Vexame em Brasília, extremismo no Chile e desonra no Rio
Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:
Conteúdos citados neste episódio:
“Detalhes de uma delação inflamável”, reportagem de Breno Pires, João Batista Jr e Arthur Guimarães para a piauí.
“De volta para o futuro”, reportagem de Fernando de Barros e Silva para a piauí.
“Caso TH Joias: a rede entre política e Justiça no RJ”, episódio do podcast O Assunto.
Momento Cabeção
No “Momento Cabeção”, quadro em que os apresentadores indicam livros, filmes, podcasts e documentários aos ouvintes, eles sugeriram os seguintes conteúdos:
Ana: “Oeste outra vez”, filme de Érico Rassi.
Celso: “Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It”, livro de Cory Doctorow
Fernando: “Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo”, livro de Teresa Caldeira.
“Triste tigre”, livro de Neige Sinno.
“Arte”, peça de Yasmina Reza.
“Babilônia”, romance de Yasmina Reza.
- As melhores leituras de 2025, lista de indicações da piauí.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO
Sonora: Rádio piauí.
Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da revista piauí.
Sonora: Nem terminou o julgamento ainda, nem terminou. Ainda tem gente sendo condenado. E o pessoal já resolve diminuir as penas. Eu quero dizer pra vocês que, com todo o respeito que eu tenho ao Congresso Nacional, hora que chegar na minha mesa, eu vetaria.
Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!
Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!
Sonora: En Chile ganó la esperanza de vivir sin miedo
Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala!
Fernando de Barros e Silva: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.
Sonora: O desembargador nega, absolutamente, que tenha jantado com o deputado Bacellar ou que tenha vazado qualquer informação.
Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira, nosso penúltimo programa do ano, porque nós gravamos um especial de Natal. Não é com o Roberto Carlos. No final, vocês vão saber com quem é. Já está gravado e ficou muito legal. Vamos, sem mais delongas, aos assuntos da semana.
Fernando de Barros e Silva: E o papelão dessa semana coube ao Senado, que aprovou, e fazendo chicanas, o PL da Dosimetria, que beneficia os golpistas do 8 de janeiro e beneficia os mentores responsáveis pela tentativa de golpe, a começar por Jair Bolsonaro. Este é o peru de Natal que o Congresso oferece à sociedade brasileira, com mensagem de que dar golpe de Estado não é tão grave assim, que, quem sabe, vale a pena tentar de novo. Para corrigir o texto indigente de Paulinho da Força que havia sido aprovado pela Câmara e que abria brechas para beneficiar autores de outros crimes além daqueles cometidos pelos golpistas, a CCJ do Senado fez uma manobra claramente inconstitucional. O relator, senador Esperidião Amin, do PP de Santa Catarina, acolheu uma emenda apresentada por Sérgio Moro. Aquele. Emenda que restringe expressamente a aplicação das novas regras aos crimes cometidos no contexto dos atos golpistas de 8 de janeiro. Mas, ao acolher a emenda do Marreco, a CCJ fingiu que ela tinha natureza redacional e não de mérito, o que liberava o texto de ter que voltar para a Câmara, apesar de modificado. Avacalharam as regras do jogo para roubar em benefício do Jair. Faz sentido. Reformulado, o PL passou por 48 votos a favor e 25 contrários, além de uma abstenção. O texto agora vai para a sanção ou veto de Lula, que deve vetá-lo. Lula e boa parte do governo ficaram contrariados com a atuação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, que negociou a aprovação da dosimetria em troca de apoio para acelerar a tramitação de um projeto que corta incentivos fiscais e eleva a tributação de bets e fintechs, entre outras coisas. A democracia como moeda de troca para obter mais arrecadação. Como diria Papai Noel: “Assim não, meu filho, ho ho ho”. No segundo bloco, a gente vai tratar de América Latina e começamos pela vitória de José Antonio Kast, eleito presidente do Chile no último domingo. Kast que é um pinochetista, admirador entusiasmado do ditador que governou o Chile entre 1973 e 1990, põe o país sob o comando da extrema-direita pela primeira vez desde o fim da ditadura. Ele sucede Gabriel Boric, ex-líder estudantil que se projetou com as manifestações — verdadeiros levantes que colocaram o país de cabeça para baixo entre 2019 e 2020 — e chegou à presidência. O governo de Boric prometia muito e acabou de forma melancólica, com uma grande frustração da nova esquerda no país. Kast venceu a candidata apoiada por Boric com mais de 58% dos votos, depois de uma campanha cirurgicamente ajustada. Muito discurso sobre segurança e imigração, silêncio calculado sobre costumes e moderação na forma, sem jamais renegar o seu fundo ideológico. A vitória de Castro reorganiza o tabuleiro na América do Sul, fortalece uma direita nacionalista populista alinhada a Trump, a exemplo de Miley e Bukele em El Salvador. Em suas primeiras declarações, o presidente eleito já disse que apoia uma eventual invasão da Venezuela pelos Estados Unidos para derrubar Nicolás Maduro. Falaremos disso também. No terceiro bloco, a gente volta ao Brasil, mais especificamente ao subsolo institucional do Rio de Janeiro, onde política, judiciário e crime organizado parecem dividir o mesmo camarote. A prisão do desembargador do TRF-2 Macário Judice Neto, por ordem de Alexandre de Moraes, é o desdobramento mais recente do caso TH Joias, deputado acusado de operar como braço do Comando Vermelho dentro da Alerj. A investigação revela vazamento de operação policial, mensagens de afeto trocadas com Rodrigo Bacellar, o presidente afastado da Assembleia, jantar na véspera da prisão, exonerações em série e um judiciário que mais uma vez aparece não como barreira ao crime, mas como parte do enredo. Esse enredo inclui aposentadoria compulsória anulada, promoção automática, salário de seis dígitos e um desembargador que, fora do expediente, atende pelo nome artístico de Dr. Júdice. No Rio, o problema não é a falta de decoro, é o excesso de intimidade, diz a minha diretora. Ho ho ho. É isso. Vem com a gente.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana Clara, vamos começar com você. Você que estava apurando… Ela vem com a cestinha cheia, né, Celso? Ela não para de apurar. Vocês não sabem, ouvintes. Enquanto ela vai falando, o telefone vai tocando, ela vai falando com as fontes…
Celso Rocha de Barros: Ela carrega o programa nas costas, né?
Fernando de Barros e Silva: Você antecipou, aliás, na semana passada, mais uma vez, devo dizer.
Ana Clara Costa: Bom, havia uma conversa, uma espécie de acordo ali que estava sendo articulado pela Câmara e pelo Davi Alcolumbre com o Supremo para passar isso logo. Eu acho que eu já falei isso várias vezes aqui, né? E a própria oposição fala isso abertamente, que a anistia que se tornou dosimetria, é a pauta única da direita. O Sóstenes falou isso milhares de vezes: eles não querem nada além disso. Então, a intenção do Hugo Motta e do Davi Alcolumbre, além de, enfim, oferecer uma vitória para a oposição, era acabar com esse assunto porque ninguém aguentava mais, né? E houve uma conversa com o Supremo, sobretudo com o Alexandre de Moraes, lembrando que o Supremo e o Congresso eles não estão vivendo o seu melhor momento, né? Então, a ideia era que isso não fosse declarado inconstitucional. Então houve uma conversa. Só que o texto que saiu da Câmara era muito inviável, assim se liberava para todo mundo basicamente.
Fernando de Barros e Silva: Indigente.
Ana Clara Costa: Exato. Do feminicida ao pessoal de Tremembé lá que o Celso gosta… Ia estar todo mundo liberado.
Celso Rocha de Barros: Não ia dar para fazer a série.
