colunista

Vai uma quentinha aí?

Com a crise econômica, um desempregado alimenta o outro, literalmente

Elvira Lobato
14jul2018_08h00

O trânsito na Lagoa Rodrigo de Freitas – um dos pontos turísticos mais famosos do Rio de Janeiro – é usualmente engarrafado no começo da manhã e no final do dia, quando as pessoas vão e voltam do trabalho. Mas, nos últimos meses, passou a ficar lento também durante o horário do almoço, por conta de dezenas de carros estacionados que oferecem quentinha e refrigerante por módicos 10 reais. Mesmo quem não está faminto não resiste aos cartazes e banners com o cardápio do dia, e diminui a velocidade.

É a classe média que foi empurrada para fora do mercado de trabalho pela crise e passou a engrossar o exército dos ambulantes. Sem perspectiva de conseguir emprego de carteira assinada, pôs a barriga no fogão para cozinhar para terceiros, tirou o carro da garagem e foi vender a mercadoria em corredores de passagem das Zonas Sul e Oeste da cidade. A Lagoa e a Barra da Tijuca são os locais preferidos por eles.

A explosão do comércio ambulante de alimentos é confirmada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. O número de vendedores ambulantes ligados à alimentação cresceu exponencialmente nos últimos três anos: foi de 82 mil em 2014 para 250 mil em 2016 e dobrou desde então. Dos atuais meio milhão de vendedores de comida, quatro em cada cinco são trabalhadores por conta própria, como os que vendem quentinhas. “Na crise, as pessoas deixam de comprar roupas, de ir ao cinema ou ao cabeleireiro, mas não vivem sem comer”, pensou o garçom Sidnei Rocha quando decidiu transformar seu Fiat cinza em ponto de venda móvel de comida. Ele e a mulher trabalhavam em restaurantes no Centro do Rio e perderam os empregos em 2017.

Surgiu uma espécie de drive-thru das quentinhas na orla da Lagoa. Os ambulantes se estabeleceram no trecho que vai do Leblon ao Corte do Cantagalo, em Copacabana, passando por Ipanema. Os carros estacionam pouco antes das 11 horas com o porta-malas aberto, lotado de marmitas.

O grosso da clientela, como pude constatar em duas horas de observação, são os motoristas do Uber e dos demais aplicativos de transporte particular. Ou seja, gente da classe média que também foi afetada pela crise econômica e buscou uma fonte de renda temporária enquanto aguarda o reaquecimento da economia e a volta dos empregos. Um desempregado alimenta o outro.

Os motoristas passam devagar e abrem os vidros já com a nota de dez entre os dedos. A parada é rápida porque o cardápio não dá margem para combinações e dúvidas: uma opção de carne e acompanhamento à base de muito carboidrato – arroz, farofa, feijão, macarrão ou batata –, capaz de calar o estômago por várias horas. O negócio, alegam os vendedores, só é viável se o custo total da quentinha não ultrapassar 5 reais, incluindo a embalagem e despesas com combustível e o estacionamento rotativo na Lagoa.

Os ambulantes motorizados da orla da Lagoa não aceitam ser comparados aos demais que infestam as esquinas e os sinais de trânsito do Rio de Janeiro. “Atores da Globo compram minha comida”, disse uma estudante de nutrição, que assegurou ser ela própria a cozinheira, embora suas unhas longas e bem-cuidadas sugerissem o contrário. Em geral, os vendedores são casais bem-vestidos que moram na Zona Norte, Baixada Fluminense, Niterói e adjacências e que encaram a atividade como um sacrifício temporário. Por isso, são arredios a entrevistas.

“Eu nunca tinha vendido nada nas ruas. É um trabalho honrado, mas estou com o ego ferido”, me disse o jovem Patrick Nascimento, de 25 anos, que trancou a faculdade de administração de empresas em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Antes de se arriscar no mercado das quentinhas, foi motorista do Uber por dois anos. A avó, que tinha sido cozinheira profissional, se aposentou e topou ajudá-lo, mas a vida de Patrick naquele cartão-postal do Rio não tem sido fácil.

