questões cinematográficas

Três anúncios para um crime – cinismo e perversidade disfarçados

Sem ingredientes de blockbuster, filme indicado ao Oscar em sete categorias é uma das produções recentes mais bem-sucedidas de que se tem notícia

Eduardo Escorel
01mar2018_15h08
<I>Três Anúncios para um Crime</i> satisfaz a todos os gostos – inclusive o dos que defendem fazer justiça com as próprias mãos
Três Anúncios para um Crime satisfaz a todos os gostos – inclusive o dos que defendem fazer justiça com as próprias mãos FOTO: DIVULGAÇÃO

Ofato de o título em português de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri não fazer nenhum sentido terá prejudicado seu resultado comercial no Brasil? Ao completar o segundo fim de semana em cartaz, dados disponíveis até 25 de fevereiro indicam que o filme atraiu pouco mais de 200 mil espectadores. O resultado em si não é mau, embora risível comparado ao de Pantera Negra, visto no mesmo período por pouco mais de 3,6 milhões de espectadores, e deixa no ar a suspeita de que a bilheteria poderia ter sido melhor caso tivesse sido batizado com nome menos disparatado. De qualquer modo, mesmo que o título em português não tiver influenciado de forma negativa, continua sendo um atentado à inteligência do público.

Outra dúvida preliminar: fará sentido comentar um dos filmes mais bem-sucedidos da temporada? A quem essas observações poderão interessar? Ao diretor de Três Anúncios para um Crime, o britânico Martin McDonagh, certamente não. Mesmo se, por acaso, ele tomasse conhecimento deste post, o que não ocorrerá, McDonagh teria razões de sobra para desconsiderá-lo. Os coprodutores meio a meio, a empresa Film4, também britânica, e a americana Fox Searchlight, por sua vez, tampouco têm motivo para dar atenção ao que vai escrito aqui. Menos ainda o público mundo afora. Quanto aos espectadores brasileiros, parecem ter sido seduzidos de antemão pela ampla cobertura da mídia e os aplausos da crítica, inclusive de pé, que Três Anúncios para um Crime vem recebendo. Bem mais do que ressalvas que façamos, valem como atrativos os prêmios ganhos desde janeiro e o fato de concorrer ao Oscar, no próximo domingo, em sete categorias (inclusive melhor filme, melhor roteiro original, melhor atriz e melhor ator coadjuvante).

Há fatos que emudecem argumentos. Lançado nos Estados Unidos em novembro de 2017, e no Reino Unido em janeiro deste ano, Três Anúncios para um Crime já rendeu 121 milhões de dólares no mercado mundial. Confirmando-se que seu custo de produção foi de 12 milhões de dólares, resulta ser uma das produções recentes mais bem-sucedidas de que se tem notícia. Sem ter ingredientes de blockbuster, esse feito é, em si mesmo, notável.

Desde que ganhou cinco dos principais prêmios da Academia Britânica de Cinema (BAFTA), há menos de duas semanas, segundo o site GoldDerby as previsões indicam que Três Anúncios para um Crimeultrapassou, com tendência de alta, o até então franco favorito ao Oscar de melhor filme, posto que vinha sendo ocupado por A Forma da Água, agora em tendência de baixa. Caso essa inversão seja confirmada, o sucesso da carreira comercial da produção premiada receberá ainda expressivo reforço financeiro.



Haverá um preço a pagar por tal nível de consagração? Creio que sim, e não é pequeno. Compõem esse custo a necessidade de amenizar conflitos que o próprio filme tematiza e atender expectativas de amplo espectro do público – no caso, reconciliando Mildred Hays (Frances McDormand), a mãe coragem em busca de justiça, com Jason Dixon (Sam Rockwell), o policial psicopata, racista e brutal. Afinal, o espectador precisa ser confortado e se sentir bem quando o filme termina.

Típico feel good movie (filme que dá sensação de bem-estar), Três Anúncios para um Crime, além disso, é cínico ao deixar por conta da imaginação dos espectadores decidir qual será a conclusão da trama que o próprio filme omite.

Há pelo menos duas alternativas lógicas para esse final. Uma satisfaz pacifistas, a outra os justiceiros que há entre nós. Quem condena a violência, sai convencido que Mildred e Dixon desistem de matar um veterano da guerra do Iraque e acabam juntos, em um bar, tomando cerveja. Mas, também é plausível supor que Mildred e Dixon levem a cabo o objetivo inicial da viagem, matem o veterano a tiros de carabina e acabem, do mesmo modo, juntos em um bar, tomando cerveja.

Assim sendo, Três Anúncios para um Crime satisfaz a todos os gostos, inclusive o dos que defendem fazer justiça com as próprias mãos. Além de cínico, revela-se perverso, mesmo camuflado de boas intenções.

Entre ao menos uma peripécia do enredo destituída de motivação, outra mal narrada e duas implausíveis, essas últimas se destacam – em uma sequência crucial, Mildred, a mãe coragem, revela habilidades insuspeitadas. Ela faz excelentes coquetéis molotov e é exímia arremessadora.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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