questões americanas

Uma bolsonarista contra Trump

Uma visita à brasileira que os Estados Unidos tentam deportar após ela ter arrancado boné de um trumpista

Letícia Duarte
07mar2019_22h26
Rosiane Vieira Santos mostra a tornozeleira eletrônica colocada pela polícia de imigração para vigiá-la
Rosiane Vieira Santos mostra a tornozeleira eletrônica colocada pela polícia de imigração para vigiá-la /FOTO: LETÍCIA DUARTE

Quando a campainha tocou naquela manhã de domingo na casa de Rosiane Vieira Santos, de 41 anos, no estado americano de Massachusetts, ela ergueu as sobrancelhas bem delineadas e pediu para a mãe: “Se for repórter diz que eu não posso falar, não deixa entrar!” Era o marido da brasileira, o americano Emmanuel Desir, de 39 anos, que havia esquecido a chave e ficara trancado do lado de fora. “Tá todo mundo com a cabeça fora do lugar por esses dias”, comentou Rosiane, e prosseguiu a entrevista com a piauí na sala de casa.

Assustada com a repercussão do caso que a tornou protagonista involuntária de todos os canais de notícia da região, a imigrante nascida em Mantena (MG), foi orientada pelo seu advogado a evitar a imprensa local, que bate todos os dias à sua porta, deixando bilhetes com pedidos de entrevista. Todos querem saber qual será o destino da brasileira que acabou presa após arrancar da cabeça de um jovem americano um boné com o slogan da campanha de Donald Trump, Make America Great Again. Na esteira da polêmica, foi acusada de viver ilegalmente nos Estados Unidos por 25 anos e, agora, corre o risco de ser deportada.

“Não consigo entender como é que uma coisa tão ridícula deu tudo isso. Estão falando muita mentira. Tudo é política”, disse, numa conversa em que também revelaria seu peculiar alinhamento ideológico. Apesar de ter se transformado em um símbolo anti-Trump nos Estados Unidos, no Brasil ela é fã de Bolsonaro, a quem diz admirar especialmente “pelo combate à violência”.

Era 3 de março, no meio do feriadão de Carnaval no Brasil, mas na cidade litorânea de Falmouth era apenas mais um dia cinza do inverno, com neve cobrindo o jardim sem grades diante da casa ampla de dois pisos onde mora. Enquanto ela falava, o cachorrinho Versace, seu Shih-tzu de estimação, rondava a tornozeleira eletrônica colocada em sua perna direita pela polícia de imigração para vigiá-la. “Ele não gosta, mas faz parte do show”, ironizou, tentando manter o humor.

Tudo começou na noite de 15 de fevereiro, com o que parecia uma discussão política trivial no restaurante mexicano Casa Vallarta, que empresta um colorido ao Centro de Falmouth com sua fachada vermelha e suas janelas amarelas. Horas antes, no mesmo dia, o presidente Donald Trump havia declarado estado de emergência nacional, em uma manobra para garantir a liberação de bilhões de dólares para construção do seu muro anti-imigrantes na fronteira com o México, depois de o Congresso ter negado o financiamento.

Rosiane até então nem sabia disso. Ela estava feliz (disse que tinha recebido uma notícia boa, algo que ainda não pode contar porque “está em processo”), e combinou de esperar o marido no restaurante para comemorarem. Estava tomando mojito e petiscando guacamole no balcão de azulejos multicoloridos do Casa Vallarta quando o americano Bryton Turner, de 23 anos, chegou e se sentou na outra ponta do bar, na companhia de dois amigos.

“Será que eu bebi tanto que estou vendo um boné do Trump aqui?”, ela lembra de ter perguntado para uma conhecida com quem estava conversando, ao reparar o slogan de Trump impresso em letras brancas no boné vermelho do rapaz, quando ele já comia.

Rosiane diz que foi a americana quem se virou para Turner e iniciou a conversa, perguntando sobre o boné. Ele respondeu que podia usar o que quisesse, onde quisesse. “Não, está errado. Você não deveria vir num restaurante mexicano com esse boné”, reagiu Rosiane.

Ela interpretou como provocação o fato de ele estar num ambiente latino com o slogan de Trump na testa, e passou a insistir para que tirasse o boné. Sua fúria aumentou depois que Turner respondeu celebrando o anúncio feito naquela manhã por Trump, de que o presidente iria erguer o muro e “mandar todos vocês embora”. Ela tinha tomado três mojitos, e admite que estava um pouco alterada quando levantou de seu lugar disposta a tirar aquele Make America Great Again da sua frente. Mas diz que, mais do que “bêbada, estava possessa”, por tudo o que aquele boné representa, por todos os olhares tortos que já recebeu por sua condição de imigrante nos Estados Unidos.

“Se eu pudesse voltar no tempo, não teria tocado naquele boné. Mas isso tudo diz muito do que a América está vivendo agora. É muito preconceito e racismo. Você pode ser um branco, amarelo, vermelho… sendo um imigrante, eles não gostam mesmo”, ela disse. “Eu sei o que estou passando esses anos todos. Ninguém sabe. Todo mundo tem um limite. Você já passou do limite?”, questionou, como quem procura empatia.


