questões da criminalidade

Trégua negociada atrás das grades

Documento do sistema penitenciário mostra como chefes do tráfico presos em Rondônia disputam à distância o controle da Rocinha

Allan de Abreu
14nov2019_08h06
Nem e Rogério, presos em Rondônia –
Nem e Rogério, presos em Rondônia – ILUSTRAÇÃO DE PAULA CARDOSO

Antigos aliados e hoje inimigos na disputa pelo controle do tráfico na favela da Rocinha, Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, e Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, estão separados por poucas paredes e grades de ferro na Penitenciária Federal de Porto Velho, Rondônia. Nos seis metros quadrados de suas celas individuais, em alas diferentes do presídio às margens da rodovia BR-364, os dois articulam uma guerra silenciosa pela maior favela do Rio de Janeiro, berço de ambos. Um conflito que espelha a atual disputa entre o CV (Comando Vermelho), ao qual Rogério pertence, e o PCC (Primeiro Comando da Capital), da qual Nem, integrante do TCP (Terceiro Comando Puro), se aproximou nos últimos anos.

O governo federal tem acompanhado a dupla de perto. Um relatório sigiloso do Depen (Departamento Penitenciário Nacional) de outubro deste ano mostra que, de dentro do presídio, Rogério 157 planeja ações, dá ordens, negocia com rivais e se mantém informado sobre o negócio. Em setembro, com autorização judicial, o Depen gravou a conversa por interfone de Rogério 157 com o sobrinho dele, Isaías Porfírio da Silva, que viajara 3,4 mil quilômetros desde o Rio para se encontrar com o tio no presídio. Trechos do diálogo constam do relatório que a piauí teve acesso. De acordo com o documento, Rogério mandara confeccionar um lote de bonés com a frase “um por todos e todos pelo R”, para ser distribuído entre os moradores da Rocinha, e também cartazes com uma foto sua para ser afixada nas ruas da comunidade. Ele ainda ordenara a distribuição de cordões de ouro a seus aliados mais próximos na comunidade.

“Deixa sete [cordões] com a Soraia”, pede Rogério ao sobrinho. “Faz um pro HB e um pro menino que tava comigo um dia antes de eu ser preso. Por quanto saiu o do Magreza?”, pergunta.

“Seis minutos”, responde Silva – não fica claro no relatório o significado da expressão.

“É pra fazer um a cada quinze dias.”

O documento mostra ainda que os dois conversam sobre uma recente demonstração de força dos aliados de Rogério 157, com homens exibindo um arsenal em frente a um bar na Rocinha. Silva alerta o tio que, dias antes, membros do CV viram um grupo armado escondido na mata do Horto, vizinha à comunidade – possivelmente aliados de Nem.

Segundo moradores, Rogério 157 é quem dá as cartas em toda a favela atualmente – os aliados de Nem são em menor número e estão espalhados. Pichações com o nome de Nem têm sido apagadas e substituídas pelo número 157 – o artigo do Código Penal que tipifica o crime de roubo fez a marca de Rogério na Rocinha. Seu atual representante na comunidade, de acordo com o relatório do Depen, é John Wallace da Silva Viana, o Johny Bravo, que “só fica trancado dentro de casa e não sai para a rua”. No fim de agosto, surgiram nas redes sociais fotos de Johny Bravo com outros quatro traficantes, todos armados. 

Com cerca de 100 mil habitantes, a Rocinha está dividida em 16 sub-bairros. Apesar da precariedade dos imóveis e da falta de saneamento, abriga agências bancárias e muitos estabelecimentos comerciais, especialmente na Via Ápia, na parte mais baixa, onde as vias mais largas permitem a passagem de automóveis. Embora atualmente controlem toda a favela, os traficantes ligados a Rogério 157 concentram-se no Valão, na parte baixa, e em três regiões da parte alta da comunidade: Rua 1, Rua 2 e Cidade Nova. Nesses locais, é comum moradores se depararem com crianças e adolescentes portando fuzis, algo que Nem proibia no seu “reinado”. Com Rogério 157, segundo os moradores, os traficantes tornaram-se mais agressivos. “Antes eles nos cumprimentavam, pediam licença; agora, nós é que temos que pedir licença a eles quando precisamos ir à parte alta da Rocinha”, disse um deles, sob a condição do anonimato.

