anais da política

TV ainda move curiosidade sobre candidatos nas redes

Programa de entrevistas há 32 anos no ar, Roda Viva foi responsável pelo pico de interesse de seis presidenciáveis no Google até agora

Marcella Ramos
25jul2018_23h01
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Dolho no tempo de tevê, as disputas pelas alianças partidárias movimentam os presidenciáveis no final da pré-campanha. Mesmo com as redes sociais assumindo papel de destaque nas eleições, a televisão ainda tem protagonismo no debate político brasileiro e consegue pautar a discussão nas redes. Não é preciso ir longe para perceber isso: desde o início do ano, o que mais gerou interesse a respeito dos candidatos – sem levar em consideração Lula e Jair Bolsonaro – no Twitter e em buscas no Google, foi um dos programas mais tradicionais da televisão brasileira: o Roda Viva, da TV Cultura, no ar desde 1986.

A participação do pré-candidato à Presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin no programa desta segunda-feira motivou o maior pico de referências por hora ao tucano no Twitter este ano: foram de aproximadamente 8,4 mil menções por volta das 23 horas – média de pouco mais de 140 tuítes por minuto, segundo levantamento realizado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP). Na sexta-feira anterior, Alckmin tinha fechado aliança com partidos do Centrão (PR, PP, SD, DEM e PRB), o que assegurará ao tucano o maior tempo por dia de propaganda eleitoral televisiva dentre os candidatos: 4 minutos e 46 segundos. Segundo a análise da DAPP, no dia do anúncio da aliança, foram cerca de 41 mil citações ao ex-governador de São Paulo, superior ao dia da entrevista, que gerou ao todo 37,8 mil referências. Numa busca no Google, no entanto, o Roda Viva provocou o maior interesse pela figura de Alckmin no ano.

A entrevista do pré-candidato do PSOL, Guilherme Boulos, foi ao ar na mesma semana em que o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa utilizou o Twitter para anunciar que não disputaria a Presidência. A decisão gerou ampla discussão, mas não mais que a entrevista do psolista. Na semana do dia 7 de maio, ele foi citado 119,7 mil vezes no Twitter. Normalmente abaixo de Barbosa em termos de interesse no Google, Boulos registrou 13 pontos acima do ex-ministro no dia. Foi o maior desempenho do psolista nas buscas durante todo o período de pré-campanha.

 

 

Um dos mais polêmicos deste ano, responsável por levantar discussões sobre o machismo no debate político, foi o Roda Viva da pré-candidata pelo PCdoB, Manuela D’Ávila. Do dia do programa, 25 de junho, até quarta-feira, 27, ela foi citada 200 mil vezes no Twitter, registrando uma marca normalmente reservada a Lula e Bolsonaro. No Google, o dia da entrevista também foi de pico nas menções à pré-candidata. Na busca do YouTube, o programa que entrevistou D’Ávila foi o que gerou maior interesse, superando até mesmo o episódio que entrevistou o juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, campeão do ano em buscas no Google. A entrevista também impulsionou as menções a Bolsonaro. No dia seguinte ao da entrevista, o candidato do PSL, que tem média diária de 35 mil citações em tuítes, atingiu 57,8 mil menções, dada a participação de um de seus coordenadores de campanha no programa. No Google Trends, Bolsonaro é a quinta pesquisa relacionada feita com mais frequência em combinação com ela.

Pré-candidato pelo PDT, Ciro Gomes gerou mais interesse por outro episódio: o “pescotapa” que deu no youtuber Arthur do Val, conhecido como “Mamaefalei”, no dia 9 de abril, foi o assunto que mais gerou buscas pelo nome do pedetista no Google e no YouTube no primeiro semestre do ano. Em segundo lugar, a entrevista do candidato ao Roda Viva, no dia 28 de maio, em plena paralisação dos caminhoneiros, foi a mais procurada no Google de todas as entrevistas de candidatos ao programa. No Twitter, foi mencionado 38,5  mil vezes na segunda-feira, dia da entrevista, e 54,8 mil no dia seguinte. Em terceiro lugar em quesito de interesse a respeito de Ciro, está o episódio em que o candidato xingou a promotora que pediu investigação contra ele, um mês depois de ele ter chamado o vereador de São Paulo Fernando Holiday de “capitão do mato”, no dia 18 julho.

Pré-candidato do Novo, João Amoêdo teve pico de importância também na semana de sua entrevista no Roda Viva no dia 21 de maio, assim como Álvaro Dias, pré-candidato do Podemos, no dia 4 de junho. O ex-presidente do Sebrae, Guilherme Afif Domingos, pré-candidato pelo PSD teve o maior índice de buscas por seu nome no Google dos últimos cinco anos no dia de sua entrevista ao programa, em 9 de julho.

Apenas dois pré-candidatos não se aproveitaram do pico de interesse nas redes por conta da entrevista ao programa da TV Cultura: Marina Silva (Rede), que gera mais interesse quando são divulgados resultados de pesquisa de intenção de votos, e o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (MDB).

Os picos causados pela exposição gratuita em programas como o Roda Viva devem se tornar uma estratégia comum para a disputa de outubro. Com caixas de campanha bem mais vazias do que a de eleições anteriores, eventos que causem a visibilidade nas redes sociais podem se tornar uma arma eleitoral cada vez mais importante.

Marcella Ramos (siga @marcellamrrr no Twitter)

Repórter e coordenadora de checagem da piauí

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