Nas imagens que gravou com seu celular, Turner registra Rosiane tirando o boné de sua cabeça e narra: “Estou apenas sentado aqui tentando comer uma comida boa… Você vê isso? Pessoas como essa, esse é o problema da América desses dias. As pessoas são simplesmente ignorantes. Eles querem apenas atacar pessoas que são educadas.”

Rosiane aparece sorrindo no vídeo, e um desavisado que assistisse à cena poderia pensar que tudo não passava de brincadeira. Mas, em tempos de polarização política, nada é trivial. Numa segunda gravação, Turner descreve em tom sarcástico: “Ela recém tentou agarrar meu boné de novo na frente de quatro policiais… pouco inteligente. Ela está sendo algemada agora. Tenha uma boa noite na cela, Rosie!”

O gerente do restaurante, Samuel Alegria, de 29 anos, foi quem telefonou para a polícia. Disse que se viu sem alternativa depois de insistir em vão para Rosiane se acalmar ou ir embora. “Ela não parava… E não é a primeira vez que discute com clientes”, ele disse.

No seu relatório de atendimento à ocorrência, ao qual a piauí teve acesso no Departamento de Polícia de Falmouth, o policial Newton Cardoso escreveu que Rosiane resistiu à prisão, exalava “um cheiro forte” de álcool e gritava que o apoiador de Trump era um “filho da mãe”. Mesmo na delegacia, ele anotou, ela seguia “gritando blasfêmias” e “me mostrando o dedo do meio”.

Rosiane pagou uma fiança de 40 dólares e foi liberada da prisão duas horas e meia depois, mas vai responder a processo judicial por desordem e tentativa de agressão. Dez dias depois, foi seguida quando saía de casa pela manhã e presa novamente, desta vez por oficiais da Agência de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), que disseram ter descoberto sua condição ilegal e aberto um processo para deportá-la. A versão divulgada pela mídia americana é que Rosiane teria entrado no país com visto de turista em 1994 e nunca retornado ao Brasil. Ela diz que não foi assim. Contou ter cruzado a pé pela fronteira mexicana, “andando, correndo e nadando”, em uma travessia de dois dias. Ao chegar aos Estados Unidos, encontrou-se com a família, que já residia em Massachusetts. Juntos, entraram com um processo para regularizar a permanência. Seus pais e dois irmãos mais novos conseguiram o Green Card, mas ela não. Diz que, primeiro, o correio atrasou a entrega das correspondências para sua audiência. Quando a nova data foi marcada, ela já tinha completado 21 anos e, por isso, não pôde permanecer no mesmo processo dos pais. Em 2010, depois de se tornar cidadã americana, sua mãe entrou com um segundo pedido de cidadania da filha, que ainda está em tramitação.

No ano passado, após o casamento americano, Rosiane ingressou com um terceiro processo. Ela também tem dois filhos adolescentes nascidos nos Estados Unidos, de 15 e 17 anos, frutos de seu primeiro casamento com um mexicano. “Se o ICE pudesse me deportar, tinham me deportado aquele dia. Mas não podem, porque tenho caso pendente. Eles disseram que só foram atrás de mim porque tinha muita gente ligando e cobrando sobre meu caso”, afirmou.

Ao atacar o símbolo de uma nação dividida, Rosiane virou alvo dos apoiadores de Trump, não só nos Estados Unidos. Até Eduardo Bolsonaro retuitou um comentário sobre o caso, que terminava com uma comemoração: “Vai ser deportada pela ICE Hahahahahahahahahaha se fudeu.” Rosiane ficou sabendo, mas disse que preferia não comentar. “Vou dizer uma coisa que… “, hesitou, quando o assunto surgiu durante a entrevista. “Sou 100% Bolsonaro”, prosseguiu. Ela mesma riu da aparente contradição, buscando argumentos para justificar seu raciocínio.

“Acho que a única coisa que ninguém consegue entender é eu aqui ser contra Trump e, no Brasil, ser Bolsonaro. Mas você sabe que é certo? Se você for muito para a direita, não dá ‘balance’”, justificou, usando o verbo em inglês para equilíbrio. “Tem que balancear: direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda. Aprende, Letícia!”, disse, entre risos, alternando repetidamente a cabeça e as mãos de um lado para o outro.

Ela reconheceu que algumas ideias dos dois presidentes alinhados à direita “podem até bater”, mas destacou que Trump e Bolsonaro são “dois homens diferentes, de dois países totalmente diferentes”. Acredita que o Brasil precisa de Bolsonaro para enfrentar os altos índices de criminalidade, enquanto nos Estados Unidos “não existe esse problema”.

“E o tuíte de Eduardo Bolsonaro?”, insisti mais uma vez. “Tenho pena do Bolsonaro pelos filhos dele, que não estão ajudando o governo, né.”

