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Variantes demais

Mutações dos Sars-CoV-2 demandam pesquisas sobre a eficácia das vacinas contra as novas cepas e sequenciamento do vírus para saber qual tipo prevalece no Brasil

19fev2021_18h31

No 59º episódio do Luz no fim da quarentena, José Roberto de Toledo e Fernando Reinach falaram sobre as mutações do vírus e a demanda necessária de pesquisas para a dinâmica de vacinação e o sequenciamento do vírus para saber qual tipo prevalece no Brasil. Ouça o episódio completo aqui

 

José Roberto de Toledo: Após um longo e tenebroso verão, com direito a convalescença no meu caso, estamos de volta, Fernando Reinach e eu, para tentar iluminar esse túnel interminável. Neste episódio, falamos mais sobre o que ainda não sabemos a respeito das variantes do Sars-CoV-2, essas mutações que estão deixando para trás a versão original do vírus e dominando as novas infecções. Fernando explica as consequências da disseminação dessas variantes para quem, como eu, já teve Covid e também para quem já foi ou será vacinado. Nós analisamos o que falta descobrir, quais pesquisas ainda precisam ser feitas e nos preocupamos com a pouca informação científica disponível sobre a chamada variante de Manaus. Mas nem tudo é escuridão, alguma luz a gente conseguiu jogar sobre essas mutações, cheque aí.

Doutor Fernando Reinach, depois de semanas ou até meses, eu diria, de escuridão, estamos de volta com o Luz no fim da quarentena. Porém, para falar de escuridão, não de luz, infelizmente, não é isso? 

Fernando Reinach: Acho que é bom a gente recapitular. Desde o começo da pandemia tem variantes, o vírus muta etc. Mas a gente sempre assumiu que essas variantes ocorriam muito lentamente e a maior parte até agora não afetava nenhuma característica do vírus. Até que surgiram duas variantes que afetam muito – uma é a inglesa, vamos chamar assim, a outra é da África do Sul, e uma terceira que a gente não sabe nada, mas é muito parecida com a da África do Sul, que é a brasileira de Manaus.

José Roberto de Toledo: Vamos falar primeiro, então, sobre o que que aconteceu lá fora, onde eles estudam o impacto das variantes sobre a vacina, em dois casos: no caso da Pfizer, teve um estudo para saber se a variante chamada variante inglesa, a B117, impactava negativamente ou não o efeito da vacina da Pfizer. Qual foi o resultado?

Fernando Reinach: A inglesa, no começo, o pessoal falou “não, isso aqui não altera nada, ela só infecta e se espalha mais rapidamente”. Então, ela explica o aumento de casos na Inglaterra, se espalha bem rápido. Depois eles demonstraram que ela também é mais letal, ligeiramente mais letal. Aí ficou a dúvida: será que as vacinas protegem contra essas novas variedades? Quer dizer, as vacinas todas – fora essas que foram anunciadas agora esse mês – foram testadas, a fase 3 foi feita antes de existir a variedade. Elas mediram a eficácia contra o vírus original. Todos esses números que a gente vê 95, 50 e tal são contra o vírus original. Aí o que é que aconteceu, surgiu a nova variedade. Daí a Pfizer, por exemplo, foi testar a variedade inglesa, foi testar o soro das pessoas vacinados com a vacina da Pfizer contra a variante inglesa e viu que tudo bem, funciona super bem, talvez até um pouquinho de queda na eficácia, mas ela continua funcionando, então, ótimo! Daí foi na África do Sul começou a vacinar com a AstraZeneca e, num estudo pequeno, ainda bem pequeno, eles descobriram que a vacina da AstraZeneca tem uma eficácia muito menor contra a variedade da África do Sul. Ou seja, a variedade da África do Sul infecta um número maior de pessoas que foram vacinadas com a AstraZeneca. Aí a África do Sul entrou em pânico, parou de usar AstraZeneca por uns dias, agora voltou, teve uma análise cuidadosa da WHO (Organização Mundial da Saúde) que falou hoje “olha, pode continuar usando a AstraZeneca mesmo que ela seja pior, é melhor do que não vacinar”.

