questões da desinformação

Vacina vira alvo da mentira

Boatos sobre imunização se multiplicam nas redes, orquestrados por grupos antivacina e apoiadores de Bolsonaro

Camille Lichotti
18dez2020_11h23
Lançamento do Plano Nacional de Operacionalização da vacina contra a Covid-19 – Foto: Ministério da Saúde
Lançamento do Plano Nacional de Operacionalização da vacina contra a Covid-19 – Foto: Ministério da Saúde

Na manhã do último domingo (13), o advogado carioca Julio Lyra, 57 anos, recebeu uma notificação no grupo de WhatsApp da família. Entre as habituais mensagens de bom dia, enviadas por primos, tios e agregados, um texto com título chamativo ganhou sua atenção. “Vacinar-se ou não? Leiam. Mensagem de Robert F. Kennedy Jr”, lia-se na primeira linha do texto. O corpo da mensagem, sem links para veículos de notícias, é um extenso caldo de mentiras sobre as vacinas de Covid-19. O texto, encaminhado por uma prima mais velha de Lyra, negava a pandemia e anunciava que a vacina contra o coronavírus, supostamente financiada por Bill Gates, modificava o DNA dos seres humanos e causava um dano genético irreversível. Nessa narrativa delirante, a “grande mídia” seria cúmplice do “controle da mente”. Apesar da sucessão de falsidades, essa mesma mensagem já aparece com um aviso do WhatsApp: “encaminhada com frequência”. A autoria do texto não foi comprovada. O médico citado na mensagem, Robert F. Kennedy, realmente existe – e é parte do movimento antivacina norte-americano. 

Lyra desconfiou da mensagem assim que leu os primeiros parágrafos. Decidiu consultar sua filha, Nathália, de 21 anos. “Ela é estudante de Farmácia e gosta muito dessa parte de pesquisa”, explica Lyra. “Eu sempre confirmo as notícias com ela antes de repassar porque sei que as pessoas mandam muitas fake news sem conferir”. Quando Nathália recebeu a mensagem do pai, devolveu: “Que merda é essa?” Ela e Julio Lyra sabem que as vacinas contra a Covid-19 não alteram o DNA de ninguém – mas nem todo mundo tem essa certeza. Em sua conta no Twitter, o ex-deputado Roberto Jefferson compartilhou a mesma mensagem que Lyra recebeu pelo WhatsApp, dizendo que a vacina “globalista” trocaria “o nosso DNA pela marca da Besta”. O tuíte já teve mais de 6 mil curtidas. 

O projeto Comprova – coalizão que reúne 28 veículos de comunicação (incluindo a piauí) para verificação de informações – já desmentiu duas vezes esse boato. Um dos vídeos que aborda a suposta alteração de DNA chegou a ter 142 mil visualizações no Facebook. Só em 2020, o Comprova analisou 32 conteúdos relacionados à vacina – 13% de todas as checagens do grupo. A maior concentração foi entre outubro e novembro, quando metade das verificações eram relacionadas a esse tema. Agora, os checadores observam um aumento progressivo de notícias falsas sobre as vacinas, que colocam em xeque a segurança dos imunizantes. As teorias conspiratórias usadas por aqui evocam argumentos explorados há anos pelo movimento antivacina dos Estados Unidos. Uma pesquisa realizada no ano passado mostrou que dois a cada cinco norte-americanos duvidam da segurança das vacinas.  

Sérgio Lüdtke, editor do projeto Comprova e integrante da equipe da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), trabalha com checagem desde 2018. À época, Lüdtke mantinha um relacionamento próximo com a equipe da First Draft, uma plataforma norte-americana pioneira na checagem de informações. “Eles sempre nos questionavam sobre os movimentos antivacina no Brasil e nós dizíamos, com orgulho, que esse problema não existia por aqui”, lembra Lüdtke. Criado em 1973, o Programa Nacional de Imunizações do Brasil já foi citado como referência mundial na Organização Pan-Americana de Saúde. Com ele, o país erradicou a poliomielite e controlou, durante anos, os casos de sarampo.  Não havia espaço para os negacionistas. Agora, Lüdtke sabe que o cenário é outro. “Nos últimos meses, testemunhamos um crescimento bárbaro de conteúdos falsos sobre a vacina”, diz. Atualmente, todas as seis investigações em andamento no Comprova estão relacionadas às vacinas.

A desinformação nas redes sociais tem duas características fundamentais: segue a agenda pública e acontece em ondas. “Quase não vemos mais conteúdos falsos sobre cloroquina ou tratamento precoce. O mercado de desinformação, agora, está voltado para as vacinas”, explica Lüdtke. É como se os mesmos grupos e personagens que se dedicavam a espalhar mentiras sobre a pandemia mudassem o alvo. Um desses personagens é o pastor Silas Malafaia, que percorreu todo o caminho da desinformação, desde o começo da pandemia. 