Desafiando estereótipos à direita e à esquerda, Rosiane ainda sente empatia pelos imigrantes venezuelanos no Brasil, comparando-se com eles ao falar do preconceito que enfrenta como imigrante nos Estados Unidos. “Se um venezuelano chegasse no Brasil e tivesse um carro melhor, vivendo uma vida melhor do que qualquer brasileiro, ia dar o mesmo problema. Discriminação existe em todo lugar.”

Expondo fotos de um perfil que Rosiane já deletou do Facebook, internautas americanos ironizaram o fato de que, apesar de se dizer vítima de discriminação, a brasileira viveria uma “vida de luxo”. Nas imagens, destacavam seu apreço por joias e festas em iates. Rosiane tem dois carros, incluindo um Cadillac. Não sai de casa sem maquiagem e, mesmo com neve e tornozeleira eletrônica, faz questão de andar de salto alto. Diz que sua principal fonte de renda vem do trabalho como governanta na casa de verão de uma família de milionários americanos do ramo de televisão na badalada ilha de Martha’s Vineyard, a 45 minutos de balsa de Falmouth. “Não posso revelar o nome da família porque tenho contrato, mas lá tem tudo que é tipo de gente famosa. Os homens mais ricos da América têm casa lá. É o lugar onde o Obama passa as férias”.

Conta que faz de tudo na casa, inclusive cozinhar, e atribuiu comentários maldosos, como os de conhecidos que a chamam de “movie star“, à inveja de sua prosperidade. “Eles querem que você viva aqui uma vida como se estivesse mendigando. Mas a gente trabalha e economiza. E a maioria dos brasileiros que tá aqui vive bem.”


Já o dono do boné mora em Mashpee, a menos de 20 quilômetros de Falmouth, e trabalha dirigindo caminhões e máquinas pesadas. Por mensagem via Facebook, Turner disse que saiu para jantar aquele dia a convite dos amigos e que o restaurante foi decidido de última hora, quando já estavam no carro. “É um lugar legal com comida boa e bebidas a preços acessíveis.” Apesar dos comentários, disse no último sábado que preferia não entrar em detalhes sobre o caso. “Ela já está me acusando de ser racista e dizendo coisas horríveis que eu nunca disse. Estou guardando minhas informações e meus pensamentos para o depoimento na Justiça.”

Em um texto que enviou no dia seguinte, respondendo genericamente a perguntas da reportagem, disse que considerava o muro “um bom passo na direção certa para proteger este país”. Ressaltou que a imigração é o que faz os Estados Unidos serem um país “tão maravilhoso e diverso”, mas disse achar injusto existirem pessoas “que estão em casa rezando para terem seus vistos aceitos, enquanto pessoas como Rose enganam e mentem no caminho”. E afirmou que o boné, para ele, significa “exatamente o que diz: Make America Great Again. Nada mais, nada menos. Eu apenas quero que este país que eu amo prospere”.

Em suas redes privadas, Turner parece menos cordial. Na capa do seu Twitter, que é fechado para seguidores, ele exibe em destaque a frase “Suck my dick” (Chupe meu pau), reproduzindo a fala de um jogador de basquete do Boston Celtics. Até o fechamento desta reportagem, ele não havia aceito o convite enviado pela reportagem para seguir suas publicações.

Apartados em trincheiras políticas opostas, Turner e Rosiane são um sintoma de um fenômeno em ascensão, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. No livro Como as Democracias Morrem, os professores da Universidade de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt escrevem que o excesso de polarização política torna-se uma ameaça quando as sociedades crescem tão profundamente divididas que a tolerância mútua desaparece. Em entrevista à piauí, Levitsky disse que desconhece os detalhes do caso, mas vê como uma tendência alarmante o aumento de episódios do gênero. “Vinte anos atrás, você não via pessoas lutando por causa de um boné, nem isso seria motivo para uma deportação. O fato é que este governo está muito mais disposto a expulsar pessoas do país por razões menores, como se estivesse procurando problemas”, afirmou, por telefone. “O problema é que os dois lados opostos estão vendo o outro lado como inimigo. Isso não necessariamente mata a democracia, mas é um sintoma preocupante.” 

Proveniente de uma família de evangélicos, Rosiane Santos diz ter fé de que tudo vai se resolver. Com dois advogados atuando em seu caso, nas esferas criminal e de imigração, a brasileira enfrentará uma série de audiências pela frente, que devem se arrastar pelos próximos meses. Nesses 25 anos, ela nunca voltou ao Brasil. Diz que sente saudades “de tudo” e espera poder voltar um dia. Mas quer voltar como turista.

“Sei que têm muitos brasileiros descendo o sarrafo. Mas eu defendi quem tá aqui. Eu defendi a nossa raça,” disse. Insistindo que nunca quis fazer “mal pra ninguém”, enfatizou que toda sua fúria foi movida contra um símbolo: “Eu não ataquei ele, eu ataquei o boné.”

Letícia Duarte (siga @leticiaduarte no Twitter)

Jornalista, ganhou três prêmios Esso. Foi repórter do jornal Zero Hora. Mora em Nova York.

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