questões da extrema direita

Uma facada atrás da outra

Apoiadores de Bolsonaro, inclusive um que foi a Juiz de Fora resgatá-lo depois do atentado, mostram decepção com o presidente e o governo; Flavio pede fé para 2021

Consuelo Dieguez
02dez2020_10h01
Ilustração de Carvall

Nas eleições de 2018, parte do eleitorado jovem brasileiro se viu atraído por Jair Bolsonaro, com seu discurso de ódio contra os partidos de esquerda e a favor de pautas de extrema direita. Essa turma, que se dizia de direita, embarcou nas promessas de combater os maus hábitos da velha política, embora o próprio Bolsonaro já estivesse mergulhado nela e neles havia quase 30 anos. Ninguém, porém, se jogou com mais fervor à tarefa de eleger Bolsonaro do que um grupo de jovens bem formados, de famílias de classes média e alta de São Paulo, que assumiu no estado o comando do PSL, partido pelo qual Bolsonaro concorreria e se elegeria. Montaram diretórios, filiaram candidatos, organizaram comícios e viagens do candidato, além de encontros com empresários. 

Dois anos depois, nomes significativos daquela juventude bolsonarista se afastaram de Bolsonaro e se dizem desiludidos com os rumos do governo. E o culpam por muitos dos problemas que ele agora enfrenta – entre eles, o resultado desastroso das eleições municipais, que impôs uma fragorosa derrota aos candidatos apoiados por Bolsonaro. “Muita coisa mudou nesses dois anos. A gente tinha tanta expectativa. Mas o presidente, seus filhos e o grupo ideológico que o cerca fizeram um estrago”, disse Rodrigo Morais, um analista político de 39 anos, que teve importante participação na campanha presidencial de Bolsonaro. Morais chegou a assumir a secretaria geral do PSL em 2018, após a empresária Letícia Catelani, ou Letícia Catel, como se apresentava nas redes sociais, fervorosa apoiadora de Bolsonaro, ter sido destituída do posto pelas brigas com o núcleo da campanha presidencial.

O grupo a que Morais se refere é a ala formada, segundo ele, pelo escritor Olavo de Carvalho, por seu mais fiel seguidor, o analista político Filipe Martins (assessor para assuntos internacionais do presidente), pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e pelos filhos do presidente. “Veja as ações deles para derrubar o general Santos Cruz, os ataques a alguns ministros e a integrantes do governo, as manifestações contra a democracia e o Supremo Tribunal Federal. Tudo isso partiu deles”, disse. Alterando um pouco o tom de voz, diz que as ações dessa ala enfraqueceram o governo. “Foram eles que instigaram o povo contra o Centrão e o DEM. Isso acabou desmontando a coalizão que o governo tinha com esses partidos e deixou o Bolsonaro do jeito que está agora: desguarnecido politicamente.”

Para Morais, a interferência dessa turma sempre foi prejudicial ao presidente. “Todo conselho que eles dão leva para alguma coisa errada.” E citou, como exemplo mais recente, a orientação para que Bolsonaro rompesse com o PSL e criasse um novo partido menos de um ano antes das eleições municipais. “Isso trouxe o governo para onde está agora. Um governo sem coalizão no Congresso, sem prefeito, sem partido. Totalmente solto e isolado.” disse. E concluiu, com acidez. “Todas as besteiras que Bolsonaro faz orientado por questões ideológicas são coisa deles, como por exemplo, essa maluquice de atacar a China. Além das brigas em que se mete.”



 

Dois meses antes da eleição presidencial de 2018, a piauí acompanhou em São Paulo o trabalho dessa turma na campanha de Bolsonaro. Além de Rodrigo Morais, entre os integrantes do grupo estavam o advogado Victor Metta e a empresária Leticia Catel. Outros dois elementos também muito importantes no núcleo paulistano eram Filipe Martins e o investidor Otávio Fakhoury, este último não filiado ao partido. Tinham em comum a admiração por Olavo de Carvalho, cujos livros os influenciaram bastante. Abertamente se assumiam como olavetes, como o próprio Carvalho cunhou seus seguidores.