Ana Clara Costa: Então havia essa conversa. Só que o texto tinha se tornado muito difícil de aceitar, né? Mas de certa forma, os senadores foram em frente com aquilo, encontraram uma forma de mexer no texto para que ficasse aceitável do ponto de vista, sobretudo do Alexandre de Moraes, e que não tivesse que voltar para a Câmara para liberar o Congresso dessa história. E aí, o que que acontece essa semana, né? O governo que não estava metido nessa história, acabou entrando. Houve dois movimentos essa semana. O primeiro movimento foi pilotado pelo senador Renan Calheiros, do MDB, junto ao presidente da CCJ, Otto Alencar. Eles são muito amigos, são, enfim, ambos são senadores da base. O Otto é do PSD do Kassab, só que da Bahia. Assim, ele sempre teve uma posição mais favorável ao governo. E o que que aconteceu? O Renan propôs que houvesse um pedido de vista de cinco dias na CCJ para que essa votação do PL da dosimetria na CCJ fosse postergada para o ano que vem. Então, na verdade, a proposta do Renan era comprar tempo para o governo e, obviamente, o Renan gostaria de entrar como protagonista dessa história ao pilotar uma estratégia de tentativa de derrubada do PL da Dosimetria. E o Renan, eu acho que vale lembrar. A gente até tava falando aqui nos bastidores… Que tempos vivemos, né? O Renan nos últimos anos tem sido uma das figuras mais republicanas do nosso Congresso. Assim, de longe, né?
Fernando de Barros e Silva: Pra você, tudo é relativo nesse mundo sem Deus. Tudo é relativo.
Ana Clara Costa: Enfim, o Renan teve um papel importante no governo Bolsonaro, assim como posição, mesmo que o estado dele, sobretudo Maceió, seja uma cidade extremamente bolsonarista. O Renan teve uma conduta importante, talvez fundamental na CPI da Covid, em que ele foi relator, e durante todo esse período ele tem norteado uma certa conduta bastante republicana dentro do Senado. E ele tem autoridade no Senado, que é importante. Então, assim, o fato de ele defender projeto X ou Y acaba mobilizando um certo grupo de senadores, um grupo importante. Então, o Renan, ele é uma parte importante da base do governo no Senado, né? Enfim, ele queria ter esse protagonismo de ser o responsável por pilotar a estratégia que poderia derrubar esse PL. Estava tudo certo para que isso acontecesse. Ocorre que, chega a quarta-feira, dia da votação na CCJ, e o Otto Alencar reduz o pedido de vista de cinco dias para quatro horas. Ou seja, esse tempo que se teria para supostamente tentar virar né? — Seria só no ano que vem a discussão e tudo mais. — Acabaria a partir do momento que o Otto fez isso. Bom, é na volta dessas quatro horas de vista, eles foram lá e aprovaram o PL da dosimetria. E o Renan, ele ficou indignado porque, segundo o que ele ouviu e o que ele apurou ali dentro do Senado, o Jaques Wagner teria pedido para esse pedido de vista ter sido reduzido para quatro horas. O que o Jaques Wagner nega. E aí, entra uma outra história que o governo teria entrado na articulação para aprovar logo de uma vez esse PL da dosimetria, em troca de o Senado aprovar também o projeto de lei sobre os benefícios tributários das empresas, que está tramitando há um tempão. Passou na Câmara, que tributa as bets finalmente e que enfim o Senado passaria esse projeto junto com a aprovação da dosimetria também. Também o governo nega essa articulação, mas é o que todo mundo no Senado está dizendo. E tem um ponto curioso nessa estratégia específica, caso ela tenha sido de fato uma articulação ali do Jaques Wagner, que é o líder do governo no Senado. É o seguinte: o Senado já tinha aprovado na Comissão de Assuntos Econômicos, com muita vantagem, a tributação das bets. Então não teria porque você fazer um acordo por isso, porque parecia que o Senado já estava muito disposto a votar isso favoravelmente. Então fica meio sem sentido. Eu até procurei Ministério da Fazenda, apurei com algumas pessoas lá para saber se o Ministério da Fazenda estava dentro dessa articulação para justamente aprovar o PL da Dosimetria junto com as bets. Isso daria para o governo 22 bilhões. Não é desprezível, mas o Ministério da Fazenda nega qualquer participação nisso. Eles obviamente queriam que fosse aprovado, mas assim dizem que não participaram de absolutamente nada, que foi decisão do Senado. Então agora tá naquela história muito recorrente no Congresso do filho feio, né? Quem é o pai, né? Foi o governo que articulou para que se votasse logo? Isso entra na conta do presidente da CCJ, que teria agido deliberadamente? O que eu acho bastante improvável. Ou entra na conta do Davi Alcolumbre, né? Eu tendo a achar pelas conversas que a gente tem tido, e ,que a gente tem discutido aqui, que tem uma situação entre governo e Davi Alcolumbre nesse momento, que é uma situação delicada. O governo quer bastante coisa do Senado. Ele quer a aprovação do Messias. Ele quer que o Senado toque muita coisa no ano que vem, que é um ano de eleição. Ele quer que o Senado seja esse anteparo às coisas que acontecem na Câmara. Então, assim, existe uma intenção do governo de agradar ao Davi Alcolumbre, de certa forma. E aí eu queria remeter a uma reportagem que a piauí publicou essa semana do Breno Pires, do João Batista e do Arthur Guimarães, no site da piauí, que fala sobre a delação, a proposta de delação do Beto Louco, aquele operador do PCC na Faria Lima que está foragido, né? E que, aparentemente, se ele cai, tem parte relevante da República que vai cair junto com ele. Ele está querendo fechar um acordo de delação e está com dificuldade em conseguir aprovar isso na PGR, né? Como a reportagem fala justamente sobre uma relação complicada dele com o Davi Alcolumbre, pela reportagem dá pra gente fazer uma leitura de que existe uma certa proteção ao Davi Alcolumbre, assim também nesse caso da delação do Beto. Tem muita gente querendo proteger o Davi Alcolumbre. Tem muita gente querendo beneficiar o Davi Alcolumbre e aparentemente o poder que ele adquiriu nesses últimos tempos ou sempre, né? Tudo indica que ele seja a figura por trás de toda essa articulação que envolveu o governo. E o que se sabe é que o governo precisa do Davi, quer muitas coisas do Davi Alcolumbre no ano que vem — que é um ano fundamental, um ano de eleição. Quem quer que esteja certo nessa história ou esteja falando a verdade, seja a turma do Jaques Wagner, do governo, seja o pessoal do Renan que não queria que esse projeto tivesse sido votado. O fato é que tudo leva a crer que o maestro disso foi o Davi Alcolumbre. Foi ele que ofereceu algo em troca para que o próprio governo entrasse nessa lambança humilhante.
Fernando de Barros e Silva: Essa orgia anti-republicana. Celso, vamos te ouvir sobre essa bola cantada.
Celso Rocha de Barros: Então Fernando, se você pegar o relatório do Esperidião Amin, que foi o cara que foi encarregado de dar um jeito dessa mutreta aí dar certo, você percebe algumas coisas interessantes. A primeira é que mesmo ele — que é bom repetir: estava na reunião de 30 de novembro de 2022 com todos os bolsonaristas pedindo golpe. Na plateia estava o cara que tentou explodir o aeroporto. Na plateia estava o chefe dos acampamentos golpistas em Brasília, que disse que a reunião foi transmitida por telão para os acampamentos golpistas. Tava lá o Espiridião Amin bonitinho. Ele quer a anistia para ele, antes de mais nada. — Pois bem, o Espiridião Amin deixa claro no relatório dele que os críticos do projeto que foi aprovado na Câmara tinham razão. Do jeito que foi aprovado, liberava para estuprador, liberava para um monte de outros criminosos. O Bolsonaro está tentando fugir da cadeia, abrindo a porta da cadeia para todo mundo. Então aquele cara todo que outro dia estavam dizendo lá no Complexo do Alemão, “eu falei isso aí tem que matar os bandidos”, para se livrar da cadeia, esses caras tentaram abrir a porta da cadeia para geral. E o próprio relatório do Esperidião Amin diz “bom, esse é um efeito mesmo do projeto como foi aprovado, vamos tentar corrigir isso aqui”. E aí eu vou dizer uma coisa que eu achei bem jogada pelo Esperidião Amin, achei well played. Porque ele como fazer um relatório aqui na Comissão de Constituição e Justiça, ele tem que dizer inclusive que o projeto é constitucional. E aí uma coisa que ele fez que eu achei bem jogado foi dizer que na Constituinte teve uma votação sobre se crimes contra a ordem constitucional poderiam ser anistiados, etc e tal. E ele puxa lá o voto da esquerda dizendo que deveriam poder. E ele cita explicitamente o voto do PT dizendo que não, que tem que distinguir nesses golpes militares vagabundos entre elites. E se um dia houver uma insurreição popular, etc e tal. Agora, se você for um jovem bolchevique pensando em fazer uma revolução e contando que um dia o Esperidião Amin vai tentar anistiar você, eu sugiro mais ceticismo da sua parte, entendeu? Porque, eu repito, ele estava lá na reunião dos 30 novembro 2022. Ele queria me botar no pau de arara e eu sou um social democrata pelego. Você imagina o que ele queria fazer com você, jovem bolchevique? E aí, finalmente, qual foi a saída do Esperidião Amin para tentar evitar que a dosimetria abrisse a porta da cadeia para todos os criminosos? Ele acolheu uma proposta do Moro dizendo que esse projeto só se aplica aos acusados de 8 de janeiro. Eu sei que tem um debate entre juristas sobre isso, mas eu pessoalmente acho muito estranho que isso possa ser discutido a sério, porque, olha só, o Congresso tem o poder de dar anistia. A anistia pode ser dada a crimes específicos. Então, você pode dizer: “esses caras aqui cometeram um crime pela lei brasileira. Porém, devido a certas circunstâncias atenuantes, a gente vai dar anistia para esse cara”. A lei que eles desrespeitaram continua valendo. Só que nesse caso específico, a gente acha que não devia ser aplicado. Agora, o que eles estão querendo é fazer uma mudança de lei só para os caras que fizeram um crime específico, os crimes do 8 de janeiro. E isso me parece muito estranho. Então, por exemplo, se eu chegar amanhã no Congresso e dar um soco na cara do Marcel van Hatten, eu vou ser acusado de agressão com toda razão e tenho que ser preso, entendeu?
