –
Ricardo Nunes, candidato a vice de Bruno Covas – FOTO: AFONSO BRAGA/CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO

A máxima do cancioneiro popular de que o artista vai aonde o povo está se aplica aos políticos: onde há eleitores, há candidatos em busca de votos. Por volta das 20 horas de terça, 24, Ricardo Nunes (MDB) tomou o microfone de cima do palco transformado em palanque do Teatro Commune, na região central de São Paulo. O candidato a vice da chapa de Bruno Covas (PSDB) se reuniu com integrantes da classe artística para pedir apoio, no evento chamado “Cultura Apoia Bruno Covas”. Estavam ao seu lado André Sturm (ex-secretário de Cultura da cidade de São Paulo e ativista cultural), Floriano Pesaro (deputado federal pelo PSDB) e Augusto Marin (presidente e sócio do Teatro Commune), entre outros.

Para uma plateia de sessenta pessoas, sentados de frente para o palco de chão e tecido escuros, mas amplificada no mundo digital uma vez que o encontro estava sendo transmitido por live pelas redes sociais, Nunes foi apresentado por Pesaro: “um dos homens mais gentis e fidalgos que conheci na minha vida pública.” De pé, Nunes falou de sua carreira e trajetória política. Alguns dos assuntos discutidos e prometidos caso ocorra uma vitória nas urnas neste domingo, 29, contra Guilherme Boulos (Psol): rever a lei de incentivo fiscal, fomentar criação de público de teatro em escolas municipais e criar um auxílio emergencial para artistas. 

Nunes, de 53 anos, tem um histórico positivo no segmento. Em seu primeiro mandato como vereador, ele foi coautor de um projeto de lei para isentar pequenos teatros do pagamento de imposto municipal, em 2015. O evento político se deu em grande parte pelo empenho de Augusto Marin, presidente e sócio do Teatro Commune, um estabelecimento privado criado há quinze anos. “Eu e ele (Ricardo Nunes) somos amigos há muitos anos; foi ele quem me convidou para disputar uma vaga para vereador na eleição deste ano”, diz Marin, que recebeu 510 votos e não conseguiu se eleger. Mas nem tudo é derrota.

No dia 20 de novembro, dias antes do comício no teatro, o Diário Oficial da cidade de São Paulo publicou que o Teatro Commune foi autorizado a receber 150 mil reais via Lei Aldir Blanc, criada para auxiliar trabalhadores da classe artística duramente afetados pela pandemia do coronavírus. O dinheiro vem do governo federal, mas o município estabelece os critérios para definir os contemplados.



O aval municipal para o Commune só saiu depois de uma reviravolta. No dia 28 de outubro, o mesmo Diário Oficial veiculou que o Commune não tinha se qualificado para receber o auxílio: o teatro tirou uma pontuação de 58,5 pontos. Foi então que a entidade pediu uma revisão, medida cabível e permitida por lei, para ter a chance de uma reavaliação. Marin anexou documentos para mostrar os quinze anos do teatro e detalhou o projeto chamado Mostra de Repertório, que objetiva realizar 24 sessões de 5 espetáculos do grupo, além de 2 leituras dramáticas (com 10 atores cada uma), envolvendo 31 profissionais entre artistas, técnicos e produtores. A Secretaria de Cultura de São Paulo acatou o pedido de revisão. O Commune passou de nota 58,5 para 83, sendo então autorizado a captar 150 mil reais. 

Questionado pela piauí, Marin não vê conflito de interesse em organizar uma reunião política em prol do prefeito cuja gestão acabara de liberar um repasse importante para o teatro. “Ajudei a organizar o evento como pessoa física; o teatro cedeu espaço e não tem fins lucrativos.” Marin afirma que Nunes, seu amigo e colega de partido, está sendo alvo de fake news durante a campanha política. “As pessoas ficam falando de coisas que não têm nada a ver.”

Por comunicado enviado à piauí, a Prefeitura de São Paulo diz não haver problema entre o repasse e o evento político. “Conforme Lei Federal n. 14017/2020, Decreto Federal n. 10.464/2020, Decreto Municipal n. 59.580/2020 e Lei Federal n. 9504/1997, o fato de uma pessoa ser candidato(a) a vereador(a) pela cidade de São Paulo não o(a) faz ter qualquer impedimento para se inscrever e/ou receber recursos públicos provenientes. Sendo assim, se faz necessário reforçar que em todas as decisões da Comissão e encaminhamentos desta Secretaria foram observados os princípios básicos da administração pública e em conformidade com as leis vigentes”, diz o comunicado. Nunes não quis se manifestar.

João Batista Jr. (siga @joao_batistajr no Twitter)

Repórter da piauí, ex-colunista de Veja e autor do livro A Beleza da Vida — A Biografia de Marco Antonio de Biaggi

Leia também

Últimas Mais Lidas

Foro de Teresina #134: Sem vacina, sem Trump, sem nada

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Consórcio de checagem de fatos é indicado ao Nobel da Paz

Presente em 51 países, entre eles o Brasil, Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN) recebeu a nomeação nesta quinta-feira (21)

A queda do padre youtuber

Marcos de Miranda é afastado da Igreja após denúncia de que infringiu o celibato e tem um filho de 2 anos. Ele nega a acusação

“O mundo em torno de mim está se desfazendo”

Jornalista que vive no Amazonas há trinta anos descreve o colapso dos hospitais manauaras durante a segunda onda da pandemia

Vacina em causa própria

Veterinário que comanda o Departamento de Imunização do Ministério da Saúde inclui a própria categoria na fila prioritária de vacinação contra a Covid-19

A epidemia particular das prisões

No Brasil, suicídios são quatro vezes mais comuns nas cadeias do que fora delas; famílias de presos lutam para que Estado se responsabilize pelas mortes

Pesadelo em Manaus

Mais trinta mil mortos pela Covid em apenas trinta dias. Quem é o responsável por essa tragédia?

Mais textos
1

O lobby da capivara

Como nasce um emoji

2

121

5

Sobrou para o PSTU

Agremiação trotskista com apenas dois vereadores não escapou da fúria contra os partidos, mas já faz planos para o pós-revolução

6

How do you do, Dutra?

É mais arriscado [e divertido] ir de São Paulo ao Rio de carro do que remar da África a Salvador

7

A semana no site da piauí

O "início do namoro" entre Mão Santa e Bolsonaro, as investidas do procurador Carlos Fernando contra os críticos da Lava Jato e outras histórias

8

Quixote venceu

Memórias e dúvidas metafísicas de um torcedor do Galo diante da glória

9

Um pierrô apaixonado

As melhores marchas do carnaval do Rio de Janeiro sucederam-se na boca do povo ao longo das décadas de 1920 a 1950, para fixar-se em seguida na memória de todos os cariocas, mesmo aqueles para quem o carnaval será sempre apenas um feriado. Repetidas ao infinito nas rádios, cantadas nas ruas e nas casas, muitas das marchinhas mais populares tornaram-se imortais.