Victor Metta e Letícia Catel ficaram tão próximos do candidato e de seus familiares que, quando ele foi esfaqueado, durante um comício em Juiz de Fora, em setembro de 2018, foram até a cidade no monomotor do escritório de Metta levando o médico-cirurgião Antônio Macedo para examinar Bolsonaro, na Santa Casa. A dupla convenceu a família do candidato a levá-lo para o hospital Albert Einstein, em São Paulo, contrariando os comandantes da campanha, entre eles o advogado Gustavo Bebianno (que morreu de enfarte em março deste ano rompido com a família presidencial), que queria levá-lo para o Sirio Libanês. 

Metta, meses depois da eleição, foi para o governo junto com o ministro Abraham Weintraub, de quem era próximo, por ambos pertencerem à comunidade judaica paulista. Metta deixou o governo pouco depois da demissão do ministro. Morais, antes dele, também ocupou um cargo no mesmo ministério na gestão de Ricardo Vélez. Catel foi para a Agência de Exportação, a Apex, Filipe Martins para a assessoria do presidente, e Fakhoury continuou dando apoio ao governo através das redes sociais.

Metta deixou o governo junto com Weintraub e disse não guardar mágoas do presidente e nem de sua família. Afirma que tudo o que está acontecendo agora, como a dificuldade de avançar com as reformas no Congresso e a derrota de Bolsonaro nas eleições municipais, já era previsto. “Não houve continuidade do trabalho de 2018. Destruiu-se a ponte com o PSL, que era o lugar para se fazer esse trabalho de expansão da direita.” O advogado evita nomear culpados, mas acha que um erro do governo foi ter levado gente para dentro sem exigir nada em troca. “O DEM, por exemplo, virou governo, ganhou a presidência da Câmara e do Senado sem virar base.”

Tanto Metta quanto Morais atribuem a derrota de Bolsonaro nas eleições municipais justamente à falta de construção de uma base e de uma articulação. “Acreditou-se que um novo partido seria formado, mas um grupo que não conseguiu acertar as negociações dentro do próprio partido, o PSL, certamente  não ia acertar as negociações com um novo”, disse Metta, amenizando, em seguida, seu discurso. “Houve uma série de erros, mas não quero atacar esse pessoal. A verdade é que a gente fugiu da luta, apostou todas as fichas na criação de um novo partido, e esse partido não estava pronto.” Para ele, a visão de grupo não prevaleceu. “Sejamos sinceros. Bolsonaro não é um cara de equipe. Nunca foi. Ele chegou para a eleição dele em 2018 só com gente nova. Onde estavam as pessoas que o acompanhavam há 30 anos?”, questionou.

E esboça uma queixa. “Quando começou o governo, o presidente rifou todo mundo que estava na campanha e começou do zero. Não é um cara de equipe. Ele não chega e diz ‘pô, esse caras me ajudaram. Vamos continuar juntos’”, contou. “Ninguém me ligou, após a vitória, para dizer ‘você é um cara de nível, um cara de condições, vem com a gente e fica aqui na janelinha’. Nada. Fala muito sobre o grupo.”

O grupo, diz ele, são as pessoas que se conheceram, que se juntaram em 2018. São os deputados, os aliados, “os companheiros de viagem”, como, segundo ele, um empresário que ajuda, um sujeito que faz uma medida social, um influenciador. “Esse grupo não conseguiu se  organizar porque a figura do presidente não foi uma figura agregadora. Ele chamou militar, velha política, Centrão, liberais, conservadores”, disse. “Nada contra chamar todo mundo. Mas ele não botou ordem nisso. O resultado foi que militar começou a puxar tapete de conservador, conservador a reagir, aí veio o STF e começou a dar porrada em conservador.  E tudo começou a correr solto.”

Tanto para Metta quanto para Morais, o divisor de águas do governo foi o rompimento com o PSL. Morais disse que percebeu que as eleições municipais seriam um desastre assim que o presidente rompeu com o partido e tentou criar o Aliança pelo Brasil. Dois erros consecutivos, na sua visão. Ele avaliava que o novo partido não iria sair e que os apoiadores de Bolsonaro ficariam órfãos de legenda. “Esses partidos que saíram vitoriosos da eleição vão cobrar agora um preço muito mais alto pelo seu apoio”, estima Morais. Metta concorda. 