Fernando de Barros e Silva: Há controvérsias, hein? Você deve ser.
Celso Rocha de Barros: Não. O Congresso teria o direito de votar uma anistia para mim. Ia dizer “não, não, não pode bater em ninguém. Mas nesse caso específico, podia bater no van Hatten, pode fazer uma anistia”. Agora, eu acho muito estranho que eles criem uma lei sobre bater na cara do van Hatten, entendeu? Que diga assim: “se você bater no van Hatten, não se aplica aquela lei geral sobre bater na cara dos outros. Tem uma lei específica para o Celso que quis bater no van Hatten”. Isso me parece bastante irregular. Não sei não, entendeu? Sei que tem juristas que dizem que isso é complexo, etc. Mas eu, pessoalmente acho muito estranho. A anistia sim, pode ser aplicada a casos específicos, mas uma lei, uma lei que vale para um dia, o 8 de janeiro, uma vez que vale para aquele grupo de pessoas que estava nesse lugar específico nesse dia. Eu acho que isso é muito esquisito.
Fernando de Barros e Silva: É um baita casuísmo, né?
Celso Rocha de Barros: E a picaretagem maior é o Esperidião Amin dizer que isso aí é só uma mudança de redação do projeto que veio da Câmara. Quer dizer, não é óbvio que o Paulinho da Força não queria soltar todo mundo. “Óbvio” é você que tá dizendo Espiridião Amin. Não vi isso aí não. E é óbvio que não era o propósito da Câmara de querer soltar todo mundo. Novamente, Esperidião, você que explica aí por que isso é óbvio? Porque para mim não foi óbvio. Então, como isso é óbvio, a gente esclarece que foi só para 8 de janeiro e pronto. Foi só uma mudança de redação. Então, não precisa voltar para a Câmara para ser votado. Isso tá grotescamente errado. Por muito menos as coisas têm que voltar para a Câmara. Olha o nível de mudança! Tem uns caras que seriam beneficiados pela lei, agora não vão ser. Isso não é mudança de redação. Então, assim, evidentemente, essa mudança que ele fez deveria voltar para a Câmara para ser debatida, mas não vai, porque, enfim, os cara lá da direita fazem o que eles quiserem, né?
Ana Clara Costa: É, tem aquela história que esse assunto é para ficar enterrado esse ano, né?
Celso Rocha de Barros: Pois é, entendeu?
Ana Clara Costa: E eles usam um trator para isso.
Celso Rocha de Barros: Mas é uma falta de vergonha na cara impressionante.
Fernando de Barros e Silva: Sim. Ana, mais alguma coisa?
Ana Clara Costa: Só para concluir, o Lula disse publicamente, depois da aprovação do PL, que vai vetar. E aí, tem uma questão que envolve um veto presidencial em ano de eleição, que é uma coisa de certa forma arriscada, né? Até que ponto ele vai estar disposto a pagar o que se quer por esse veto e ele ter esse veto derrubado num ano de eleição em que há acordo sendo feitos, coalizões sendo montadas, muito toma lá, dá cá acontecendo… Até que ponto você ter um veto derrubado te fragiliza ou não? Então assim, ele disse que vai vetar. E eu acho que seria muito estranho e muito incoerente da parte dele não vetar, né? Agora, o que esse veto vai trazer de fragilidade para o governo dele num ano de eleição? Isso a gente vai ver no ano que vem, né? Até que ponto eles vão estar fortes o suficiente para bancar esse veto.
Fernando de Barros e Silva: É, nesse caso, eu acho que não tem muita alternativa. Isso já está, de certa forma, precificado pelo Congresso. Lula não tem alternativa a não ser vetar. Posso estar sendo ingênuo aqui. Não sou político. Ainda bem. Não teria estômago.
Ana Clara Costa: E também na terça-feira, que foi antes de o Senado aprovar esse projeto na CCJ, O Alexandre de Moraes se manifestou durante a votação no último dia de julgamento do inquérito do golpe, na terça-feira, em que o Felipe Martins foi condenado. Enfim, uma galera foi condenada. Ele se manifestou sobre o assunto da redução da pena, se dizendo contrário. Ele não fez uma menção específica ao PL, mas fez uma menção específica ao tema e se disse contrário, numa sinalização ali de que ele não defenderia isso.
Fernando de Barros e Silva: De que ele está falando uma coisa em público e se fazendo outra em privado, numa sinalização.
Ana Clara Costa: Bastante plausível.
Fernando de Barros e Silva: É isso. Bom, a gente vai encerrando o primeiro bloco do programa, fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós vamos falar da eleição no Chile, da América Latina. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vou começar com você. A vitória do Kast era previsível. Ele não chegou na frente no primeiro turno, mas todas as projeções já davam uma vitória folgada para ele, que foi o que aconteceu. Ele, que havia perdido já na eleição anterior, em segundo turno para o Boric. Enfim, a extrema direita já era o outro polo da política chilena, a exemplo do que acontece em várias partes do mundo e na América Latina.
Celso Rocha de Barros: Fernando, o Chile sempre foi considerado, junto com Uruguai, a democracia mais estável da América do Sul. E sem dúvida nenhuma, eles tinham até pouco tempo o sistema partidário mais parecido com o sistema partidário europeu, por exemplo. Tinham partidos bastante sólidos que tinham uma história anterior a ditadura Pinochet. O Partido Socialista chileno é um dos partidos de história mais sólida do mundo provavelmente. Mas eles passaram por aquela crise grande em 2019. Eles tiveram lá como se fosse um 2013 dele, uma crise de legitimidade. E aí, se me permite contar. Em 2016 eu fui no encontro da Latin American Studies Association, Associação de Estudos Latino Americanos, para falar sobre crise política na América do Sul. E aí era um chileno, eu, uma venezuelana.
Fernando de Barros e Silva: Em 2016?
Celso Rocha de Barros: Em 2016. Então o chileno foi lá e falou que estava tendo uma grande perda de legitimidade dos partidos chilenos, que tava tendo muita abstenção eleitoral, muita gente que não se identificava mais com nenhum dos partidos, o que no Chile era uma novidade, porque tinha aquela coisa que nem em democracias mais sólidas tem famílias socialistas. As famílias do partido de direita, então, tinha uma identificação forte com os partidos anteriormente e estava declinando rapidamente isso que ele estava chamando de crise política. E aí eu para falar de impeachment, já na hora eu olhei para ele com uma cara assim “você chama isso de crise política, né, cara?”. Pô, eu falei lá sobre impeachment e aí quando eu acabei, a especialista da Venezuela me olhou com uma cara assim “você chama isso de crise política, né?”.
Fernando de Barros e Silva: Mal sabíamos que estava a onda se armando. Vocês falando e aquela onda, como é que chama aquela praia em Portugal que é o tamanho daquela onda?
Celso Rocha de Barros: Nazaré lá.