José Roberto de Toledo: É como se a gente precisasse vacinar um percentual maior da população até atingir a chamada imunidade de rebanho, mas sem ficar sem a menor.

Fernando Reinach: É você saber o que vai acontecer para toda a população quando se vacinar. Se tem uma vacina que é cem por cento eficiente, se você vacina cem por cento da população, teoricamente resolve. Se a vacina tem cinquenta por cento de eficácia, não vai resolver se vacinar mais gente para ter um efeito não total. Então é a capacidade de você prever o que vai acontecer. Nós estamos começando um processo de vacinação no mundo todo, o processo de vacinação é altamente positivo, todo mundo deve se vacinar mas, dependendo da vacina que se toma, e da variedade da cepa que o Sars-CoV-2 está no lugar onde você vive, essa vacina pode ser melhor ou pior.

José Roberto de Toledo: E aí temos a variante de Manaus que, supostamente, deveria estar preocupando os brasileiros já que, até onde eu chequei, Manaus fica no Brasil.

Fernando Reinach: Manaus é interessante. Porque foram sequenciados alguns exemplares do vírus que circula em Manaus, a amostra é muito pequena, mas dizem que quase oitenta por cento das pessoas infectadas em Manaus têm essa variedade. Essa variedade, no sequenciamento, parece muito parecida com a África do Sul, então, teoricamente, se poderia esperar que talvez a vacina da AstraZeneca tenha um efeito menor. Mas não foi testado, pode ser que… porque não é idêntico, é parecido. 

José Roberto de Toledo: Ou seja, a gente simplesmente não sabe se as vacinas que estão sendo aplicadas em Manaus e fora de Manaus, no resto do Brasil, são eficazes ou não contra essa variante de Manaus. E a gente tampouco sabe quantos por cento das novas infecções em qualquer parte do Brasil são da variante de Manaus, ou da variante inglesa, ou da variante sul-africana, ou do vírus original.

Fernando Reinach: Exatamente. Quer dizer, então você precisa de um método que não só conte o número de pessoas infectadas, mas diga com que variante ela foi infectada. Esse método implica em você sequenciar o genoma da variante para saber que mutações ela tem, que é um método pelo menos 100 a 500 vezes mais difícil de executar do que um simples teste de PCR ou um teste sorológico.

José Roberto de Toledo: Então vou dar um caso prático: eu tive Covid em janeiro. Eu não sei de que variante é e, portanto, não tenho nenhuma garantia de que os anticorpos que eu tenho lá, que testei e apareceram, IGG, IGM e tal, vão me proteger contra uma nova variante, seja ela de Manaus, sul-africana ou inglesa, é isso?

Fernando Reinach: Isso, é basicamente isso. Uma hipótese otimista. A variante de Manaus está só em Manaus, não é verdade que já acharam algumas até na Argentina. Então, mas vamos pensar que, por enquanto, ela está só em Manaus. Então esse pico enorme que está dando em Manaus é por causa dessa variante. Você também precisaria testar isso para ter certeza e, portanto, você deve ficar com bastante medo, porque se ela fez esse estrago em Manaus, provavelmente ela vai fazer esse estrago no Maranhão, vai fazer no Piauí, vai descendo, então aí você fica bem pessimista. Outra possibilidade é que não, essa variante está em Manaus, mas, por exemplo, todo o crescimento de casos em São Paulo já é causado por essa variante. A variante já está no Brasil. Portanto, você não vai ter esse crescimento todo de casos porque uma parte desse crescimento já é essa variante. Então você fica meio no escuro, porque você não consegue fazer um julgamento do crescimento de uma curva num lugar qualquer. Porque antes era assim: cresceu, cresceu, porque o pessoal relaxou, contaminou. Agora pode ser: cresceu, cresceu, porque o pessoal relaxou ou porque nós temos uma variante que infecta mais. Então você passa a ter duas coisas influenciando a tua predição e, na hora que você vacina, é a mesma coisa: eu estou usando a vacina certo ou não? Qual a eficácia da CoronaVac, na prática, que é a vacina que a gente está usando no Brasil, nas três grandes variantes conhecidas, nas novas variantes que vão aparecer? Os laboratórios maiores e que têm uma presença global, eles estão testando isso. Então serviu, a Pfizer foi lá testar na Inglaterra, aí a AstraZeneca foi fazer o teste lá na África do Sul… Eles estão tentando entender como a vacina deles se comporta com as diferentes variedades. 

