questões cinematográficas

Thelma – perfeição e regularidade

Estruturado a partir de um enigma inquietante, novo longa de Joachim Trier é atraente, mas amarga fracasso comercial e rejeição da crítica

Eduardo Escorel
11jan2018_16h07
Eili Harboe como Thelma, personagem capaz de materializar desejos com a força do pensamento, potencializada por convulsões
Eili Harboe como Thelma, personagem capaz de materializar desejos com a força do pensamento, potencializada por convulsões FOTO: DIVULGAÇÃO

Produção norueguesa de 6,5 milhões de dólares, Thelma foi co-produzido por três empresas suecas, uma francesa e outra dinamarquesa. No Rio de Janeiro, depois de estrear em 30 de novembro passado, resistiu cinco semanas em cartaz. Como Lucky, comentado aqui na semana passada, atravessou os feriados de fim de ano em exibição, embora em uma micro sala dotada de tela pouco maior do que a de muito televisor doméstico.

Indicado pela Noruega para concorrer ao Oscar com 92 produções de outros países, Thelma, dirigido por Joachim Trier, não foi sequer pré-selecionado pela comissão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas entre nove filmes dos quais cinco finalistas ainda serão anunciados para concorrer ao prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Dados disponíveis (a conferir) indicam que a receita de Thelma em cinemas no mercado interno e externo, até o momento, teria sido de cerca de 220 mil dólares, o que representaria cerca de 3,3% do custo de produção e, a estarem corretos, configurariam fracasso comercial completo.

A esses percalços, somam-se considerações críticas que, entre outras, consideram Thelma “imperfeito”, mesmo reconhecendo que “cria um acúmulo incrível de atmosfera, um êxtase de inquietação” e também “indica que [filme de] horror não precisa ter um final niilista ou infeliz” (Peter Bradshaw, The Guardian, 2/11/2017); outro crítico se refere ao “grande equívoco” de Trier, que teria escolhido “navegar nas águas turbulentas dos contos fantásticos e o resultado não poderia ser mais irregular” (Miguel Forlin, Formiga Elétrica, 27/11/2017).

Definido como “thriller de horror sobrenatural”, Thelma não parece ser um programa adequado ao espírito natalino. Resistiu com garbo, porém, no dia seguinte ao Natal, quando o assisti sentado por acaso ao lado de um casal de colegas, ela produtora, ele diretor e montador. Na saída, nos despedimos sem maiores comentários, mas os dois pareceram ter assistido ao filme com atenção e prazer, assim como os demais espectadores que ocuparam quase metade das 66 poltronas e dois lugares para cadeirantes.

Pensando no que escreveram os dois críticos citados acima – um, considera Thelma “imperfeito”; o outro condena o filme por ser “irregular” –, pergunto a mim mesmo se um filme “imperfeito” e “irregular” é, necessariamente, desprezível? Para Peter Bradshaw, do The Guardian, fica claro que não – ele não deixa de assinalar os méritos de Thelma. Já Miguel Forlin, do site Formiga Elétrica, condena o filme de Trier in limine, dizendo que é um “grande equívoco”.

Só seriam dignos de atenção e, portanto, de serem assistidos, filmes perfeitos e regulares? Quantos alcançam esse patamar de excelência? Quais são eles? As chamadas obras-primas do cinema, por acaso não contém imperfeições e irregularidades?

A verdade é que filmes julgados “imperfeitos” e “irregulares” podem ter qualidades que os tornam valiosos. Thelma, por exemplo, pode não ser nenhuma obra-prima perfeita e regular, mas tem virtudes suficientes para torná-lo atraente mesmo para quem não tem interesse especial pela temática sobrenatural, tampouco pelo cinema de horror.

Thelma é estruturado a partir de um enigma inquietante, apresentado na primeira sequência – o pai aponta o fuzil de caça com mira telescópica para a cabeça da filha, ainda criança. O desenvolvimento da narrativa que segue, conduzida com habilidade por Trier, fornece aos poucos pistas que só permitem decifrar próximo ao final o mistério inicial e o sentido geral da trama. O roteiro de Trier e Eskil Vogt segue com eficiência essa conhecida forma dramática, mantendo o espectador em estado de alerta ao longo de todo o filme.

A força do pensamento, potencializada em convulsões, torna Thelma (Eili Harboe) uma personagem capaz de materializar desejos, provocando tragédias e ao menos uma cura. Em interpretação brilhante, Harboe conjuga fragilidade e insegurança com seu poder mental, sobre o qual não tem controle e que, inicialmente, desconhece.

Filho de uma diretora de documentários e de um técnico e editor de som, neto de um encarregado de supervisionar o rumo da história de filmes durante a filmagem em locação, Trier (1974 – ) estudou, de 1995 a 1996, na European Film College, em Ebeltoft, na Dinamarca, e a partir de 1997 aperfeiçoou seu conhecimento na National Film and Television School, do Reino Unido, onde foi aluno de Stephen Frears e Mike Leigh.

“De certo modo”, Trier declarou, “eu entendo que lidamos com o zeitgeist com Thelma, no sentido de que outras pessoas estão explorando o sobrenatural e talvez enfrentando também a enorme enxurrada de histórias de super-heróis de Hollywood que não fazem perguntas humanas de modo algum. Nós tentamos fazer algo que tenha um pouco mais de substância, com maior intimidade e mais naturalismo, mas ainda assim com 200 planos feitos com CGI [sigla de computer-generated imagery ou imagens geradas por computador].” (entrevista completa disponível aqui).

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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