Fernando de Barros e Silva: Nazaré. E a onda de Nazaré se formando.
Celso Rocha de Barros: Exatamente. E o chileno tinha razão de prestar atenção naquilo, porque em 2019 teve uma crise política grande de legitimidade do sistema. O Boric foi eleito nessa onda de insatisfação anti-sistemica. Essa eu acho que a grande diferença do Chile para país como o Brasil nos últimos anos, 2013 deles teve ramificações partidárias, teve ramificações políticas. O 2013 deles elegeu o presidente, entendeu?
Fernando de Barros e Silva: Foram manifestações muito grandes.
Celso Rocha de Barros: Muito grandes!
Fernando de Barros e Silva: Parou o país, virou o país do avesso, morreu gente, enfim.
Sonora: E, por outro lado, no Brasil, 2013 foi aqueles protestos imensos, gigantes, e na eleição 2014 não teve impacto nenhum. É um caso bastante curioso dentro da política sul-americana recente. Agora, com o Kast, ele tem uma diferença grande para os outros de extrema-direita aqui do Cone Sul. Ao contrário do Bolsonaro, do Milei, enfim, vai ter um pessoal dizendo que o Milei não é extrema-direita. Pode se discutir. Mas ao contrário desses caras, ele tem zero reivindicação de se chamar de outsider. A trajetória do Kast é muito mais politicamente sólida. Já é a terceira vez que ele foi candidato a presidente. Ele construiu um partido para ele. O que o Bolsonaro, por exemplo, nunca conseguiu fazer. E o partido Milei também é meio palhaçada, mas ele construiu um partido. O partido tem diretórios municipais, tem em todos os lugares do Chile. Ele fez um trabalho de construção de base e ele agora, nessa eleição, ele se apresentou, como bem disse você, com um discurso bem mais moderado. Você compra esse discurso ou não, né? Enfim, cada um vai ter sua opinião. Mas o discurso dele, ele percebeu o seguinte: nos últimos anos, desde esses grandes protestos, o Chile teve dois plebiscitos para aprovar novas constituições. Uma proposta pela esquerda e uma pela direita, e as duas perderam. E houve uma mudança importante no Chile nos últimos anos, que foi a adoção do voto obrigatório. O voto obrigatório trouxe para o eleitorado chileno um monte de gente que não se identificava com nenhum daqueles partidos anteriores. Então, esse pessoal não está tão interessado assim nessas disputas ideológicas tradicionais que marcaram a democracia chilena. Eles querem os resultados meio imediatos para a crise, como, por exemplo, segurança pública. Então, o Kast que é um político cuja trajetória de extrema-direita, ele se apresentou na campanha como um cara mais moderado. Então, por exemplo, eu conversei com a professora Talita São Thiago Tanscheit, que é cientista política, estuda a esquerda sul-americana, e ela falou que na última eleição o calcanhar de Aquiles do Kast tinha sido o voto feminino, porque ele tinha uma pauta de costumes muito forte contra aborto, enfim, contra o feminismo, etc. Diz que esse ano ele não falou nada disso, ficou quietinho sobre isso, falou sobre segurança e migração. A migração no Chile é basicamente imigração de venezuelanos e o Kast pegou esse repertório da extrema-direita europeia, mas ele não quis abrir a boca para falar de temas controversos de guerra cultural, porque ele sabe que só uma das coisas que fez ele perder na última eleição. Ele não quis se apresentar como radical dessa vez. Ele quis justamente falar para esse novo eleitor, que veio pelo voto obrigatório, que não está interessado nisso, que está interessado no fato que a política econômica do Boric não foi tão bem sucedida assim, que a segurança pública parece estar saindo de controle. Quer dizer, o sair de controle de lá é muito melhor que daqui. Mas enfim. Então teve toda essa nova roupagem aí do Kast nessa eleição que agora a gente vai ver o quanto isso era de verdade, né? E ele tava basicamente mentindo em campanha e agora vai radicalizar. Tudo é possível, não tem como travar nesse momento. Aí é bom lembrar o Boric, o principal fato do governo dele foi a derrota da Constituinte.
Fernando de Barros e Silva: Eu fui a posse do Boric, né?
Celso Rocha de Barros: Ah é? Pois é, você escreveu na piauí.
Fernando de Barros e Silva: Eu assisti, foi uma coisa bem bonita e depois dos levantes eles fizeram uma Constituinte. Constituinte, que foi eleita com muitos candidatos avulsos, uma esquerda alternativa, minorias, representantes indígenas. Era uma coisa muito interessante, muito nova. Só que ela tinha um plebiscito de saída, como eles falam. A Constituinte teria que ser aprovada pela população e o Boricjá estava eleito. Quando isso aconteceu e ela foi rejeitada por grande margem pela população ali foi um revés brutal. Aí depois teve a outra tentativa de Constituinte também. E a Constituição do Chile ainda era a do Pinochet ainda.
Celso Rocha de Barros: Ainda é!
Fernando de Barros e Silva: Ainda é a do Pinochet. Exato. Ainda era e ainda é. Então você tem aí um passivo, uma coisa, um nó para desatar gigantesco, né?
Celso Rocha de Barros: Exato. Com a derrota da Constituinte, o Boric deixa de ser um cara antissistema que chegou lá para fazer uma mega transformação e passa a ter que governar como um governante normal. E isso nunca deu muito certo. Conversando com o pessoal que acompanha o Chile, disse que houve uma crise de identidade ali da esquerda chilena mesmo. Uma dúvida sobre que eleitorado a gente tem que buscar, qual é o nosso discurso, etc. Visto que a gente não emplacou a Constituinte. Então, por exemplo, a Talita, com quem eu conversei, disse: no caso do Lula, ele sabe. Ele tem uma base muito forte no eleitorado até dois salários mínimos. E ele sabe que para ganhar, ele precisa conquistar o pessoal de dois salários mínimos e meio até cinco. E nada disso tinha. No caso da esquerda chilena, eles não sabiam bem para onde expandir. Eles tentaram adotar um discurso de segurança mais semelhante ao da direita num certo momento. Não é tão semelhante assim, mas com algumas semelhanças… Também não deu certo, não emplacou. Então, realmente, depois da Constituinte, ele fica sem discurso, fica um governo um pouco mambembe, que, no entanto, teve reivindicações. Ele conseguiu tornar o sistema de aposentadorias do Chile mais generoso. Foi uma reforma da Previdência ao contrário do que costumam ter, a Previdência do Chile era muito restritiva. Ele conseguiu aumentar um pouco a cobertura, conseguiu fazer uma mudança em jornada de trabalho, que é sempre uma coisa muito difícil. De modo que foi um governo de esquerda moderado, razoável. Mas ele não conseguiu estabelecer essa base de apoio popular.
Fernando de Barros e Silva: E com coisas muito novas, interessantes. Mais da metade do ministério era formado por mulheres.
Celso Rocha de Barros: Exato.
Fernando de Barros e Silva: As questões de gênero e de minorias estavam muito contempladas. Ele era muito intransigente em relação a direitos humanos e ditaduras de esquerda também. Ele sempre se opôs ao Maduro, sempre teve um discurso ambientalmente avançado. Enfim, tinha muitos ingredientes interessantes. Não deu certo.
Celso Rocha de Barros: Pois é. Deve se ter muita gente na esquerda mesmo que acha que houve excessos. Nas propostas da Constituinte, nessa linha, por exemplo, um negócio de mudar o nome do Chile para República Plurinacional e reconhecer cada etnia indígena como uma nação dentro do Chile, como se não me engano, acontece na Bolívia. Isso foi muito impopular. Assim a direita chegava e dizia “os caras, querem mudar o nome do país, querem acabar com o Chile”, entendeu? Uma ideia ser mais inclusiva, mas acabou excluindo muita gente que não se sentiu representado por isso. Mas foi, enfim, uma derrota grande do Boric. Eu achei até que ia ser maior, porque no primeiro turno, se você somasse o voto dos candidatos de direita, era um negócio quase todo mundo e que realmente vai ter que levar uma reflexão aí para o sul-americano, porque, em tese, esse pessoal da esquerda chilena, muita gente achava que eram os melhores caras da esquerda continental, então é realmente uma derrota que vai ter repercussões aí para discussão dentro da esquerda continental.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana Clara, temos um pacotinho aí com você. Vamos falar do Kast, do Brasil e da Venezuela, que eu já sei que você já me cantou a bola.