Flavio Bolsonaro, o filho mais velho do presidente, ao tomar conhecimento, por meio da piauí, das queixas dos antigos e fiéis ex-aliados, pediu a eles confiança no governo de seu pai. Através de seu assessor de imprensa, Victor Martins, enviou sua resposta por WhatsApp. Embora enigmático, Flavio Bolsonaro pediu paciência aos apoiadores do pai, e os alertou para “boas notícias” que devem surgir no projeto partidário do presidente para o próximo ano.  Em sua mensagem, adiantou que o confronto com a esquerda continuará sendo o leitmotiv da campanha da reeleição de 2022. “Confiem no presidente Bolsonaro e saibam que estão convidados para participarem do projeto político-partidário a ser comandado por ele a partir de 2021. O Brasil precisará de todos unidos de novo, pois temos um inimigo em comum: a esquerda, que não desistiu do projeto de tirar a liberdade dos brasileiros.” 

 

Os desentendimentos entre o grupo ligado ao presidente e o PSL não são novos. Eles surgiram logo que a campanha de Bolsonaro alugou a legenda para que ele pudesse concorrer por ela. A entrada dos bolsonaristas no partido, no entanto, foi tumultuada, principalmente no diretório de São Paulo, que sofria a influência de Eduardo Bolsonaro. O deputado federal Junior Bozzella, que entrou no partido em 2017 a convite de seu presidente, Luciano Bivar, disse que sofreu muito com a chegada dos bolsonaristas. Hoje ele é presidente do partido no estado. E só Rodrigo Morais escapa de suas críticas. “A Leticia, o Victor e mais uma turma que levaram para lá eram muito agressivos. Chegaram chutando a porta. Diziam que só eles podiam falar em nome do presidente”, contou. Seu ataque maior, no entanto, é a Bolsonaro e seus filhos. “A marca da família é o individualismo. Eles têm essa personalidade arrogante. Forte, como se fossem os donos da bola. Ninguém serve, ninguém presta para eles. Passaram o ano de 2019 brigando com todo mundo. Isso é um desgaste.”   

Bozzella dá nomes aos que considera os principais culpados: “Eles são eles. Os três filhos e o pai. Agora os quatro, que entrou mais um. São eles, sempre eles, depois eles de novo. Se não seguir a cartilha deles, não tem paz e não tem lugar ao sol.” Por isso, diz que o que sobrou para Bolsonaro foram “os puxa-saco de plantão”, os oportunistas. “Sobraram os esquizofrênicos, que ficam soltando fogos no STF, carregando seringa e caixão nas costas.” Essa parcela da sociedade, em sua opinião, gostou do modismo de vestir a camisa do Brasil, dizer que é de direita e fazer “arminha” com as mãos. “Um bando de frustrado e que se encontrou nesse bolsonarismo e saiu atacando todo mundo na rede social. Uma hora isso ia cansar e cansou, e as urnas deram a resposta agora nesta eleição.”

Sobre o futuro, a ex-juventude dourada bolsonarista se divide. Bozzella acha que Bolsonaro terá muito poucas chances de se reeleger em 2022. Rodrigo Morais vai além e diz que Bolsonaro pode acabar sofrendo um processo de impeachment. Metta é mais otimista e diz que Bolsonaro ainda tem chances de ser o nome aglutinador da direita. “Entre ele e o PT, é claro que votaremos nele.” Perguntei se ele achava que a direita não se juntaria em torno de um novo nome. “Acho muito difícil que surja este nome”, especulou. 

Morais e Metta contaram que Leticia Catel casou e deixou a política, após sua confusa saída da diretoria da Apex, a agência de exportação sob guarda-chuva do Itamaraty. Fakhoury, um dos empresários que mais se empenharam na campanha de Bolsonaro em São Paulo, é investigado no inquérito sobre fake news que corre no STF. Filipe Martins, procurado pela piauí, não respondeu. Ele continua na assessoria internacional. Mas errou feio ao apostar na vitória de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos. A juventude bolsonarista  envelheceu mais cedo do que eles podiam esperar.

Consuelo Dieguez (siga @consuelodieguez no Twitter)

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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