depoimento

“Tirem o garimpo das nossas terras”

Líder indígena relata a batalha contra a mineração ilegal e a Covid-19 no território yanomami

Dário Kopenawa
29dez2020_08h32
Dário Vitório Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanoamami (HAY) –
Dário Vitório Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanoamami (HAY) – Foto: Victor Moriyama / ISA

Filho mais velho do líder indígena Davi Kopenawa, Dário Kopenawa tomou a frente no combate ao garimpo ilegal e à Covid-19 na Terra Indígena Yanomami. Como vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, ele encabeçou, junto com outras lideranças, uma campanha para chamar a atenção para a ameaça à vida dos indígenas no território localizado no extremo Norte da Amazônia. Coletou mais de 439 mil assinaturas de pessoas do Brasil e do exterior, exigindo a retirada de 20 mil garimpeiros ilegais na região. Além de provocar a degradação de rios e florestas, os mineradores são os principais vetores de transmissão do novo coronavírus. Um total de 1.202 yanomamis foram contaminados pelo vírus e 23 morreram de Covid, segundo um relatório produzido pelo Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana.

O abaixo-assinado da campanha #ForaGarimpoForaCovid foi entregue ao Congresso Nacional no dia 3 de dezembro. Na fachada do Parlamento, uma intervenção artística projetou imagens dos xapiri, os espíritos da floresta nos quais os yanomami acreditam. No relato a seguir, Dário relata sua ascensão como liderança indígena, a luta contra o garimpo ilegal e a expectativa em relação ao governo do presidente Jair Bolsonaro. 

(Em depoimento a Lia Hama)

 

Meu pai, Davi Kopenawa, luta há décadas pelos direitos do povo yanomami. Graças à campanha liderada por ele, em 1992, foi homologada a Terra Indígena Yanomami, um território de 96.650 km² no extremo Norte da Amazônia, ao longo da fronteira com a Venezuela. A partir da homologação, o governo fez uma operação de retirada dos garimpeiros, e o problema arrefeceu. Meu pai ganhou vários prêmios e foi reconhecido internacionalmente por causa disso. Com o passar do tempo, minha mãe, Fátima, pressionou: “Agora você vai passar a bola dessa luta para nosso filho. Vai voltar para a aldeia e cuidar de mim, porque passou a vida toda viajando.”

Meu pai me deu muitos conselhos. Aprendi a língua de vocês, estudei na universidade e morei em São Paulo, onde conheci as problemáticas da sociedade não indígena. Tive a curiosidade de conhecer a cultura de vocês. Em 2004, criamos a Hutukara Associação Yanomami em Boa Vista, capital de Roraima. Há 16 anos trabalho na associação e me tornei porta-voz dos povos Yanomami e Ye’kwana que habitam a Terra Indígena Yanomami. Hoje, quando tem uma reunião mais importante, meu pai participa. Quando é menos importante, eu represento. Moro doze meses em Boa Vista, depois passo três meses e meio na nossa comunidade do Watoriki, no Amazonas.

Em março, quando a fumaça da xawara (epidemia) chegou com força no Brasil, avisei as lideranças: “Olha, xamãs, pajés, estou acompanhando os jornais e eles estão dizendo que a doença está chegando. Ela vai entrar no nosso território, temos que nos preparar.” No dia 9 de abril ocorreu a primeira morte de um yanomami por causa do novo coronavírus. O caso teve repercussão internacional. A Covid-19 foi avançando em nosso território. O principal vetor de transmissão são os garimpeiros, que levam a doença para as aldeias.

As terras yanomami estão localizadas em dois estados: Roraima e Amazonas. Hoje existem 20 mil garimpeiros ilegais espalhados pelo nosso território. Com a alta do preço do ouro no mercado internacional, a prática do garimpo já havia se intensificado. Mas a situação piorou com o governo de Jair Bolsonaro. Ele defende a legalização do garimpo em terras indígenas, estimulando a ação dos invasores. Os garimpeiros andam nos arredores de nossas aldeias, sobem os rios de barco, pousam de helicóptero e de avião em pistas no meio da floresta. Nossos parentes pegam essa xawara deles e a transmitem nas aldeias.

Somos uma população de 28.990 yanomamis. Além da Covid, enfrentamos também o problema da malária. O Distrito Sanitário Especial Indígena – Yanomami é o responsável pelo atendimento médico no território. São 37 polos base, onde funcionam 78 Unidades Básicas de Saúde Indígena. Os profissionais permanecem cerca de trinta dias trabalhando nos postos de saúde e depois ficam quinze dias na cidade para descansar. Mas o número deles é muito reduzido.

Em abril, reunimos o Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana e decidimos fazer uma campanha para combater os dois problemas: o garimpo ilegal e a pandemia da Covid-19. O objetivo é chamar a atenção das autoridades e da sociedade, pedir socorro. É divulgar as informações e cutucar o governo brasileiro, que não está cumprindo seu papel de respeitar e proteger os povos originários. 

Por meio da nossa representante indígena no Congresso, a deputada federal Joenia Wapichana (Rede-RR), pedimos audiência com o vice-presidente da República, Hamilton Mourão. No dia 3 de julho, fomos recebidos por ele no Palácio do Planalto. Levei a petição para a retirada do garimpo e o dossiê com o histórico da atividade ilegal. Mourão respondeu: “Ah, Dário, o território yanomami é muito grande, o governo federal não tem recursos para pagar funcionários, não tem aviões, a logística é difícil. Eu trabalhei em São Gabriel da Cachoeira, conheço a região.” Depois, em sua conta no Twitter, ele disse que o número de garimpeiros nas terras yanomami é de 3.500 e não 20 mil, como estimado por organizações indígenas. Ele havia falado que tinha uma reunião com o presidente Bolsonaro e faria um plano para a retirada do garimpo. Até agora, nada aconteceu. Para mim, Bolsonaro está doente, desrespeitando os povos indígenas e as terras demarcadas por lei. A política dele é de acabar com nossos direitos garantidos pela Constituição.   

A campanha #ForaGarimpoForaCovid reuniu mais de 439 mil assinaturas de pessoas de todo o Brasil e do exterior. No dia 3 de dezembro, eu e o Maurício Ye’kwana, diretor da Hutukara Associação Yanomami, entregamos a petição nos gabinetes do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para que tomem providências para a retirada dos garimpeiros. Também participamos de uma reunião virtual com as frentes parlamentares ambientalista e de defesa dos direitos indígenas.

Intervenção artística com desenhos dos xapiri, os espíritos da floresta do povo Yanomami, no Congresso Nacional, em Brasília, em 3 dezembro – Foto: Adriano Machado / ISA

 

No encerramento da campanha, fizemos uma intervenção artística na fachada do Congresso com desenhos dos xapiri – os espíritos da floresta dos Yanomami. Foi uma estratégia para chamar a atenção de vocês, brancos. Nosso colega artista Joseca Yanomami desenhou os espíritos das araras, das onças, das sucuris, dos macacos, para vocês imaginarem como nossos xapiri funcionam. Esses espíritos acompanharam a entrega do nosso relatório e da nossa petição.

Dizem que agora está chegando a vacina e que seremos imunizados antes de outros grupos porque somos mais vulneráveis. Vocês têm a obrigação de fortalecer os nossos corpos porque essa doença é da cidade, não é nossa. E o governo federal tem que cumprir o papel de proteger a nós, os povos originários, retirando os garimpeiros que invadiram a nossa terra demarcada. Essa é a nossa luta.

Dário Kopenawa

Tem 37 anos, é vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, que representa a maioria dos Yanomami no Brasil.

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