Ana Clara Costa: Bom, o Kast eu vou ser muito breve, só para dizer que ele é um pacote assim muito… Mais típico impossível, né? De extrema-direita. O pai dele foi ex-soldado do exército do Hitler. O irmão dele foi presidente do Banco Central do Pinochet. Ele defendia o Pinochet nos anos 80, quando ninguém defendia o Pinochet, quando estava desmoronando a ditadura.
Fernando de Barros e Silva: Só o Paulo Guedes que trabalhou lá.
Ana Clara Costa: Exato. Então, assim, quando ninguém defendia o Pinochet, quando não estava na moda.
Celso Rocha de Barros: Por isso caiu o Pinochet. O Paulo Guedes foi trabalhar lá.
Ana Clara Costa: E Celso, você tem razão quando você fala que ele deu uma suavizada no discurso nessa eleição. Mas realmente foi uma suavizada, porque o histórico dele é péssimo e desesperador. Ele é contra pílula. Ele acha que as mulheres não tem que usar nenhum método contraceptivo, inclusive ele pratica isso. A mulher dele nunca tomou e por isso eles tem nove filhos. Enfim, ele é totalmente anti-aborto, assim até em casos de estupro. E em 2022, ele virou presidente de uma associação anti-aborto que defende também o “casamento estritamente heterossexual”. Ele congrega todo o pacote radical em todos os sentidos. E aí, dentro da campanha dele, quem será que ele se inspirou? O mote era “Chile primeiro”.
Celso Rocha de Barros: Opa, quem será né?
Fernando de Barros e Silva: Ele teve contato com o Eduardo Bolsonaro lá atrás. O Eduardo Bolsonaro foi para lá ou ele veio para cá?
Ana Clara Costa: Eles participam da CEPAC, né? Eles ficam fazendo tour pelo mundo nas CEPACs do mundo e ele inclusive foi um crítico do Lula em todos os momentos. Defendia o Bolsonaro, atacava o Lula nas redes sociais, um pouco como Milei fazia também. E quando ele faz a campanha dele, que ele passa a esquecer convenientemente todas essas pautas que dividem a sociedade e passou a focar na segurança pública, ele também passou a se aproximar do Bukele e defendeu a segurança pública e o fim da imigração e a expulsão de imigrantes e tal. Isso foi meio que o mote da campanha dele.
Fernando de Barros e Silva: Eu acho que neste capítulo a gente pode ter retrocesso bem grande, porque a polícia chilena, os carabineiros, que a polícia de elite, a polícia chilena é uma polícia violenta. Nas manifestações foi bastante violenta. E é uma polícia que tem uma inserção institucional enorme. Tanto que a Junta militar, quando Pinochet foi derrubado em 73, a Junta Militar eram os três comandantes das forças Exército, Marinha, Aeronáutica e o líder dos carabineiros Eram quatro caras. Os carabineiros eram da Junta Militar. Daí o Pinochet deu um golpe na junta e ficou ele, porque era para ter um sistema de rodízio no começo, né? É só um parêntese e tem muito conflito agrário no Chile ainda os Mapuche na parte sul do Chile. Eu acho que você pode ter aí uma regressão mesmo grande no Chile em relação a esse negócio de imigração e segurança pública.
Ana Clara Costa: É, o que as pesquisas mostram é que houve um aumento expressivo da percepção da população chilena em relação ao aumento da violência. E uma pesquisa recente do Instituto Ipsos mostra que 60% da população chilena quer que o governo priorize o combate à criminalidade. Então ele foi direto no que as pessoas dizem que querem, né? E uma outra pesquisa interessante é uma pesquisa do Instituto chileno Mori, que faz um levantamento desde 95 sobre o sentimento da população chilena a respeito da ditadura. E essa pesquisa mostra que nunca a percepção da população foi tão favorável à ditadura como foi na última leitura que foi feita, que foi em 2023. Em 2023, 42% dos chilenos viam a ditadura Pinochet como algo ruim, sendo que esse número já foi de 68%. Ou seja, está na mínima histórica a crítica à ditadura desde 95, que é quando a pesquisa começou a ser feita. E quem via a ditadura como algo que livrou o Chile do marxismo era de 19% em 2006 e em 2023 chegou a 36%. Então, tá quase pau a pau quem acha que a ditadura é boa e quem acha que a ditadura é ruim. 42 e 36 não é muita diferença. Então, mostra um país dividido. E nem por isso todos os nomes da direita defendiam o Pinochet como o Kast, né? Mas mostra um pouco que a população tá vendo esse tema da ditadura de uma forma meio revisitada para o mal, no caso.
Celso Rocha de Barros: E para ver como mudou quando o Bolsonaro foi no Chile, elogiou Pinochet, o presidente de direita do Chile…
Ana Clara Costa: Pineda.
Celso Rocha de Barros: Protestou. Falando: “Não, não, não, não tem que elogiar Pinochet”.
Ana Clara Costa: Exato.
Fernando de Barros e Silva: Sim, tinha uma linha vermelha que não dava para ultrapassar.
Ana Clara Costa: Exato. Agora, falando do Brasil, né? Tem algumas questões em relação a esse governo, né? Primeiro, eu acho que o Kast já disse a que veio quando no dia seguinte da eleição, ele vai para a Argentina conversar com Milei e eles fazem aquele vídeo lamentável, aquele meme lamentável que Milei publica e tal. Até ficou meio infantil, né? Essa ida assim, numa atitude um pouco de reagrupamento político contra o Brasil, né? A favor dos Estados Unidos, a favor da direita. Somos a direita, estamos contra o Brasil. Isso ficou meio infantil. Ele não precisava ter ido no dia seguinte. Ficou parecendo uma coisa meio que.
Celso Rocha de Barros: A moderação durou menos de um dia, né? Quer dizer.
Ana Clara Costa: E o Brasil é o terceiro maior parceiro comercial do Chile. A China é o primeiro. Ou seja, ele depende bastante do Brasil. Eu quero ver como é que o governo dele vai fazer com a China. Ele vai dizer “não para esses comunistas, desses comunistas eu não compro, para esses comunistas, eu não exporto não”.
Fernando de Barros e Silva: Isso vai prevalecer, né? É óbvio que vai comprar e vai exportar.
Ana Clara Costa: Que é o que o Milei também faz, né? Critica, critica, mas come na mão do XI Jinping, né? E depois o que ele disse a respeito da Venezuela, de que se houver uma ação militar na Venezuela, ele apoia. Entenda-se ação militar como uma invasão. Já indica uma submissão de cara, sem pedir nada em troca aos Estados Unidos, assim. Agora, em relação ao Brasil, como eu falei antes, ele deu várias declarações contra o Lula em vários momentos. Então fica muito difícil para o Lula agora fazer qualquer movimento de aproximação. Seria preciso, da parte dele, uma sinalização, um gesto para que o Lula ligue para ele, por exemplo, porque o Lula deu parabéns para ele quando ele se elegeu e tal, institucionalmente, numa nota. Mas assim, ligar e promover algum tipo de encontro? Nada disso está na pauta. Não se sabe nem se o Brasil vai ser convidado para a posse. Se for convidado e o Kast não tiver feito nenhum gesto, o Lula obviamente não irá. Talvez mande o Chanceler, mas obviamente não irá. Então assim ainda a relação está bem complicada, embora haja uma forte troca comercial entre os dois países, sobretudo do Chile, importando coisas do Brasil e precisando importar coisas do Brasil, né? E assim, já que a gente está falando da conduta do Kast em relação à Venezuela, é um complicador, né? É claro que Milei ou Kast não tem nem a destreza diplomática nesse momento de atuar em benefício ou contra a Venezuela, né? Eles não tem força suficiente nem para ser contra, nem para prejudicar. Mas como as coisas estão se agravando, teve o bloqueio marítimo. O Conselho de Segurança da ONU convocou uma reunião para tratar do tema na semana que vem. O Maduro acionou o Conselho de Segurança da ONU depois que houve o bloqueio marítimo. O Trump fica soltando essas ameaças de bastidor de que vai de fato fazer alguma coisa, etc. Então, assim, o nível de tensão está muito alto e é claro que você não precisa de mais ninguém para colocar pólvora nisso, né? E o Kast como uma das primeiras declarações ter dito que aceita uma invasão é, enfim, no mínimo, indigno.