José Roberto de Toledo: Há algum estudo da Sinovac? 

Fernando Reinach: Não só a Sinovac não faz os estudos, como as outras empresas, como não tem vacina vendendo aqui no Brasil, também não ligam muito para a variante de Manaus. Eu acho que agora provavelmente a Fiocruz vai começar a se preocupar mais e começar a fazer esses estudos. Mas você vê, a CoronaVac ainda não entregou todos os dados da fase 3 para a Anvisa. Ela teve que assinar um termo que ela estava devendo alguns dados. Então tudo isso cria uma certa incerteza. Eu mesmo flutuo às vezes de estar completamente pessimista e achar que vai vir um tsunami aí, ou às vezes eu falo: “não, vai ver que essas variedades já estão no Brasil”. Se a gente tiver um pouco de sorte, as nossas vacinas vão segurar essas variedades. Então podemos ser mais otimistas mas, nos dois casos, são avaliações feitas sem dados científicos ou tentando extrapolar de dados científicos do exterior, o que é um problema.

José Roberto de Toledo: O que a gente não tem é o tal do sequenciamento em massa ou em grande quantidade, que seja uma amostra representativa da população brasileira de que o vírus está circulando aqui, qual variante está circulando aqui, qual a proporção e em qual lugar.

Fernando Reinach: Nós não temos. A gente não conseguiu organizar testes em massa, então a gente não sabe quantas pessoas estão infectadas num dado momento. Todos os países desenvolvidos já têm e eles falam “olha, ontem eu fiz 100 mil testes e deu tantos positivos, então a taxa de positividade tá em tanto”, quando sobe a taxa de positividade, eles sabem que duas, três semanas depois vai encher o hospital. A gente não conseguiu organizar isso. A gente até comprou os testes, eles estão lá no aeroporto, provavelmente uma parte deles vai para o Haiti, mas a gente não conseguiu organizar isso. Essa parte de sequenciar a variedade é muito mais complicada, poucos países estão conseguindo fazer isso. Eles vão se organizar para fazer, mas não estão fazendo ainda. E o problema é que esse dado você não consegue usar de outros países, porque você tem as variedades locais e as vacinas que você está usando localmente.

José Roberto de Toledo: Agora, Fernando, é uma corrida contra o tempo, porque a gente vacinou, até o momento que a gente está gravando esse programa, dois por cento da população brasileira, 4,2 milhões de doses foram aplicadas a primeira dose, e mais 66 mil da segunda dose. Ou seja, é uma velocidade relativamente lenta, incomparável por exemplo com base na taxa de avanço da vacinação em Israel, país que está mais adiantado e já vacinou dois terços da população. E se a gente continuar nesse ritmo vai demorar muito tempo pra vacinar todo mundo que precisa ser vacinado. O que é que acontece, aumenta o risco de aparecer uma outra variante ou uma terceira, uma quarta, quinta, sexta…

Fernando Reinach: Cada vez que o vírus se reproduz ele tem uma chance de gerar uma nova variante. Quanto mais ele infectar pessoas, quanto mais pessoas forem infectadas numa unidade de tempo mais chance tem de aparecer as variedades. Então é uma espécie de uma corrida. Então os países como a Inglaterra e Israel falam “fecha as fronteiras e vacina todo o mundo o mais rápido possível”. Depois a gente não sabe o que eles vão fazer, se vão manter a fronteira fechada ou não. Aqui, no ritmo que nós estamos, eu vi um cálculo feito num jornal que levaria quatro anos para vacinar a população toda. Isso pouco é compreensível porque a gente está começando ainda o programa, tem pouca vacina, mas você tem que aumentar isso em dez vezes a velocidade para ter alguma chance de ver o efeito da vacina.