Ele conseguiu se acomodar na ponta menos nobre da Epitácio Pessoa, quase embaixo do viaduto sobre o Corte do Cantagalo. Mas a Guarda Municipal sequestrou o cavalete em que exibia seu cardápio e os bancos que havia comprado no Mercadão de Madureira. Os operários da construção civil e motoboys que formam sua clientela comem sentados na grama, sob o forte odor de xixi deixados pelos cães de raça dos moradores locais. “O que chateia no Brasil nāo é trabalhar duro, é ver a desigualdade social”, disse o jovem.

Os ambulantes defendem seus pontos com unhas e dentes e não permitem que novatos se instalem nos locais de maior movimento. Os primos Richard e Pedro, de 33 e 34 anos, tiveram a ideia de vender quentinhas no entorno da Lagoa quando voltavam para casa em São Gonçalo, na região metropolitana de Niterói. A dupla tem uma pequena empresa de instalação de sistema de segurança, cujos clientes sumiram. O desconhecimento de culinária não os intimidou: compraram quentinhas prontas em um restaurante popular de São Gonçalo, por 5 reais a unidade, e foram para a Lagoa. Em uma hora esgotaram o estoque e voltaram animados no dia seguinte, com o dobro de quentinhas. Tiveram de deixar o local sem vender nada, pressionados pelos demais ambulantes que avisaram: “A Lagoa já está fechada. Ninguém mais entra.”

A concorrência é sentida pelo comércio. No Centro do Rio, funcionários de pequenos restaurantes vendem marmitas nas esquinas como se fossem camelôs. É o caso da cearense Inácia Amada. Encontrei-a plantada em uma esquina da rua Senador Dantas diante de um isopor de marmitas e com um cartaz anunciando a refeição por 9,90 reais. Ela contou que o patrão possuía dois restaurantes: um deles fechou e o segundo perdeu metade do movimento. Ela fica com um celular e avisa ao restaurante quando o estoque de marmita precisa ser renovado. A clientela dela são os camelôs de quinquilharias que abarrotam o Centro do Rio. “Está todo mundo no mesmo barco”, concluiu.

O comércio ambulante foi regulamentado pela primeira vez, em 1940, por Getúlio Vargas, mas o perfil do camelô de então nada tem a ver com o atual. Nem o Brasil. Entre as regras impostas por Getúlio estava a obrigatoriedade de carteira de trabalho assinada para os ajudantes dos camelôs e exame médico na rede pública pelo menos uma vez por ano. Hoje, carteira de trabalho e atendimento médico são o que mais nos faltam.

Elvira Lobato

Elvira Lobato

Elvira Lobato é jornalista e publicou os livros Instinto de Repórter, pela Publifolha, e Antenas da Floresta, pela Objetiva

Mais textos de Elvira Lobato

Mulheres de “facção”

Sem emprego formal, costureiras trabalham até 14 horas por dia para intermediários da indústria da moda, as chamadas “facções”

Alô, alô, senhor prefeito!

Fim dos telefones fixos em prefeituras do Norte e Nordeste dificulta fiscalização do poder público

A lição de Josefa

A grande artesã deixa um conselho para os políticos: “Não há riqueza maior do que o nosso nome”

E agora, Vasconcelos?

O bairro do Rio que mais votou em Bolsonaro não tem favela nem guerra de traficantes, mas sofre com o desemprego

Tempos assombrosos

O que assusta mais: o futuro político do país ou um ente sobrenatural?

Entre a decepção e o medo de errar

O que dizem as eleitoras pobres de Bolsonaro

Os mascates do Rio

A periferia sem crédito mantém a tradição do vendedor de porta em porta

Lula e o eleitor do agreste

Trabalhadores rurais de Alagoas entendem que ele se envolveu com corrupção, mas não deve ser punido diante da “lama geral”

O universo de Marcelo

Um dos 4,8 milhões de desalentados do país, motorista vê seu mundo encolher ao perder o emprego

No sofá, com a crise

Desempregados passam a lavar carros em ruas do Rio e serviço conta até com sofá para os clientes. Um deles pergunta: “Prefere que eu assalte?”

Mais textos