Fernando de Barros e Silva: O Chile, de fato, o governo do Allende foi um experimento democrático e socialista. Ele nacionalizou pela via democrática, com o Congresso funcionando, etc. Ele nacionalizou o cobre, acelerou a reforma agrária. Ele foi eleito em 70. O mandato dele iria até 76. Eram seis anos mandato e ele foi derrubado em setembro de 73. Tem uma história curiosa. Fidel Castro visitou o Chile, não sei se em 71, eu acho.
Celso Rocha de Barros: Foi.
Fernando de Barros e Silva: Ia ficar uma semana, algum tempo que acabou se estendendo.
Celso Rocha de Barros: Não ia embora.
Fernando de Barros e Silva: Não ia embora. E ficou. E começou a criar tensões e constrangimentos nas Forças Armadas chilenas. A presença do Fidel Castro era incômoda, em determinado momento. Quando ele enfim foi embora, depois de semanas, ele deixou um presentinho na mesa do Allende. Allende abriu, era uma metralhadora, uma submetralhadora com um bilhetinho que dizia o seguinte. Mais ou menos o seguinte: para o Salvador, que acredita nas mesmas coisas que eu, mas por vias diferentes. Porque o Salvador era… Ele queria que o Salvador pegasse em armas. O Salvador Allende era um democrata, era um socialista democrata de fato. Bom, encerramos esse bloco. Rendeu mais do que eu imaginava. Encerramos o segundo bloco por aqui, fazemos um rápido intervalo. Vamos falar do Rio de Janeiro na volta. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Ana Clara, vamos começar com você. Não sei como é que você vai organizar isso da prisão do TH Joias, a chegada da investigação ao TRF 2. Enfim, é uma novela do submundo aí, pesada.
Ana Clara Costa: Primeiro eu queria dizer a gente sempre se pergunta por que no Rio de Janeiro a gente sabe que o crime está em todos os lugares, que o crime está dentro de todas as instituições, praticamente, mas ninguém consegue investigar, as investigações não conseguem ir para frente… Por que né? E eu acho que esse episódio específico envolvendo o Rodrigo Bacelar, agora ex-presidente da Alerj, o desembargador Macário Júdice e o TH Joias, deputado estadual, eu acho que são emblema de como que funciona esse esquema de vazamento de informação para que a impunidade continue. Queria pegar o caso específico do TH Joias, né? O nome dele é Thiego Raimundo dos Santos Silva e ele foi eleito pelo MDB em 2022. O TH Joias é filho de um ourives conhecido em Madureira e ele acabou herdando o ofício do pai. Ele é jovem, ele tem 36 anos. Começou a trabalhar como ourives com 19, e ele fez uma mudança substancial nos negócios do pai dele, porque ele passou a fabricar aquelas correntes de ouro tipo ostentação, sabe? Com aqueles pingentes enormes?
Celso Rocha de Barros: Vários quilos!
Ana Clara Costa: Exato. Sei lá, fazer um agachamento com aquilo você queima muita caloria. E aí, ele começou a vender essas correntes para chefe de morro, para o pessoal do funk, para o Adriano Imperador, para o Neymar, Vini Jr. Enfim, ele virou o rei das correntes. Até depois a polícia descobriu que esse ouro parte desse ouro que ele fazia essas correntes era roubado, tá? Só para caracterizar nosso personagem. E também a polícia, mais ou menos em 2024, começou a investigar e descobriu que essa proximidade dele com os chefes de morro envolvia muito mais do que vender corrente. Ele participava do tráfico, ele vendia drone, ele vendia outros equipamentos ou intermediava a compra de outros equipamentos para o tráfico. E começou a ser investigado e denunciado. Isso quando ele já tinha sido eleito deputado. Eu queria falar um pouco sobre como ele chegou na política. O Marcos Falcon, ex-presidente da Portela, ex-PM, quem notou o potencial político do TH Joias, segundo o repórter Marco Antônio Martins, do G1, que contou nO Assunto da Natuza Nery, inclusive ouça O Assunto sobre esse assunto que tá muito bom.
Celso Rocha de Barros: Muito bom!
Ana Clara Costa: Foi ele que, em tese, teria visto o potencial político no TH Joias. E aí, quem que é o Falcon, né? Ele era um ex-policial envolvido até o pescoço com a contravenção. Ex-dirigente de escola de samba, foi assassinado quando era candidato a vereador. Os principais suspeitos do assassinato dele são o Rogério Andrade e a turma dele, que é o bicheiro herdeiro do Castor de Andrade. Então, assim, para o Falcon dizer que você tem potencial político, você entende o que é potencial político nesse caso, né?
Celso Rocha de Barros: Para fazer o quê, né?
Ana Clara Costa: Para defender o quê exatamente, né? Teve 15 mil votos. Não se elegeu logo de cara, mas acabou assumindo a suplência quando o deputado Ottoni de Paula morreu no ano passado. Só que no ano passado ele já era investigado e ele tava tão enrolado que ele precisou de um habeas corpus para garantir o mandato dele. E o que me deixa chocada nisso tudo é o MDB achar isso normal, né? Você ter um candidato com essas características, o partido não faz nenhum tipo de análise? Não sei, sei lá. E aí ele conseguiu assumir. Graças a esse habeas corpus e o MDB não fez nada. Tá tudo certo. E uma característica interessante desse cara que ele tinha bons contatos em todas as facções. Não era uma coisa só Comando Vermelho… Era tudo! É Comando Vermelho, é Terceiro Comando, é milícia. Ele era aquele típico boa praça carioca. E aí, obviamente, quando tem a operação contra ele, né? Finalmente tem a operação contra ele. Ele é avisado pelo Rodrigo Bacellar, que era o presidente da Alerj e que, por sua vez, a suspeita é de quem avisou Rodrigo Bacellar que haveria operação foi o desembargador Macário Júdice, que foi afastado, foi preso. E aí a gente vê nessa situação como que as coisas não acontecem no Rio e porque elas não acontecem. Como foi avisado antes, ele conseguiu dar fim em muita coisa e por isso o Rodrigo Bacellar acabou sendo afastado por obstrução de Justiça, porque ele impediu que a Justiça cumprir seu papel com TH Joias. E aí a gente vê o que poderia ter sido coletado, né, e que não foi. Mesma coisa o caso da Marielle, né? Quando conseguiram de fato pegar alguém ou fazer uma operação sobre aquilo, já tinha se passado tanto tempo que quem que conseguiria reaver alguma prova? Então é um modus operandi, de certa forma, aqui no Rio de Janeiro. E também depois se descobriu que o TH Joias tinha muitas conexões na PM, tinha várias pessoas na PM que vazavam coisas para ele e ele avisava, por exemplo, no Morro do Alemão, chefes do morro que teria a operação para o chefe saírem. Vale dizer que isso não foi para essa última operação que teve. Mas fica o questionamento aqui né? Se ele sempre avisava o chefe do morro das operações que tinha lá, por que para essa ele não avisaria? Ele não avisaria porque ele estava preso quando a operação aconteceu, mas assim poderia também ter avisado, entendeu? Então, eu acho que tudo isso que aconteceu mostra como é o esquema, né? E o Rodrigo Bacellar nem se fala. É um cara que surgiu na política junto com o Cláudio Castro, ou seja, ontem.
Celso Rocha de Barros: Sim.
Ana Clara Costa: Então, tudo isso é obra do Witzel, no fim das contas, né? E é um cara que surgiu na política e já virou presidente da Alerj, né? Por aí você já vê assim. Não existe isso. Você assumir como deputado e logo de cara virar o presidente da Assembleia Legislativa. Então, assim, as concessões que tiveram que ser feitas para que ele fosse alçado a esse cargo a gente já imagina também. O Rodrigo Bacellar é um cara que é investigado junto com o Cláudio Castro por compra de votos na última eleição. Rodrigo Bacellar, Cláudio Castro, desembargador, todos amigos. Embora tenha havido uma ruptura entre o Bacellar e o Cláudio Castro recentemente, que inclusive se descobriu na investigação que o desembargador tava querendo desenrolar isso. Ele tava querendo fazer os dois ficarem amigos de novo.