O objetivo de Rogério 157 e do Comando Vermelho é eliminar todos os aliados do rival que ainda residem na comunidade, incluindo os familiares de Nem. Segundo o relatório do Depen, coube ao advogado de Rogério, Marcos Freitas Ferreira, negociar com Nem os termos de uma possível saída pacífica da família do rival de seu cliente. À piauí, Ferreira confirmou ter se encontrado com Nem no presídio de Porto Velho no início de outubro, mas negou ter tratado de uma possível expulsão da família do traficante. “Fui discutir detalhes de um processo [judicial] da ex-mulher dele”, afirmou.

O clima na Rocinha tem estado tenso. Frequentemente, aliados de Rogério exibem armas pesadas durante bailes funk na localidade do Badalo, na Cidade Nova, parte alta da favela. Na semana passada, rojões estouraram na parte alta do morro – sinal de invasão policial, que não houve, ou de uma guerra iminente entre os dois grupos. “Parece que o caldeirão está prestes a explodir”, resume uma moradora.

Nem filiou-se à facção TCP (Terceiro Comando Puro), rival do CV, depois que seu antigo grupo, Amigo dos Amigos (ADA), foi praticamente extinto das comunidades do Rio. O traficante está detido em uma ala ocupada por integrantes do PCC, aliado ao TCP – a facção paulista, segundo o relatório, tem auxiliado financeiramente o braço direito de Nem, Claudecy de Oliveira, o Noquinha, que também atua na Rocinha e está detido com Nem em Porto Velho. A penitenciária tem quatro alas, com treze celas individuais cada uma.

Nem assumiu o controle do tráfico de drogas na Rocinha em 2007, depois das mortes de Luciano Barbosa da Silva, o Lulu, e de Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-te-vi, que comandavam a compra e venda de cocaína e maconha na Rocinha. Em pouco tempo, Nem tornou-se o narcotraficante mais conhecido e poderoso do Rio, tendo como braço direito Rogério 157. Em novembro de 2011, pouco antes de o Rio de Janeiro iniciar uma ocupação na favela para implantar uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), Nem foi flagrado pela polícia no porta-malas do carro do seu advogado, na Lagoa, tentando fugir da Rocinha.

Com a prisão de Nem, Rogério 157 passou a ser seu representante no tráfico de drogas na Rocinha. Mas em 2014 o outrora braço direito rompeu com o chefe e começou a extorquir moradores da comunidade. Nem, no entanto, só reagiria três anos depois, em agosto de 2017, quando, após uma discussão num baile funk, Rogério 157 ordenou o assassinato de três homens ligados a Nem e expulsou da Rocinha a então mulher do ex-aliado, Danúbia Rangel. No mês seguinte, Nem ordenou uma invasão à comunidade, desencadeando uma guerra que só cessaria em dezembro daquele ano, com a prisão de Rogério 157 – ele seria condenado, no total, a mais de sessenta anos por tráfico e corrupção ativa, enquanto o rival cumpre pena por tráfico, homicídio e ocultação de cadáver.

Desde fevereiro, não há mais contato físico entre os presos e as visitas no Sistema Penitenciário Federal – o diálogo é feito por interfone. Além disso, segundo a assessoria do Departamento Penitenciário Nacional, as visitas são monitoradas com autorização judicial “visando a interrupção de possíveis comunicações criminosas”. A assessoria do Depen não quis comentar as conversas de Rogério 157, alegando “questões de segurança”. O advogado dele, Marcos Freitas Ferreira, negou que seu cliente esteja tentando expulsar parentes de Nem da Rocinha. Inaugurada há dez anos, a Penitenciária Federal de Porto Velho possui capacidade para 208 detentos. O Depen não informou qual a lotação atual do presídio.

Allan de Abreu (siga @allandeabreu1 no Twitter)

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

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