colunistas

Uma noite na Via Salaria 366

Glauber, Visconti, a máscara e os bombons

Eduardo Escorel
11ago2021_09h02

Glauber Rocha chegou a Roma no fim do outono de 1969. Vinha da República do Congo, onde acabara de filmar Der Leone Have Sept Cabeças (O Leão de Sete Cabeças), título inequívoco quanto à sua adesão aos princípios do internacionalismo na época. O país, chamado usualmente de Congo Brazavile, passaria a ser um estado marxista-leninista com o nome de República Popular do Congo em dezembro daquele ano.

Na bagagem de Glauber havia uma máscara de madeira para ser dada a Luchino Visconti – Luchino para os íntimos, era chamado, na Itália, de maestro e tratado usualmente como signore conte. Seu filme mais recente, La Caduta Degli Dei (Os Deuses Malditos), estreara em outubro e continuava em cartaz no cinema Fiamma, próximo à Via Veneto.

Máscaras africanas como a do presente para Luchino haviam impressionado artistas no início do século XX, e agora uma serviria para o cineasta brasileiro agradecer ao célebre maestro italiano. Não faltavam motivos para o gesto. Glauber recebera havia seis meses o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes pelo filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Visconti, como presidente do júri, teria sido o grande defensor de a láurea ser dada a Glauber ex-aequo, um dos maiores reconhecimentos dados a seus filmes no âmbito dos grandes festivais internacionais.

Claudia Cardinale, Visconti e Glauber Rocha na entrega do prêmio de Melhor Diretor, no Festival de Cannes, em 1969 – Foto: Reprodução

 

Não se sabe ao certo o que mais fascinou o diretor italiano ao assistir em Cannes a O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Terá sido o confronto entre o justiceiro e o beato? Ou, talvez, a teatralidade musical da mise-en-scène e a estilização do filme?

Glauber havia escrito, anos antes, que Visconti era o “maior cineasta vivo do Ocidente” e admirava, em especial, Sedução da Carne (1954) e Rocco e Seus Irmãos (1960). Considerou Os Deuses Malditos “o reencontro de Visconti com seus melhores filmes […] e, ao mesmo tempo, possibilidade de prática de cinema político pairando por cima da carne seca polêmica”. Ao assistir, pouco antes de embarcar para a filmagem de O Leão de Sete Cabeças, à disputa familiar pelo poder econômico durante a ascensão do nazismo, parece ter consolidado sua admiração pelo maestro. Nesse período, jantaram juntos duas vezes, em Roma, segundo Glauber escreveu, e Visconti teria dito a ele que “preferiu fazer um filme sobre o nazismo porque o fascismo italiano tinha sido uma comédia e […] desejava expressar a tragédia máxima do século XX”. Pode ter sido nesses encontros também que foi estabelecido outro elo entre os dois diretores – a participação do mesmo ator, René Koldehoff, em Os Deuses Malditos e O Leão de Sete Cabeças, fazendo o papel do Barão Konstantin Von Essenbeck em um, e o do mercenário alemão, no outro.

Pouco depois de chegar a Roma para acompanhar a montagem de O Leão de Sete Cabeças, Glauber ligou para Visconti, pediu para falar com il signore conte e combinou uma visita para aquela mesma noite. O maestro morava desde 1939 na propriedade herdada do seu pai, dom Giuseppe di Modrone, chamado por amigos de dom Zizì, a quem o rei Vítor Emanuel III havia conferido o título de duque em reconhecimento por sua atuação como industrial. De acordo com a descrição do filho cineasta, Giuseppe “apesar de ser um aristocrata, não era estúpido nem inculto. Amava a música, o teatro, a arte. Meu pai nos educou com severidade, dureza, mas nos ajudou a apreciar as coisas que contavam, precisamente a música, o teatro, a arte”.

Quando chegamos naquela noite à Villa Visconti, na Via Salaria 366, a 15 minutos do Centro de Roma, um copeiro de jaleco listado, sem gola, atendeu a campainha. O primeiro detalhe a nos chamar atenção foi a placa azul com letras brancas de uma rua de Paris, em Saint-Germain-des-Près, pregada na parede em frente à entrada: Rue Visconti – homenagem feita em 1864 ao arquiteto Louis Tullius Joachim Visconti (1791-1853).

Fachada da casa na Via Salaria 366 – Foto: Reprodução/Google Maps

 

Fomos levados ao encontro de il signore conte, como o copeiro se referiu ao patrão. Ele estava em uma sala ampla, com poltronas, sofás, muitos objetos e quadros nas paredes forradas de tecido. Talvez seja fantasia minha, mas lembrei desse ambiente quando assisti, anos depois, a Violência e Paixão (Gruppo di famiglia in un interno, 1974).

Luchino acolheu Glauber com simpatia e agradeceu o presente sem muita efusão. Apoiou a máscara no topo do espaldar de um sofá e a deixou ali, encostada na parede. Fomos apresentados, então, a uma senhora iugoslava, se não me engano, acompanhada da filha adulta para a qual a mãe pressurosa parecia estar agenciando trabalho junto ao maestro. Além delas, estava lá uma cenógrafa que trabalhara em alguns filmes de Visconti.

