anais da crise

Um Rio de portas fechadas

Sem conseguir sair da crise, estado é o que mais fecha lojas em todo o país

Tiago Coelho
30abr2019_17h49
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE WESLEY SANTOS/FOLHAPRESS

Ao longo de setenta anos de vida, o hotel Novo Mundo, na orla da praia do Flamengo, viveu dias de glória e outros nem tanto. Símbolo de luxo e elegância da antiga capital, recebia em seus leitos presidenciáveis, artistas e atletas da Seleção Brasileira. Vizinho do Palácio do Catete, residência presidencial, viu seu status decair de cinco para quatro estrelas quando a capital federal foi transferida para Brasília. Sobreviveu à transferência dos melhores hotéis da cidade para Copacabana, Ipanema e Leblon. Superou a hiperinflação dos anos 80, o confisco da poupança nos anos Collor e a estagnação econômica do final dos anos 90. Mas sucumbiu à crise atual, que afeta o setor de comércio e serviços. Entre as unidades da federação, o estado é o que mais fecha lojas comerciais; a situação se repete no município.

O prédio de doze andares e 230 quartos encerrou as atividades no último 25 de março com dívidas acumuladas e baixo movimento. O Novo Mundo foi o 13º hotel fechado na cidade desde o fim das Olimpíadas, em 2016. Os grandes eventos sediados no Rio, e que atraíram investimentos públicos e privados, atrasaram a entrada da capital carioca na crise econômica que assolou o país em 2014. Mas depois dos Jogos Olímpicos, tanto a cidade quanto o estado mergulharam numa crise da qual não conseguem sair.

Segundo dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), enquanto o setor apresentou reação no país em 2018, com mais aberturas do que fechamentos de estabelecimentos comerciais em quinze dos 27 estados brasileiros, o Rio teve o pior resultado da federação, enquanto São Paulo obteve o melhor resultado no ranking de abertura líquida de lojas com vínculos empregatícios. No saldo anual, entre o número de lojas abertas e fechadas, São Paulo aparece na primeira posição, com saldo de 3 883 lojas abertas – seguido por Santa Catarina (1 706) e Minas Gerais (940). Já o estado do Rio aparece na última posição, com saldo negativo de 997 lojas fechadas, atrás de Amapá (-142) e Pará (-374).

A tendência não se verifica só na comparação com os estados. Dados da CNC sobre os municípios de São Paulo e Rio mostram que, entre janeiro e julho de 2018, a cidade de São Paulo fechou o período com 899 lojas abertas, enquanto a capital carioca teve 419 lojas fechadas.

Para Fabio Bentes, economista da CNC, a diferença entre a reação dos dois estados à crise está no nível de dependência de cada um deles do setor público, e na contribuição da indústria para o dinamismo da economia.

“São Paulo é menos dependente do setor público que o Rio. O emprego não está tão atrelado ao estado quanto o Rio, um estado em crise, diga-se. Por isso, é natural que São Paulo tenha capacidade de recuperação maior. O segundo ponto é que a economia do estado e da capital de São Paulo conseguem nesse momento tirar proveito de uma demanda maior do mercado externo do que do interno. Durante a recessão, uma saída para indústria foi voltar a atenção para as exportações. Isso ajudou a aquecer a economia, contribuiu para a criação de postos de trabalho e com isso dinamizou o comércio. Já a cidade do Rio de Janeiro é mais dependente do setor de serviços, justo aquele que encontra maior dificuldade em superar a crise e que depende mais do mercado interno que está estagnado”, disse Bentes.

Curiosamente, diz o economista da CNC, a situação é pior na capital: “Se falássemos do fechamento de lojas no estado do Rio, teríamos um quadro um pouco menos dramático do que na capital. No estado você consegue ver indústria de exportação de veículos que não tem na capital, o setor de petróleo que está fora da capital.”

Rodolpho Tobler, economista da Fundação Getulio Vargas e coordenador da Sondagem do Comércio do FGV IBRE, diz que a economia do Rio está num círculo vicioso: “Temos um estado inchado, que não consegue equilibrar suas contas, gasta mais do que arrecada, com uma inflada folha de pagamento do funcionalismo público. Enquanto o estado não conseguir mostrar capacidade para reduzir gastos e equilibrar as contas, não fica atrativo para novos investimentos de empresas. E a crise fiscal também dificulta o pagamento de salários de trabalhadores do setor público, o que ajuda a afetar o poder de compra da população, impactando o comércio. Enquanto o mercado de trabalho estiver lento e a confiança do consumidor for baixa, tudo influencia para que o comércio siga mais devagar do que outros setores”, disse Tobler. “Já São Paulo tem as contas públicas mais equilibradas nesse momento.”

