questões brasileiras

Tudo em casa

O que o renascimento do Jornal do Brasil tem a ver com a morte da Oi

Consuelo Dieguez
14mar2017_19h00
FOTO: SILVIA ZAMBONI/FOLHAPRESS

O empresário Omar Resende Peres, conhecido pelo apodo de Catito, ganhou espaço na imprensa por recentes aquisições que ampliaram o espectro de seus negócios. Dono dos restaurantes La Fiorentina e Bar Lagoa, no Rio, ele também arrematou o combalido e folclórico Piantella, em Brasília, que reúne há décadas a nata da política nacional. Do ramo das panelas e fogões, Catito migrou para o do jornalismo. Ele está finalizando os termos do contrato de arrendamento da marca Jornal do Brasil, cujos direitos de uso pertencem, desde 2001, ao empresário baiano Nelson Tanure, dono da Companhia Docas de Santos, entre outros negócios. Em 2001, Tanure arrematou a marca da família Nascimento Brito, dona do jornal e da rádio JB, por um período de noventa anos. Catito disse acreditar que o negócio estará concluído dentro de três semanas. Seus planos para o Jornal do Brasil são ambiciosos. Na contramão da ordem mundial, ele quer ressuscitar a versão impressa do jornal, que deixou de circular em 2010. Desde então, o JB só existe na internet.

Durante uma conversa no Bar Lagoa, Catito me disse ter consciência de que os jornais em papel tendem a desaparecer e, por isso mesmo, ele não está criando uma nova marca. “O negócio só é viável porque se trata de uma marca tradicional, da qual os leitores cariocas ficaram órfãos em 2010. Jamais ousaria abrir um jornal impresso que não tivesse o peso do nome Jornal do Brasil”. Será lançado em papel com data para acabar. Ele estima que dentro de três anos o JB voltará a circular apenas na versão digital. Então por que investir nesse negócio? “Acredito que não há forma de dar credibilidade a um meio online sem que tenha a sustentação de um jornal impresso.” Assim que a transação com Tanure for concretizada, o impresso, de acordo com suas estimativas, pode começar a circular em noventa dias, o que ocorreria entre julho e agosto.

A viabilidade da empreitada, segundo ele, será garantida pelo baixo custo da operação. O jornal terá apenas duas seções físicas: a de política e a de cidade, para as quais serão contratados cinquenta jornalistas que vão produzir conteúdo exclusivo para o JB. As outras editorias – esportes, internacional e economia – serão abastecidas com notícias compradas de agências de notícias nacionais e internacionais. “Isso vai baratear muito o meu custo”, disse-me. Sua expectativa é de uma circulação diária de 10 mil exemplares, o que representaria um público de 50 mil leitores. Catito já definiu os nomes de alguns jornalistas que irão comandar a operação. Para dirigir a redação ele convidou Gilberto Menezes Cortes, importante jornalista econômico nos anos 70 que estava fora do jornalismo há pelo menos vinte anos.

Para a editoria de notícias locais, Joaquim Ferreira dos Santos (autor da biografia de Zózimo Barroso do Amaral, um dos mais importantes colunistas do JB em tempos áureos), e o repórter de polícia Marcelo Auler – os três com grande vivência na imprensa carioca.

Catito disse que a ousadia em ressuscitar o JB é resultado do seu interesse pela mídia. “Sempre gostei de imprensa”, falou. Sua expertise no negócio, segundo ele, vem da época em que comprou a afiliada da Rede Globo de Juiz de Fora, em 2003. Nove anos depois ele se desfez do negócio. A compra da afiliada ocorreu logo após ele ter vendido o estaleiro Mauá para o empresário Germán Efromovich, atualmente dono da empresa de aviação colombiana Avianca. Efromovich, antes de entrar para o ramo de aviação e estaleiros, tinha uma pequena empresa de prestação de serviços para a Petrobras. Chegou a ser investigado pela Justiça em 1998, por ter sido beneficiado com contratos bilionários para a construção de plataformas para a petroleira, quando o presidente da empresa era Joel Rennó. O estaleiro Mauá, que recebeu vultosos recursos do BNDES no governo Dilma Rousseff, quebrou no ano retrasado deixando milhares de trabalhadores desempregados. Assim como Efromovich e Catito, Tanure, o atual arrendatário da marca JB, também teve passagem pelo setor naval. Na década de 80 ele arrendou estaleiros – todos afundaram e os empregados ficaram a ver navios.

Para Tanure, repassar a marca Jornal do Brasil para terceiros é uma urgência. Há um ano, ele travava uma acirrada disputa com os controladores da companhia telefônica Oi para ter direito a um assento no conselho da empresa. Quando as ações da telefônica – atualmente em processo de recuperação judicial, com uma dívida de 65 bilhões – desabaram, Tanure foi às compras e se tornou dono de quase 7% das ações da companhia. O problema é que a Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel, xerife do mercado, impede que donos de empresas de comunicação tenham participação em empresas de telefonia. No final do ano passado, a Anatel finalmente autorizou a entrada de Tanure na Oi. Mas, para continuar no controle, ele terá, obrigatoriamente, que abdicar do Jornal do Brasil. Não se sabe, porém, como está sendo feito o acordo de repasse da licença. Catito não adiantou os valores envolvidos na transação de subarrendamento da marca jornalística, alegando tratar-se de segredo comercial. “Sabe como é, ninguém gosta de falar em valores.”

Embora Catito assegure que o negócio está praticamente concluído, no site do JB nada se fala sobre a troca de comando. Pedro Grossi Junior, o atual gestor do JB e amigo pessoal de Tanure, me disse que até agora o empresário baiano não lhe fez qualquer comunicação de que estaria repassando a licença da marca para outrem. Pedro Grossi está no comando da empresa desde que Tanure arrendou o jornal dos Nascimento Brito. “Ninguém me deu instruções até agora”, disse. E completou: “Não recebo instruções de Catito.” Disse que está no JB porque gosta de jornal e por ser amigo pessoal de Tanure. “Mesmo porque, jornal não dá dinheiro”. Perguntei se ele continuaria no JB caso Catito assuma o negócio. Respondeu que não. Mas insistiu que se houvesse realmente alguma troca de comando, ele já teria sido avisado por Tanure. Grossi tem hoje negócios no ramo da hotelaria. No passado, foi vice-presidente da antiga companhia telefônica do estado do Rio, a Telerj, privatizada em 1998 junto com as outras empresas do sistema Telebras, no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso.

A marca Jornal do Brasil, embora totalmente desgastada nos últimos anos, é a única coisa de valor que restou do diário. Por isso, não está sendo cobiçada apenas por Catito. Correm na Justiça do Rio de Janeiro cinquenta ações de penhora da marca. A maioria movida por ex-funcionários do JB que, ao ser vendido para Tanure, foi dividido em dois. Uma parte podre, onde ficaram todas as dívidas, inclusive as trabalhistas, e a marca, livre de qualquer ônus. As ações visam recuperar a marca para negociá-la e conseguir, dessa forma, algum ganho para os funcionários lesados.

Enquanto a transação entre Catito e Tanure não é formalmente anunciada, o site do jornal continua funcionando sob as ordens do atual arrendatário. No dia 13 de março, uma das principais chamadas do site era uma entrevista com Tanure sobre os seus planos futuros para a Oi. Tanure é um dos interessados em ficar com a companhia, quando ela sair da recuperação judicial. Dono do fundo Societé Mondiale, ele disputa com outros congêneres do mercado o controle da companhia. Mas para isso precisa livrar-se do JB. E, pelo visto, vai conseguir.

Consuelo Dieguez (siga @consuelodieguez no Twitter)

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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