José Roberto de Toledo: Eu fiz uma conta que é assim, pra vacinar todo mundo com mais de 18 anos, precisaria vacinar em cem dias, um prazo razoável para você não correr o risco de aparecerem novas variantes ou haver uma entrada de novas variantes do exterior, precisaria vacinar 750 mil brasileiros por dia. Não estamos nem perto disso.

Fernando Reinach: Por outro lado, nas campanhas de vacinação da gripe, o Brasil chegou a vacinar 1 milhão de pessoas por dia. Então não é uma missão impossível, você precisa ter vacina. Mas você vê, como é que a gente conta as vacinas, “ah, chegou insumo agora para 4 milhões de doses”. Tá bom. Se está vacinando 500 mil pessoas por dia, isso são oito dias, em uma semana acabou. Se está vacinando 1 milhão de pessoas por dia, aí chegou o avião com insumo para fazer 8 milhões de doses, não chega no fim de semana. Então é muito interessante você ver porque é tudo assim, na melhor das hipóteses, dezenas de milhões de doses, quando a gente precisa de centenas de milhões de doses. Então a gente tem um fato real que a gente tem pouca vacina. Por outro lado, tem um lado positivo, está vacinando os mais velhos, você está vacinando as pessoas de maior risco, então talvez, com uma porcentagem mais baixa de pessoas vacinadas, você já consiga diminuir bem a morte e hospitalização. Então você precisa vacinar todo mundo para conter. Agora, se precisa vacinar essas pessoas, com uma vacina você tem alguma ideia de quão eficaz ela é para cada cepa do vírus que está no local, e a gente não tem esse dado. Na medida que a pandemia está andando, a gente teve um progresso enorme que é a vacina, que levou a gente mais para perto da saída do túnel lá na frente. Mas monitorar o andamento no túnel ficou um processo muito mais complicado e cientificamente muito mais sofisticado que depende mais da capacidade tecnológica e operacional do setor público e do pessoal da vigilância sanitária. E a gente nunca conseguiu montar as ferramentas básicas lá atrás e, agora, temos um desafio de montar mais uma. Você pega o R zero de um vírus, mede num lugar do mundo, é muito pouco provável que seja igual ao outro lugar do mundo. Mas uma cepa brasileira com uma vacina que só é usada no Brasil, praticamente, se você não medir aqui, ninguém vai medir. Então, esse é o grande desafio agora. 

José Roberto de Toledo: Ou seja, se a gente não sequenciar os vírus que estão circulando no Brasil, ninguém vai sequenciar pela gente.

Fernando Reinach: A gente não conseguiu, a gente não montou contact tracing, a gente não montou o teste em massa, a gente não conseguiu seguir os lockdowns direito… Então dá uma percepção e dá uma espécie de arrepio de pensar que muito provavelmente a gente não vai conseguir montar isso também.

José Roberto de Toledo: E o risco que isso traz, além de mais mortes e mais gente doente, é prolongar esse sofrimento por mais um ano.

Fernando Reinach: Exatamente. Até as vacinas conseguirem controlar o vírus, se vai precisar de uma vacina, duas novas versões, tudo aqui vai ser atrasado. Quando você pega Pfizer, Moderna, já estão fazendo versões da vacina para cepas que apareceram por aí, mas a gente vai chegar lá. A gente vai chegar lá porque as vacinas funcionam, elas vão dando imunidade aos poucos.

José Roberto de Toledo: Eu entre elas! Que fique claro: eu não estava no bundalelê, não, peguei em casa. A partir de uma reinfecção, então, tem que tomar cuidado triplo. Fernando Reinach, muito obrigado. Estamos de volta e vamos tentar manter essa lanterna acesa pelo menos uma vez por semana.

Fernando Reinach: Vamos tentar, vamos tentar. Abraço, Toledo. Tchau.

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