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Tempo eleitoral: modos de usar

Os dilemas do PSDB e do PT numa disputa atípica

Marcos Nobre
15ago2018_06h00

Ao contrário das eleições dos últimos vinte anos, PT e PSDB vão ter de se virar com candidatos que partem de patamares bastante baixos de intenção de voto. Em agosto de 2014, as pesquisas davam Dilma Rousseff com 38%, Aécio Neves com 23% e Eduardo Campos com 9%. Este ano, Geraldo Alckmin aparece com algo como 7%, Fernando Haddad ronda os 3% de intenções de voto nas pesquisas.

Em 2014, as convenções partidárias se encerraram em 30 de junho e o prazo para registro de candidaturas foi 5 de julho. Desta vez, os prazos para formação de alianças foram todos espichados e o tempo de campanha encurtado. Na eleição deste ano, as convenções podiam ser realizadas até 5 de agosto e o prazo para registro de candidaturas se encerra apenas hoje, 15 de agosto.

A dispersão de votos em cenários sem a presença de Lula impôs essa nova lógica. As máquinas partidárias empurraram suas decisões para utilizar os limites máximos de prazo e reduzir ao mínimo o tempo próprio de campanha. Tudo é resolvido em cima da hora e o clima geral é de salve-se quem puder, cada um com seus problemas.

Do lado da candidatura de Geraldo Alckmin, a situação levou a um acordo em que o Centrão cedeu seu tempo de tevê – o mais vistoso, de longe – e disse para o candidato se virar. Nenhum partido do Centrão pretende dar um tostão para ajudar a campanha do candidato do PSDB. Por óbvio, não foi sequer necessário avisar que o candidato será inteiramente abandonado no Nordeste, onde o Centrão pretende fechar em bloco com o candidato indicado por Lula.

O recado foi claro. Disseram a Alckmin que cuidasse de mostrar serviço no seu quintal – o Sul e o Sudeste, excluído aqui o Rio de Janeiro, onde a perspectiva eleitoral do tucano é pífia. Se conseguir botar ordem na sua casa e melhorar sua posição nas pesquisas, novas rodadas de negociação podem se abrir. Se não conseguir, começará o desespero da alternativa que não existe e a situação voltará muitas casas atrás, como se estivéssemos ainda em maio ou junho passados.

Para mostrar serviço em seu quintal, Alckmin vai precisar primeiro enquadrar os intrusos Jair Bolsonaro e Álvaro Dias. Para isso, terá à sua disposição o tempo de tevê. Antes limitada a ataques que apenas o fortaleciam, uma campanha efetiva de desconstrução de Bolsonaro finalmente começou. Mostrar que o capitão-candidato empregou uma funcionária fantasma em seu gabinete na Câmara é bater onde realmente dói. Sem tempo de tevê para poder tentar se defender, Bolsonaro vai ficar nas cordas. Por enquanto, a campanha do PSDB conta que Álvaro Dias irá desidratar sem necessidade de grande esforço.

Mas não adianta apenas enquadrar os intrusos. É preciso também convencer, ganhar votos. Para isso, Alckmin precisa desesperadamente que as máquinas eleitorais funcionem. Quando foi candidato presidencial pela primeira vez, em 2006, Alckmin sentiu na pele o que é traição de máquina. Teve menos votos no segundo turno do que no primeiro. Desta vez, não hesitou em acumular a candidatura presidencial com a presidência do PSDB. Com o financiamento eleitoral concentrado nas cúpulas partidárias, está nas mãos de Alckmin decidir quem tem ou não tem chances de se eleger. Só vai financiar quem topar o projeto por inteiro. Com base nisso vai exigir reciprocidade e compromisso também de outros partidos.

O problema é que essa estratégia de enquadramento dos adversários e de conquista de votos demanda tempo, não vai mostrar resultados rapidamente. E aí é que mora o perigo para o candidato do PSDB. Vai ter de passar quase que a campanha toda tentando convencer os aliados de que seu transatlântico não é o Titanic, de que manobrá-lo exige tempo e paciência, mas que o iceberg será evitado.

 

Os problemas da candidatura do PT são semelhantes aos enfrentados pelo candidato do PSDB no que diz respeito à neutralização de adversário. O candidato do PT precisa neutralizar Ciro Gomes. Mas o outro lado da moeda, o da conquista de votos, é bem diferente. No caso do PT, de certa maneira, os votos já estão conquistados. A operação a ser realizada é conseguir transferi-los de Lula para Haddad.

Acontece que os dois problemas estão ligados. Se o PT não assumir de vez que Haddad é o candidato, Ciro ocupará o lugar vazio, como já fez no primeiro debate presidencial na tevê. E aí ganha musculatura, tem chances de pelo menos conseguir um empate técnico na disputa pelos mesmos votos. O candidato do PDT já deixou isso claro ao se posicionar contra a ida de Haddad aos debates e sabatinas em substituição a Lula. “Quem é o candidato à Presidência da República do PT?”, questionou. Se essa dúvida se fixa na cabeça do eleitor, o prejuízo para a candidatura presidencial do PT será irremediável. Se o PT não estiver presente nos próximos debates e sabatinas na tevê, o segundo turno passará a ser um horizonte distante.

Acontece que a primeira prioridade da máquina partidária petista é a eleição para o Congresso. Desse ponto de vista, quanto mais tempo Lula ficar como candidato oficial, maiores as chances de eleger deputados e mesmo senadores. A estratégia para a eleição presidencial montada por Lula está sendo usada até agora contra a própria candidatura presidencial do partido, a candidatura Haddad. E só Lula pode mudar essa situação, caso seja essa sua intenção.

A outra prioridade da máquina partidária, gêmea da primeira, diz respeito ao futuro do próprio PT. Dilma Rousseff foi indicada por Lula como candidata presidencial dois anos antes da eleição de 2010. Esse tempo foi mais do que suficiente para negociar com a máquina partidária, garantindo que a correlação de forças existente seria mantida. Agora, o tempo para isso simplesmente não existe. E a cúpula do PT não dá sinais de querer correr riscos com Haddad.

Afinal, se Haddad chegar ao segundo turno, o bastão terá passado a uma nova geração. Uma nova geração forjada ao longo dos dois mandatos de Lula, é certo, mas que nunca teve expressão no interior da máquina partidária. E que representa agora um risco real ao equilíbrio de forças interno que prevaleceu até hoje.

Alckmin concentrou todos os poderes eleitorais em suas mãos. É presidente do partido e candidato presidencial ao mesmo tempo. Mas precisará de tempo para mostrar que sabe exercer esses poderes com eficácia. O PT, ao contrário, está cindido entre o poder partidário e candidatura presidencial de Haddad. Como Alckmin, também Haddad precisa de tempo para realizar operações eleitorais de alta complexidade. Só que seu tempo pode acabar antes mesmo de começar a correr. Se o PT deixar de agir agora, se não ungir de vez a chapa de Fernando Haddad e Manuela D’Ávila, poderá ter optado por abandonar na prática sua candidatura presidencial.

Marcos Nobre

É professor de filosofia da Unicamp e autor de Imobilismo em Movimento, pela Companhia das Letras, e Como nasce o novo, pela Todavia

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