Primeiro, Malafaia duvidou do efeito letal do novo coronavírus e compartilhou uma notícia falsa, cuja manchete dizia que o surto de H1N1 havia matado mais pessoas que a Covid-19. Ainda em março, o pastor debochou das medidas de isolamento social em suas redes sociais. “Este vírus é estranho […] pega só se for trabalhar”, escreveu ele. Depois, defendeu o uso da cloroquina e da ivermectina, que não têm eficácia comprovada contra a doença. Agora, o pastor faz coro à onda de desinformação sobre as vacinas. Um levantamento da consultoria Arquimedes para a piauí mostra que um vídeo de Silas Malafaia está, atualmente, entre as postagens de maior alcance no Facebook sobre o tema. 

Em direção à câmera, Malafaia começa seu discurso seguindo a receita para o desastre. “Se você acha esse vídeo importante, compartilhe com outros”, diz. Em seguida, dá início à verborragia habitual, com o tom de voz incisivo que lhe é característico. “Eu quero entender por que o Brasil tem que ser o primeiro a vacinar com a vacina da China. Qual país do primeiro mundo fez parceria com a China?” Até a última quinta-feira (17), esse vídeo teve mais de 850 mil visualizações. Uma pesquisa do Datafolha mostrou que metade dos brasileiros rejeitam, sem qualquer respaldo científico, o imunizante desenvolvido na China. Dos seis conteúdos de maior alcance no Facebook na última semana, apenas duas são de apoio à vacinação – ambas postadas no perfil do apresentador Luciano Huck. No topo do ranking está uma live do presidente Bolsonaro, uma postagem da deputada Bia Kicis e uma da deputada Carla Zambelli. 

O levantamento da Arquimedes no Twitter mostrou que, nesta rede social, o agrupamento que defende a tese negacionista de Bolsonaro se limita a 19% das 480 mil postagens analisadas sobre vacinas. No grafo abaixo, é possível ver o volume de contas que espalham conteúdos sobre a vacina. Perfis que seguem a linha bolsonarista estão representados na cor azul, com destaque para o ex-deputado Roberto Jefferson. As críticas ao presidente superam os 80%. O grande risco é que a minoria pode se tornar cada vez mais barulhenta. “Muitas publicações têm um alcance mais limitado, compartilhado em grupos com menos seguidores. Mas essa redistribuição de conteúdo falso para grupos menores vai ocupando a rede de uma forma muito consistente”, explica Lüdtke. 

Infografia: Arquimedes

 

Em vermelho estão representadas contas alinhadas à esquerda. Em rosa, perfis que fazem memes e sátiras com as falas de Bolsonaro e a parte preta representa os críticos ao governo. Nessas análises não é possível observar a capilaridade de uma das redes sociais mais utilizadas para espalhar notícias falsas – o WhatsApp. É lá que acontece o grosso da desinformação, como ocorreu com o advogado Julio Lyra. Mas, diferente do caso dele, muitas pessoas acabam mordendo a isca. “As reações aos conteúdos falsos geralmente são de medo e apoio à narrativa”, conta Lüdtke. Para ele, o intuito dessas mensagens é espalhar pânico. “Eu não tenho dúvida de que isso vai se refletir em campanhas de imunização no futuro”, completa. 

Uma pesquisa do Datafolha mostrou que a proporção de brasileiros dispostos a se vacinar contra a Covid-19 caiu de 89% para 73% em dezembro. É nesse momento que a adoção de políticas públicas se torna fundamental. Mas, em vez disso, o presidente Jair Bolsonaro amplifica as narrativas negacionistas e chegou a insinuar que a vacina para Covid-19 não seria obrigatória no Brasil. Bolsonaro também disse que não se vacinaria contra a doença. Ontem (17), o Supremo Tribunal Federal decidiu, por dez votos a um, pela obrigatoriedade da vacinação e autorizou a adoção de medidas restritivas para quem se recusar a fazê-lo. 

Segundo o ministro Ricardo Lewandowski, relator do processo, é “ inconstitucional” a vacinação forçada das pessoas, mas ele argumentou que “a saúde coletiva não pode ser prejudicada por pessoas que deliberadamente se recusam a ser vacinadas”. Por enquanto, nenhuma vacina está registrada no Brasil.O ministro da saúde, Eduardo Pazuello, ainda patina no plano de vacinação nacional e disse que as pessoas que quiserem se vacinar precisarão assinar um termo de responsabilidade – o que reforça o medo de quem espalha desinformação. A história de sucesso do Brasil em campanhas de vacinação está ameaçada.

A epidemiologista Denise Garrett trabalhou por dois anos no Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, onde estudou o movimento antivacina. Hoje ela representa o Instituto Sabin de Vacinas, organização sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento, a disponibilidade e o uso de imunizantes em todo o mundo. Em entrevista ao New York Times, Garrett chamou a atenção para a velocidade e intensidade da onda antivacina no Brasil durante o governo Bolsonaro. “Isso encorajou os anti-vaxxers [referência a integrantes de movimentos antivacina] brasileiros a emergirem mais rápido do que deveriam”, disse. “Eles estão empoderados e barulhentos”. 



Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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