Fernando de Barros e Silva: Vamos lá, Celso. Quem precisa de Brasília tendo o Rio de Janeiro?
Celso Rocha de Barros: Pois é, Fernando. E aí eu queria propor ao ouvinte o seguinte a gente fez um programa que na época da operação no Alemão, em outubro, eu queria que você repensasse aquela coisa toda que aconteceu no Alemão, baseado no que a Polícia Federal descobriu agora, por dois aspectos. Em primeiro lugar, o que exatamente é o governo Cláudio Castro? E, em segundo lugar, pelo o que exatamente é a ADPF das favelas, que o Cláudio Castro desceu o pau junto com todo mundo de direita, dizendo que era aquilo que impediu o combate ao crime no Rio de Janeiro. Vamos começar pelo Cláudio Castro. O Bacellar, esse cara que foi preso porque avisou que ia ter operação da polícia na casa dele. O Bacellar era o candidato do Cláudio Castro para o governo do Rio de Janeiro ano que vem. Eles tinham inclusive, combinado que o Cláudio Castro não pode mais concorrer à reeleição. Já tá no segundo mandato, então ele renunciaria ao governo em algum momento do ano que vem para se candidatar ao Senado provavelmente, que é o que ele quer. E o Bacellar, como presidente da Alerj, assumiria o governo estadual e concorreria a governador com a máquina na mão. Isso só deu errado porque, numa jogada meio esquisita, que ninguém entendeu muito bem, numa ocasião em que o Cláudio Castro viajou e o Bacellar assumiu como vice, o Bacellar demitiu unilateralmente, sem perguntar para ninguém, o Washington Reis, que é um político muito importante da Baixada e era secretário do Cláudio Castro. Então ali o Cláudio Castro e o Bacelar brigaram. Mas esse cara aí que vazou a operação da polícia contra o TH Joias, que vazava informação e é suspeito de vender armas, drogas o caramba para o Comando Vermelho. Esse cara que avisou o TH Joias era o candidato do Cláudio Castro para a eleição do ano que vem. E aí, agora que eu peço que você reflita sobre a seguinte informação: na operação do alemão, eles tinham 100 mandados de prisão e eles só prenderam 20. Quanto desses 80 receberam informação pelos TH Joias da vida, que por sua vez tem contatos com os Bacellares da vida, que por sua vez têm contato com o Cláudio Castro? Então, enfim, reflitam um pouco sobre os resultados daquela operação baseado nisso que a gente aprendeu agora, sobre quem é o Cláudio Castro.
Fernando de Barros e Silva: E mataram 117, que não era nenhum.
Celso Rocha de Barros: Mataram 117.
Fernando de Barros e Silva: Dos que tinham mandado que autorizou a operação, né?
Celso Rocha de Barros: Exato. Então, vai ficando mais esquisito essa relação do Cláudio com o Comando Vermelho aqui, entendeu? Você quer que esse cara aí seja o cara para combater o Comando Vermelho? O cara que o candidato dele à sucessão vazava informação para o deputado que tinha ligação com Comando Vermelho? Vocês querem que eu acredite que esse cara levou a sério o combate ao crime organizado no Rio de Janeiro? Eu não vou levar, até porque, e aí eu chego ao meu segundo item. Vocês viram, o Cláudio Castro não conseguiu dar entrevista sobre qualquer assunto sem falar mal da ADPF das favelas. E como a gente já falou aqui no programa, foi uma ação proposta pelo PSB, Partido Socialista Brasileiro, que tem uma equipe de juristas muito boas. Eles vivem entrando na Justiça para conseguir um monte de coisa. E eles entraram na Justiça durante a pandemia para exigir que as operações policiais do Rio de Janeiro obedecessem a certos critérios para tentar conter uma explosão de letalidade policial que vem acontecendo. A direita sempre diz que isso aí impediu a polícia de fazer operação nas favelas. Isso não é verdade. O número de operações subiu depois da vigência da ADPF, mas obrigaram a polícia a usar câmeras que, como a gente viu no Complexo do Alemão, a bateria da câmera acabava. Mas enfim, pelo menos a ADPF tentou botar a câmera na polícia. E o que essa operação atual chamou a atenção é o seguinte: a ADPF não era só para diminuir violência policial. Essa é a versão que o Cláudio Castro e os amigos bolsonaristas dele dão e que o Bacellar sempre deu. A ADPF também, no acórdão do Supremo que deu uma razão parcial lá para a ADPF, o Supremo exigiu que a Polícia Federal instaurasse inquérito e grupos de trabalho específicos, etc, para analisar não só o crime organizado no Rio de Janeiro, como as relações do crime organizado com as autoridades públicas. E foi no âmbito dessa investigação que só aconteceu por causa da ADPF das favelas, que pegaram o presidente da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, passando informação para um deputado com ligações com o Comando Vermelho de que a polícia ia bater na casa dele. Então, eu sugiro que você também leia de novo todas aquelas críticas à ADPF das favelas, levando em conta que ela levou a um acirramento do combate ao crime organizado na alta cúpula do poder do Rio de Janeiro. Então, quando você vê o cara lá dizendo a polícia não pode atirar em ninguém por causa da ADPF da favela, pergunte se se ele não está na verdade reclamando da ADPF ter resultado numa força-tarefa que agora investiga ligações de autoridades do Rio de Janeiro com o crime organizado.
Ana Clara Costa: Aquelas relações surpreendentes.
Celso Rocha de Barros: Exato. E que realmente nos chocaram. Ninguém imaginava que teria relações do crime organizado com as autoridades do Rio. Foi realmente um choque que eu jamais me recuperarei de imaginar: como é que pode ter um cara na Alerj, né, cara? De todos os lugares, na Alerj, o cara tem ligação com crime organizado? Não é possível. Esse mundo tá perdido. Não pode mais confiar na Alerj. Você não pode confiar em nada.
Fernando de Barros e Silva: É isso. Que desilusão! Bom, vou encerrar o terceiro bloco do programa. A gente faz um rápido intervalo e Kinder Ovo na volta. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Mari Faria, deixa eu ver sua cara. Como tá a Mari Faria? Aperta o botão da maldade aí, diretora!
Sonora: Então, meu amigo, minha amiga, que você foi ao banheiro hoje, não foi? E vai amanhã de novo, não vai? É exatamente assim a vida. Temos de enfrentar a criminalidade todos os dias, todos os dias combatê-la, todos os dias enfrentá-la, todos os dias agir para mudar essa situação.
Fernando de Barros e Silva: Não é o secretário da Polícia Civil, não é?
Ana Clara Costa: Parece estar falando numa rádio.
Fernando de Barros e Silva: Diretora, vamos ver. Ah, eu não ia acertar nunca! Quem fala é o deputado federal Júlio Lopes, em entrevista à Jovem Pan News. Eu vou ter que ouvir a Jovem Pan News agora para descobrir que a diretora… Foi uma homenagem ao submundo. A Mari aproveitou o terceiro bloco do programa e fez um Kinder afinado. A gente encerra o Kinder Ovo e hoje tem! Já estamos no fim do ano. Tem Momento Cabeção especial.
Sonora: Cabeção.
Fernando de Barros e Silva: Vou começar com quem? Ana quer começar? Celso?
Ana Clara Costa: Posso começar.
Fernando de Barros e Silva: Vamos lá, Ana.
Ana Clara Costa: Eu queria sugerir um filme: Oeste outra vez, do cineasta brasileiro Érico Rassi. É um filme que eu assisti no Festival do Rio e que estreou na Globoplay recentemente. E ele é com Ângelo Antônio, com Babu Santana. Enfim, fala de uma história de amor que acontece nessa Oeste outra vez, né? Uma alusão ao faroeste, ao meio oeste, ao centro-oeste, porque acontece em Goiás. A trama dessa disputa de dois homens por uma mulher, mas que também fala de muitas outras coisas disputas internas, entre eles a masculinidade, machismo, enfim, é um filme que eu gostei muito e eu gosto muito da fotografia do filme. Essa região da Chapada dos Veadeiros de Goiás é muito maravilhosa, então as atuações eu gostei bastante, a história gostei bastante e o cenário é deslumbrante. É isso.
Fernando de Barros e Silva: Vai lá Celso, vamos lá com você.
Celso Rocha de Barros: Eu vou recomendar um livro que eu ainda estou lendo, mas estou gostando bastante que tem um título um pouco heterodoxo que é Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It, que quer dizer, traduzindo, “Merdificação: por que tudo ficou pior e o que fazer sobre isso”.
