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Varda por Agnès – narcisismo encantador

Interação é a pedra angular na obra da cineasta

Eduardo Escorel
15maio2019_15h09

Aos 90 anos, Agnès Varda fez seu filme de despedida. Ela morreu no dia 29 de março, e nos deixou Varda por Agnès, um encantador exercício final de narcisismo, feito com mais liberdade ainda do que ela sempre teve em sua prolífica carreira, iniciada em 1954. O ultimato de Varda estreou discretamente há dias, ocupando no Rio e em Niterói apenas oito sessões, em três cinemas.

Em uma série de master-classes, dadas em cinemas e outros espaços, Varda rememora, diante de plateias atentas, seu percurso profissional de fotógrafa, cineasta e artista. Evoca com afeto suas colaboradoras e seus colaboradores profissionais. Elegante, é reservada em relação à sua vida pessoal.

Varda se diz guiada por três palavras: inspiração, criação e interação. É um autorretrato fiel. André Bazin acrescentaria “coragem”, “imaginação” e “talento”. Foi o que o notável crítico escreveu, em 1956, ao saudar La Pointe Courte (sem título em português), estreia de Varda como diretora de cinema que ele chamou de “filme milagroso. Por sua existência e por seu estilo. Por sua existência, por que seria preciso voltar ao Sangue de um Poeta [de Jean Cocteau,1930] para encontrar um filme tão livre em sua concepção de toda contingência comercial”.

“Agnès Varda é uma jovem mulher”, escreve Bazin, “que sentia simplesmente a necessidade de realizar esse filme. Em vez de procurar um produtor conforme o procedimento clássico, ela pensou com razão que a energia que seria necessária para encontrar esse pássaro raro seria melhor empregada dando um jeito com seus próprios meios. Convenceu alguns camaradas a trabalharem com ela em cooperativa, e eis como, com pouco dinheiro, mas muita coragem, imaginação e talento, La Pointe Courte surgiu.”

“Esse milagre”, continua Bazin, influencia a “liberdade total de estilo que nos dá o sentimento tão raro no cinema de estarmos na presença de uma obra que não obedece senão à vontade de seu autor, sem servidões exteriores.” (Publicado no jornal Le Parisien libéré, hoje Le Parisien, em 7 de janeiro de 1956)

Eis aí uma descrição perfeita dos pressupostos da Nouvelle Vague, extensiva aos novos cinemas e filmes de autores de vários países mundo afora, nas décadas de 50 e 60. Contemporâneo de Noite e Neblina, entre outros, La Pointe Courte foi montado por seu diretor, Alain Resnais.

Nunca assisti a La Pointe Courte e não creio que tenha sido lançado comercialmente no Brasil. Sei que foi exibido, com o título original, na retrospectiva feita em São Paulo, na 41ª Mostra Internacional de Cinema, em outubro de 2017. Nessa ocasião, Inácio Araújo escreveu na Folha de S.Paulo (19/10/2017) que o filme revela “a audácia e o gosto pelo documentário da autora. Trata-se de mostrar a crise de um casal que se encontra numa vila de pescadores. A crise”, segundo Araújo, “não é desinteressante, mas o olhar de Varda à vila e à vida dos pescadores já tem muito do que seriam suas realizações futuras”.

Mais caloroso, Bazin assinala o “admirável diálogo” de La Pointe Courte, e o fato que “seus heróis só dizem coisas inúteis e essenciais como essas palavras que nos escapam nos sonhos”.

A diretora Agnès Varda. FOTO: DIVULGAÇÃO


Dos três termos guias de Agnès, se fosse preciso escolher apenas um, eu diria que interação é a pedra angular de sua obra. Exemplos não faltam em
Varda por Agnès, entre eles cenas do magnífico Visages, Villages (2017), comentado aqui em 1º de fevereiro de 2018. Permito-me reproduzir um trecho desse comentário: “O poder de encantamento de Visages, Villages tem origem, de um lado, na interação afetuosa entre Varda e [o fotógrafo] JR, que ela chama de ‘amizade à primeira vista’; e de outro na relação cordial que ambos estabelecem com seus personagens ao longo da viagem de dezoito meses através da França, em um pequeno caminhão adaptado como cabine fotográfica e impressora de cópias em grande formato.”

A virada do século foi decisiva para Varda, em dois sentidos. Primeiro, ela lançou o documentário pelo qual passou a ser mais reconhecida, no qual define sua identidade como cineasta – Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse, 2000). Além disso, ela ingressou no universo digital, ampliando o escopo da sua obra que passou a incluir instalações expostas em galerias e bienais.

A edição expandida de Documenting the Documentary, publicada em 2014, inclui um capítulo novo dedicado a Os Catadores e Eu, da professora e ensaísta Virginia Bonner (a primeira edição, de 1998, é anterior ao filme. Nenhuma das duas foi editada no Brasil). O livro reúne um cânone do cinema documentário formado por 31 títulos, cada capítulo dedicado a um desses filmes.

Varda inclui, escreve Bonner, “momentos banais, imagens de envelhecimento e decadência e entrevistas com excluídos sociais […]. Ela reconhece que sua tarefa como realizadora de documentários é semelhante à de outros catadores, mas em vez de grãos ou frutas ela cata ‘atos, gestos, e informação’”. Varda se define como uma “catadora de imagens”.

Quando Os Catadores e a Catadora foi lançado, Varda tinha 72 anos. Bonner escreve: “na narração ela comenta secamente que ‘meu cabelo e minhas mãos me dizem que o fim está próximo’. E também que ‘um relógio sem ponteiros, isso me serve. Você não vê o tempo passando’”.

A ampliação do campo de trabalho de Varda, comum a alguns cineastas, entre outros Chris Marker e Harun Farocki, resultou da restrição progressiva do mercado ao filme autoral e, em contrapartida, ao predomínio dos grandes espetáculos. Varda por Agnès nos permite vislumbrar algumas de suas instalações inclusive A Cabana do Fracasso no Cinema (2006), uma estrutura metálica com paredes e teto feitos com tiras de cópias desenroladas do seu filme As Cento e Uma Noites (Les Cent et Une Nuits de Simon Cinéma, 1995) – um desastre de bilheteria, com Michel Piccoli, Marcello Mastroianni, Fanny Ardant e Catherine Deneuve, entre vários outros atores e atrizes célebres, inclusive Robert De Niro, no elenco. Com a cabana do cinema, Varda diz ter conseguido “rejeitar o fracasso”.

Outra instalação, inspirada pela ilha Noirmoutier onde Varda tinha uma casa e costumava passar temporadas, é A passagem do Gois (2006), descrita como “um longo corredor que simula um passadiço que funcionava como a única ligação com a ilha [isso antes da construção de uma ponte], e se tornava totalmente submersa na maré alta. Na maré baixa, os visitantes são convidados a visitar a ilha passando através da cortina”, obstáculo a ser vencido para ter acesso à galeria.

Depois de uma sequência de imagens dos horrores atuais do mundo, com ênfase na situação dos imigrantes, na cena final de Varda por Agnès, a personagem e diretora do filme é imersa em uma tempestade de areia e some. É assim que Varda encenou seu próprio desaparecimento para o qual talvez já estivesse se preparando desde Os Catadores e Eu. São “os outros que me interessam, que me intrigam” ela diz em uma de suas palestras, incluída em Varda por Agnès. Cineasta, como ela, voltada na justa medida para si mesma e para os demais, é, e sempre será, difícil encontrar.

 

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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