No setor de comércio, em 2018, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a cidade de São Paulo criou 5 928 postos de trabalho, enquanto a cidade do Rio criou 1 108. No setor de serviços, a diferença é ainda maior. O Rio abriu 2 558 postos de trabalho, e São Paulo, 50 033 postos. No setor de hotelaria e alimentação, o Rio fechou o ano com 96 desempregados. São Paulo, por outro lado, fechou 2018 com a oferta de 7 690 vagas.

Em 2014, segundo a Associação de Hotéis do Rio de Janeiro (Abih-RJ), a taxa de ocupação hoteleira na cidade do Rio chegou a 72%. Nos anos seguintes, os números caíram para 66% em 2015. Em 2016, 58%. Em 2017, 52%. E em 2018, 53%.

A partir de dados do Banco Central, o pesquisador Marcel Balassiano, da FGV, analisou a atividade econômica em treze estados brasileiros. Verificou que o Rio de Janeiro foi o único estado que apresentou recuo na Taxa Real Anual de Crescimento, caindo 0,9%. Em seu estudo, assinalou: “A recessão econômica levou a uma considerável redução da arrecadação do ICMS, principal fonte de receita do Estado; queda do preço do petróleo, já que royalties e participação especial do petróleo e gás natural são a segunda fonte mais importante de receita; forte crescimento das despesas com pessoal e encargos sociais; questão previdenciária, com um déficit próximo de 9 bilhões de reais.”

“A reforma da Previdência se mostra importante, inclusive, para o saneamento das contas dos estados e municípios. E para o Rio, em especial, a previdência é até mais importante. Com essa dependência do setor público, o Rio chegou a ficar com grave problema de pagamentos de salários de categorias como policiais e professores. E isso afeta o desempenho da economia como um todo, e do comércio principalmente”, afirma Balassiano.

Rodolpho Tobler disse ainda que a crise política com ex-governadores e parlamentares presos por corrupção é um agravante para o atoleiro em que o Rio se encontra. “O atual quadro político contribui para um ambiente de incertezas para investimentos financeiros no Rio. E a gente precisa superar esse quadro de incertezas para atrair investimentos, aquecer o mercado de trabalho e fazer o comércio do Rio voltar a reagir.”

Tiago Coelho (siga @tiagocoelh no Twitter)

Repórter da piauí e roteirista

Leia também

Últimas Mais Lidas

Um bicheiro no centro do poder

A rede de assassinatos, amizades e dinheiro que cerca Jamil Name no Mato Grosso do Sul

Seis conclusões sobre o modelo do mundo sem a Amazônia 

O preço que o Brasil e o mundo pagarão caso a floresta continue a ser derrubada para dar lugar à pecuária

O mundo sem a Amazônia

Modelo climático prevê efeitos da conversão da floresta em pasto: diminuição de 25% das chuvas no Brasil e aumento da temperatura, com prejuízo "catastrófico" para agricultura e produção de energia

Foro de Teresina #73: Autofagia no governo, crise na oposição e o óleo nas praias do Nordeste

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Domingo – um dia especial

Filme paga preço alto ao ser lançado agora, quando expectativa de “nova era” se mostrou ilusória

O novo Posto Ipiranga

Ex-capitão do Exército transformado em ministro da Infraestrutura cresce no Twitter e na agenda positiva do governo Bolsonaro 

Brasil mais longe da Europa

“Efeito Bolsonaro” afasta turistas europeus e prejudica negócios

Maria Vai Com as Outras #5: Crime e castigo contra a mulher

Uma socióloga e uma defensora pública falam dos efeitos que a violência tem na vida profissional das mulheres

Mitificação de Eduardo, demonização da esquerda

Em evento bolsonarista, filho do presidente e ministros apresentam rivais como mal radical, em sintoma da deterioração democrática no país

Mais textos
1

Brasil mais longe da Europa

“Efeito Bolsonaro” afasta turistas europeus e prejudica negócios

2

Fala grossa e salto fino

As façanhas de Joice Hasselmann, do rádio ao Congresso

3

Mitificação de Eduardo, demonização da esquerda

Em evento bolsonarista, filho do presidente e ministros apresentam rivais como mal radical, em sintoma da deterioração democrática no país

5

O novo Posto Ipiranga

Ex-capitão do Exército transformado em ministro da Infraestrutura cresce no Twitter e na agenda positiva do governo Bolsonaro 

6

O mundo sem a Amazônia

Modelo climático prevê efeitos da conversão da floresta em pasto: diminuição de 25% das chuvas no Brasil e aumento da temperatura, com prejuízo "catastrófico" para agricultura e produção de energia

8

Moro em queda livre

Ministro e seu pacote anticrime perdem espaço no governo, no TCU e no Twitter

9

Um bicheiro no centro do poder

A rede de assassinatos, amizades e dinheiro que cerca Jamil Name no Mato Grosso do Sul

10

Letra preta

Os negros na imprensa brasileira