Ana Clara Costa: Beber!
Celso Rocha de Barros: Exato!
Fernando de Barros e Silva: Merdificação, a gente vai adotar já.
Celso Rocha de Barros: Então é o autor canadense Cory Doctorow, que, para quem foi o blogueiro lá nos anos 2000, certamente conhece o cara. Ele é um dos grandes pensadores sobre a internet, é um crítico sério das big techs, etc. E o livro trata justamente da deterioração da qualidade dos serviços prestados por essas grandes empresas de internet. E ele começa justamente assim: Não é só você. O Google ficou muito pior mesmo. A Amazon ficou muito pior mesmo. O Facebook ficou incomparavelmente pior. E ele vai contando por que isso aconteceu. Então, assim ele vai mostrando. Esses serviços começam a oferecer um negócio realmente valioso para os seus usuários, conforme forma uma rede que passa a ser difícil você sair, aí ele passa a sacrificar você em benefício dos anunciantes e depois ele passa a sacrificar também os anunciantes em benefício deles mesmo. E no final você chega ao estágio final, que é a pilha gigante de merda, que é como ele classifica o atual estado do serviço dessas empresas. E os casos são meio chocantes. Então, por exemplo, o Google piorou de propósito a sua busca para você ter que fazer mais buscas. E ele vai dizendo Isso só é possível porque eles conseguiram uma série de dispositivos econômicos que ele descreve bem, tornar difícil você sair, entendeu? É muito difícil. A gente viu quando teve a crise do Twitter aqui com o STF. Eu, por exemplo, fui para o Blue Sky sair do Twitter no Blue Sky. No Twitter eu tinha muito mais seguidores, então perdi um monte de gente lá que lia o que eu falava. Ele vai mostrando que como eles sabem que isso existe, eles podem ir baixando a qualidade do serviço indefinidamente. Então, assim, eu achei muito interessante. Eu não sei como é que uma eventual tradução brasileira ficaria, né? Mas enfim, gostei.
Fernando de Barros e Silva: Muito bom! O problema é que merdificação dá pra usar pra muita coisa.
Celso Rocha de Barros: É, o pessoal acha que é uma questão de tempo até ser dicionarizado, né?
Fernando de Barros e Silva: Gente, eu vou dar algumas dicas aqui, Diretora. Fazer uma coisa…
Celso Rocha de Barros: Respirou fundo a diretora aqui.
Fernando de Barros e Silva: Primeiro, eu vou indicar um livro cuja primeira versão é de 2000 e acabou de ser relançado pela Editora 34. Chama “Cidade de Muros, Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo”, que é da antropóloga estudiosa Teresa Pires Caldeira. É um clássico sobre estudo da violência e segregação em São Paulo. Tem um capítulo primoroso sobre o massacre do Carandiru e ela aborda justamente o paradoxo que não é só brasileiro, mas que se configura muito claramente no Brasil da redemocratização ou da democratização do país e da resistência ou da existência de uma polícia que comete contra a população pobre, age praticamente na ilegalidade, comete crimes atrás de crimes. E o livro, não preciso nem dizer, é extremamente atual. Quem me indicou foi a Samira Bueno, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e realmente é muito bom. E estou lendo o livro Triste Tigre da Neige Sino, da Editora Amarcord. Esse livro traz o relato autobiográfico do período em que ela foi estuprada. Dos sete aos 14 anos, ela foi estuprada pelo padrasto. Mais tarde, já adulta, contou para a mãe e elas denunciaram. O cara foi preso e ela faz um relato muito impressionante assim, muito elaborado sobre isso, inominável, sobre essa experiência inominável, traumática e vale muito a pena. A tradução é da Mariana Delphine, que é uma excelente tradutora. Então é isso, eu recomendo. Eindico também, gente. Os livros da Yasmina Reza, que eu comprei e vou ler eu indiquei aqui um livro dela que chama “Felizes os Felizes”, que é um livro de historietas, minicontos sobre cenas do cotidiano e a Âyiné, que está lançando os livros dela no Brasil, lançou uma peça que se chama Arte e um romance que se chama Babilônia. Então fica a dica para quem quer uma coisa mais na seara da ficção. Só indiquei mulheres, hein? Hoje.
Ana Clara Costa: Fernando, só aproveitando que nossos ouvintes vão ter bastante tempo off, eu espero. A piauí divulgou no site essa semana, a lista de indicações de livros dos repórteres da revista. Eu não participo dela, mas eu vou.
Fernando de Barros e Silva: Mas tem 15 dicas, eu acho.
Ana Clara Costa: Eu vou me guiar por ela por esse feriado aí. Então fica a dica para vocês.
Fernando de Barros e Silva: Veja nas redes na página da piauí muito boa. Bem lembrado. Bom, encerramos assim Cabeção natalino de fim de ano e vamos para as cartinhas. O melhor momento do programa. O Momento de vocês. Eu começo com a mensagem do Rafael Nunes: “Sonhei com o General Braga Netto vestindo só de cap e o fio dental camuflado. Obrigado Casca de Bala”.
Celso Rocha de Barros: Foi mal.
Ana Clara Costa: Nossa Senhora! Celso, olha que você fez.
Celso Rocha de Barros: Você foi mal, gente!
Fernando de Barros e Silva: Rafael Nunes! Sonho divertido, hein? Que pesadelo!
Ana Clara Costa: A Mari me passou dois recados. O Iago Bezerra Pessoa postou: “Eu amo os meus três mosqueteiros analistas da política nacional brasileira. Amo e admiro Fernando Charme, Ana Elegância e Celso Inteligência imbatível”. Uau! Obrigada.
Celso Rocha de Barros: É isso aí.
Ana Clara Costa: E o Breno Carnevale escreveu: “Celso, conta pra gente quanto você ganhou com patrocínio da Tramontina. Nunca vi alguém com a língua tão afiada”. Tá se referindo ao episódio da semana passada que o Celso…
Celso Rocha de Barros: Posso ter me exaltado na semana passada, mas fazer o quê?
Ana Clara Costa: Foi definitivo.
Fernando de Barros e Silva: Muito bom.
Celso Rocha de Barros: A Andressa Parreiras está se esforçando por todos nós. Ela mandou: “Eu e meu grande amigo Lucas viemos passar umas semanas em Cuba”. Olha que legal! “Encantados por tudo e por todos, mas com acesso limitadíssimo a internet, quando por ventura encontramos wi-fi, priorizamos o mais importante: baixar os últimos episódios do Foro. Que alegria por ouvi-los e que tristeza por algumas notícias. De toda forma, seguimos juntos”. Pô, Andressa, valeu e obrigado também ao Lucas. Boa viagem para vocês! Aproveitem!
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. A gente encerra esse momento. Antes de encerrar o programa, eu quero convidar vocês para ouvir dia 26 de dezembro, já pós-ressaca natalina, o programa que a gente gravou com o cientista político professor titular da USP André Singer. Ele vai lançar um livro em meados do ano que vem sobre o fenômeno reacionário e o impacto dele no Brasil. O livro se chama Impasse. A gente conversou um pouco sobre o livro, um pouco sobre a conjuntura, um pouco sobre a eleição de 2026 e um pouco até sobre a história recente do país, né? Ficou bem legal. Acho que meus meus comparsas concordam.
Celso Rocha de Barros: Ficou sim.
Ana Clara Costa: Muito.
Fernando de Barros e Silva: Então é isso. Fica o convite para este programa pós-natalino com o grande André Singer, a quem a gente manda um abraço. Assim, a gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir a gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você encontra a transcrição do episódio no site da piauí. O Foro de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é do Gilberto Porcidônio. A edição é da Bárbara Rubira e da Mari Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro, do Danny Dee, no Rio de Janeiro. Eu me despeço então dos meus amigos, comparsas, companheiros. Tchau, Ana.
Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal! Feliz Natal, pessoal!
Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.
Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando! E um Feliz Natal para todo mundo.
Fernando de Barros e Silva: É isso, gente! Apesar da dosimetria, apesar da Alerj, apesar da de extrema-direita chilena, Feliz Natal para todos nós! Para vocês. Agente se vê ainda no programa do dia 26. Uma ótima semana a todos e até a semana que vem.
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