O dono da casa se instalou na poltrona de espaldar alto que era só sua. Tinha ao alcance da mão, sobre a pequena mesa lateral, uma caixa aberta de bombons, alguns já consumidos. Só me ocorreu anos depois que os chocolates deviam ser um presente de uma das visitantes. O fato é que Visconti não se moveu do seu lugar e continuou comendo sozinho as guloseimas enquanto estivemos lá.

Luchino tratou Glauber com grande deferência. Invertendo as respectivas posições, chegava a parecer por instantes um jovem cineasta diante do veterano maestro. Queria saber detalhes sobre a feitura de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro – quanto tempo levara para filmar determinada sequência? Como outra havia sido realizada? Demonstrava surpresa e admiração com a rapidez da filmagem e o resultado obtido em condições tão diferentes das que estava acostumado a trabalhar. Detalhista e obsessivo, como diretor Visconti era o anti-Glauber – estava habituado a filmagens longas e grandes orçamentos.

Outro assunto da conversa foi a expectativa em relação à estreia de Os Deuses Malditos em um cinema de Nova York, prevista para dezembro de 1969. Do resultado dependia obter, ou não, recursos para produzir Em Busca do Tempo Perdido, projeto acalentado, mas nunca realizado.

Ao nos despedirmos, Visconti me disse que eu não parecia ser brasileiro. E sorriu, satisfeito consigo mesmo, quando eu disse a ele ser neto de russos por parte da minha mãe.

Visconti morreu sete anos depois, em março. Em sua homenagem, Glauber escreveu um abecedário que começa assim: [A] “Luchino Visconti morreu montando O Inocente, melodrama inspirado em Gabriele D’Annunzio.” E termina declarando: [Z] “Deu-me lições de cinema e de vida, amei este grande artista e espero que descanse em Paz no Paraíso.” Nas letras [W] e [Y], ele conta: “Fui visitá-lo com sua prima Verde, Natal 73. Estava paralítico por causa do derrame que sofreu quando filmava Ludwig”; “Em fevereiro deste ano telefonei mas não pude vê-lo”.

*

Na coluna da semana passada, escrevi que o incêndio de 29 de julho no galpão da Cinemateca Brasileira, na Vila Leopoldina, em São Paulo, foi o primeiro a atingir Glauber, 40 anos após sua morte prematura. Cometi um lapso de memória. Na verdade, antes da perda na semana passada do material do Tempo Glauber, incluindo livros e documentos, houve outra mais grave, se é que se pode comparar sinistros dessa espécie.

No final de 1968 (ou teria sido em 1966?), antes de uma viagem a São Paulo, não me lembro a que pretexto, Glauber me pediu para entregar a Paulo Emílio o copião de Cruz na Praça, curta-metragem inacabado que dirigiu em 1959. Viajei depois de ter assistido na mesa de montagem ao rolo de filme positivo 35mm, em preto e branco, com duração de cerca de 11’, e cumpri a missão em uma fria manhã paulistana. Fui à Cinemateca Brasileira, instalada no Parque Ibirapuera na época, entreguei ao Paulo Emílio a lata contendo o material e fui apresentado aos depósitos de filmes. Nunca mais tive notícia desse copião de Cruz na Praça, que creio era exemplar único, sem negativo correspondente. Cheguei a perguntar a respeito algumas vezes, mas só obtive respostas vagas, e o filme passou a ser considerado perdido. A explicação que me ocorre é que tenha sido destruído no incêndio na Cinemateca de 1969 – o primeiro, portanto, do qual Glauber foi vítima, ainda em vida. 

*

Dia 15 de agosto, domingo, como sempre às 11 horas, Piero Sbragia, Juca Badaró, Vanessa Oliveira e este colunista conversam com Renata Pinheiro e Matheus Nachtergaele, diretora e ator de Carro Rei, no programa #DomingoAoVivo do canal de YouTube 3 Em Cena. O filme será exibido na quarta-feira, 18 de agosto, no Festival de Gramado. O  acesso à conversa no domingo, 15 de agosto, pode ser feito através do link https://youtu.be/1DTpzilFn44.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

Mais textos de Eduardo Escorel

O horror está entre nós

Uma face tétrica da atualidade é a perda da esperança de viver bem no Brasil

Tudo é “bodarrada”

Filme sobre a vida de Luiz Gama destaca sua atuação como abolicionista, mas falha ao deixar de lado suas demais facetas – entre elas, o poeta satírico

Significado da vida

Filme aborda relação mãe e filho quando os papéis costumeiros se invertem: quem cuida de quem?

Ir ao cinema, hábito trivial

O que se impõe é impedir atividades não essenciais, como frequentar salas de cinema

Potencial criativo e país ameaçado

Festival de curtas mostra que não estamos vivendo em condições normais

Ambição, audácia e relevância

Caso se mantenha compasso de asfixia da produção audiovisual, estoque de filmes brasileiros inéditos acabará se esgotando

Cinemateca Brasileira em chamas – II

Foi preciso um fogaréu para comover quem ignorou o abandono da instituição

Cinemateca Brasileira em chamas

Filmes e documentos foram relegados a abandono criminoso; incêndio de hoje se tornou tragédia anunciada

Feridas abertas

Caso prevaleça a tradição brasileira de impunidade, jamais superaremos a perda de milhares de vidas

Dinamite cinematográfico do Sri Lanka

Uma incursão ao cinema srilanquês e a subserviência da Ancine ao governo

Mais textos