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Tudo é “bodarrada”

Filme sobre a vida de Luiz Gama destaca sua atuação como abolicionista, mas falha ao deixar de lado suas demais facetas – entre elas, o poeta satírico

Eduardo Escorel
15set2021_09h09

[…] Se negro sou ou sou bode,
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é mui vasta…
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus e outros nobres,
Bodes ricos e bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes…

Os versos acima são do poema Quem Sou Eu?, conhecido como “Bodarrada” ou “Bode”, incluído em Primeiras trovas burlescas (1859), de Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882) – abolicionista, republicano, jornalista, orador, advogado autodidata e também poeta satírico.

Quem tiver lido Quem Sou Eu? ficará surpreso, e um tanto decepcionado, ao assistir a Doutor Gama, filme dirigido por Jeferson De a partir do roteiro de Luiz Antônio, que estreou em 5 de agosto no circuito de salas de cinema e está disponível na plataforma de streaming Globoplay.

Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra.
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, Senadores,
Gentis homens, vereadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes,
Em todos há meus parentes.

Surpresa e decepção, quando houver, terá sido causada pelo personagem principal do filme – Doutor Gama (interpretado por César Mello) –, adstrito quando adulto à sua missão como rábula em defesa de um escravo. As demais facetas de Luiz Gama, em especial seus versos sarcásticos, foram deixadas de lado, salvo a atuação para libertar escravos após a proibição do tráfico negreiro em 1850, informada no final do filme por meio de uma legenda.

Cena do filme Doutor Gama, de Jeferson De. Foto: Divulgação

 

Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, cabos, furriéis,
Brigadeiros, coronéis,
Destemidos marechais,
Rutilantes generais,
Capitães de mar e guerra,
– Tudo marra, tudo berra.

Episódios da vida de Gama na infância e na adolescência, ocorridos em Salvador e São Paulo nos anos de 1840 e 1847, são abordados no terço inicial do filme. Mas os 58 minutos seguintes de Doutor Gama são dedicados ao julgamento em que o personagem principal, embora a princípio relutante, acaba atuando como advogado de defesa de um escravo que matou um fazendeiro.

Em entrevista, o roteirista do filme mencionou o livro Com a Palavra, Luiz Gama (org. Ligia Fonseca Ferreira, 2011) como fonte essencial para conhecer o abolicionista. Não menciona, contudo, a carta que Gama escreveu ao advogado Lúcio de Mendonça, em 1880 (a entrevista completa está disponível neste link). Ao comentar essa carta em “Autobiografia de Luiz Gama” (artigo publicado em Novos Estudos CEBRAP, 1989 e incluído em Seja Como For, 2019), Roberto Schwarz escreveu que, nas trovas burlescas de Gama, “a sátira à sociedade imperial e sobretudo às suas presunções de brancura alcança uma franqueza possivelmente única na literatura brasileira”.

Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Siringa
Tinha pelo e má catinga;
O deus Midas, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.

Onde terá ido parar a “ironia atroz e reveladora” da carta de Gama a Lúcio de Mendonça, assinalada por Schwarz e explícita nos versos de Bodarrada? A decisão de omitir essa faceta do personagem torna Doutor Gama um libelo sério, contundente e necessário, sem dúvida, mas desperdiça a oportunidade excepcional de “pôr a nu”, sempre de acordo com Schwarz, “a lógica e as virtualidades de uma formação social, mostrando o que há de regra na exceção, de normal no exótico”.

Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas.
Pois, se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse, pois, a matinada,
Porque tudo é bodarrada!

Fotografia de Luiz Gama (1830-1882). Foto: Biblioteca Nacional

 

A alta qualidade da fatura artística e técnica de Doutor Gama (fotografia, direção de arte, elenco etc.) é prejudicada pela falta de sustentação adequada do roteiro e pelas intervenções feitas na montagem, assinada pelo diretor Jeferson De. A começar pela primeira, e apelativa, cena do filme. Doutor Gama aponta para a câmera e pergunta, olhando diretamente para a lente – ou seja, para o espectador: “Se você, você tivesse a oportunidade de ganhar muito, muito dinheiro, você teria coragem de matar a família inteira da pessoa que está sentada hoje, aqui, ao seu lado? Você teria coragem de violentar a esposa dele? Sejamos sinceros, senhores: de torturá-los, sufocá-los, até a morte? Vocês conseguiriam dormir tranquilos depois de ficarem ricos cometendo esses crimes? Por que é isso que vocês estão fazendo… todos os dias. É exatamente isso que vocês estão fazendo. Vocês estão cometendo esses crimes e dormindo como anjinhos.”

Doutor Gama comete, assim, logo de saída, o equívoco de pretender assumir o papel de promotor público, que não é seu, ao acusar os espectadores de estarem “cometendo esses crimes e dormindo como anjinhos” – o equívoco de julgar, em vez de se ater ao que é da alçada de um filme: a tentativa de compreender e tornar visíveis os males do mundo.

No programa #DomingoAoVivo, do canal 3 Em Cena, em 12 de setembro, do qual Jeferson De participou com os atores César Mello e Isabél Zuaa (que no filme interpreta Luiza Mahin, mãe de Gama), foram comentados alguns aspectos importantes para entender as intenções do diretor, do ator e da atriz. A gravação completa dessa conversa está disponível no YouTube.

A versão do roteiro de Luiz Antônio que o diretor recebeu para ler tinha 148 páginas, longo demais para fazer um filme que durasse menos de duas horas. Tanto o roteiro final quanto a filmagem contaram com consultoria de Ligia Fonseca Ferreira e pesquisa histórica de Joana Oliveira. De e Mello ratificam o propósito deliberado do filme se referir à atualidade e pôr o espectador em questão. Daí a primeira cena, comentada acima, ser dirigida diretamente a quem está assistindo ao filme. O mesmo motivo explica a frase que começa a ser dita em off – “vidas negras importam” –, por vozes do elenco, a princípio isoladas e sussurradas, enquanto os créditos finais em rotativo terminam de passar na tela. As vozes em off vão se superpondo, algumas sendo gritadas, até a legenda de encerramento surgir na tela em letras brancas grandes sobre fundo preto: “Vidas negras importam.”

Até 5 de setembro, após cinco semanas em cartaz, Doutor Gama havia sido visto por 4.691 pessoas, segundo dados do portal Filme B. A média de espectadores em cada uma das seis salas que exibiam o filme tinha sido de 51 pessoas.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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