Igualdades

Uma guerra atrás das grades

Luigi Mazza, Amanda Rossi e Renata Buono
06ago2019_18h24

Faz pouco mais de dois anos que a crise de violência nos presídios brasileiros se agravou. Até 2016, era mais provável que um homem fosse assassinado nas ruas do que dentro de uma prisão. Já no primeiro semestre de 2017, a chance de ser morto atrás das grades passou a ser 42% maior do que fora delas. Esse aumento dos homicídios se deu principalmente no Norte e no Nordeste, onde está o foco da disputa entre facções criminosas no Brasil hoje. Embora apenas um quarto da população carcerária do país esteja nessas duas regiões, elas registraram 69% dos assassinatos em presídios na primeira metade de 2017 – quando o Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou números de mortes de detentos pela última vez.

A violência nos presídios disparou a partir de 2017, ano em que as principais facções de São Paulo e Rio de Janeiro racharam e entraram em conflito em outras regiões do país. No primeiro semestre de 2016, foram 192 homicídios. Já no primeiro semestre de 2017, o último com dados disponíveis, foram assassinados 349 detentos – uma alta de 82%.

Em doze meses, entre julho de 2016 e junho de 2017, 605 presos foram mortos no Brasil – uma taxa de 88 mortes a cada 100 mil homens detidos. Nesse mesmo período, a taxa de homicídios de homens adultos no Brasil foi de 70 mortes por 100 mil habitantes.

Apenas 1 a cada 14 presos do Brasil está na região Norte. Por outro lado, a cada 14 presos assassinados no Brasil entre 2016 e 2017, 5 eram da região Norte.

A região Norte teve a maior taxa de homicídio em presídios entre julho de 2016 e junho de 2017. Ela foi 21 vezes maior do que nas prisões do Sudeste.

A população carcerária da região Sudeste é o triplo da população carcerária do Nordeste. 

Ainda assim, entre julho de 2016 e junho de 2017, o número de presos assassinados no Nordeste foi mais que o dobro do que no Sudeste.

Em 9 estados e no Distrito Federal, a taxa de homicídios de homens adultos em liberdade foi mais alta do que a taxa de homicídios dentro das prisões. Nos outros 17 estados, essa taxa foi maior dentro dos presídios do que fora. 

Em São Paulo, estado com a maior população carcerária do país, é duas vezes mais provável que um homem adulto seja assassinado fora da prisão do que dentro: entre 2016 e 2017, a taxa de homicídios nas cadeias foi de 10 mortes a cada 100 mil presos, enquanto no estado essa taxa foi de 22  mortes por 100 mil habitantes.

Fontes: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (INFOPEN); Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM).

Nota metodológica: Foram considerados os dados referentes à população masculina a partir de 18 anos. Como o SIM apresenta dados de grupos etários consolidados, foram considerados os grupos etários de 20 anos e mais, e estimados os percentuais no grupo etário de 15 a 19 anos, a fim de projetar os números apenas das idades de 18 e 19 anos – especificamente, 50% no número de mortes violentas e 40% no número total de pessoas no grupo etário. Os dados de mortes em presídios estão englobados no SIM, mas representam em torno de 1% das mortes totais de homens adultos no Brasil. Dessa forma, a diferença entre os dados totais e de homens adultos fora dos presídios é marginal.

Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí, produtor da rádio piauí e diretor do podcast Foro de Teresina

Amanda Rossi

Jornalista, trabalhou na BBC, TV Globo e Estadão, e é autora do livro Moçambique, o Brasil é aqui

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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