tempos da peste

A vida nas favelas

Como três comunidades – em São Paulo, Rio e Recife – enfrentam a pandemia

Eduardo Matos de Alencar
23abr2020_15h35
Movimentação de moradores da Rocinha –
Movimentação de moradores da Rocinha – Fotos de Fábio Teixeira

Quando a pandemia se anunciou no país, eu tinha mais recursos para enfrentá-la do que a maioria dos brasileiros, mas não muitos. Acertei com meu sócio para suspendermos o aluguel do escritório na Avenida Paulista, colocamos nossa pequena empresa de publicidade para operar em home office e nos trancamos em casa. No momento em que foi anunciada a suspensão das aulas, parti com a família para Pernambuco. Com muitos parentes médicos e uma rede de apoio local, era melhor do que permanecer em São Paulo, o epicentro da pandemia.

Passei catorze dias em isolamento no Recife, período durante o qual procurei resolver a situação econômica da empresa. A ideia de uma debacle com perda de metade do salário e possível demissão de funcionários me suscitou primeiro o pânico, que alimentou a revolta contra a interrupção da atividade econômica. Porém a possibilidade de perder entes queridos e presenciar cenas dantescas como as que se desenrolavam na Europa logo impôs o pesar, seguido da aceitação.

Ainda assim, nenhum isolamento é absoluto. As despensas, mesmo planejadas para um mês, inevitavelmente se esvaziam e alguém tem que sair à rua. Foi então que percebi que, no bairro de San Martin, onde eu estava hospedado, as medidas de isolamento social impostas pelo governo estadual não estavam sendo cumpridas à risca.

Com 25 mil pessoas e uma densidade demográfica de 12,5 mil habitantes por km² (cerca de quatro vezes a da cidade de Bérgamo, epicentro da doença na Itália), San Martin concentra boa parte de sua vida econômica nos arredores de uma única avenida. Claro que não se podia dizer que essa vida permanecia inalterada. Lojas de vestuário, papelarias, lanchonetes e bares estavam de portas fechadas. Num estabelecimento ou outro, o comerciante deixava a porta de enrolar cerrada até a altura das canelas; quando um cliente se aproximava, abria, vendia rapidamente o produto e baixava a porta novamente, numa tentativa canhestra de driblar a fiscalização.

 

Na única lotérica do bairro, havia uma fila apinhada de gente, como sempre. Beneficiários do Bolsa Família dividiam espaço com moradores que queriam fazer uma fezinha ou simplesmente pagar as contas. Vendedores ambulantes de alimentos continuavam a oferecer seus produtos. Barraquinhas de pamonha, salgados e do famoso guaraná do Amazonas, bem como a feirinha de frutas e verduras, seguiam inalteradas. Nos mercadinhos, o movimento parecia até mais intenso que o normal. Espremido numa fila de umas trinta pessoas para comprar uma barra de queijo coalho, eu era o único paramentado de máscara em todo o estabelecimento. Sentia-me um ET.

Quando chegou a minha vez de ser atendido, vinte minutos depois, perguntei à balconista se o movimento tinha diminuído. Sem qualquer equipamento de proteção fora as luvas, com as quais passava o dia manipulando os frios, ela disse: “Está até mais cheio que o normal.” A moça do caixa, também sem proteção nenhuma, confirmou que o movimento estava ainda mais intenso. Na minha frente, reparei em uma garota carregando um pequeno pedaço de queijo e um naco de mortadela. Ao observar as demais pessoas na fila, tive a sensação de que as compras eram pouco substantivas, pareciam estar racionadas.

Saí do mercadinho, estiquei o passo e fui até uma favelinha próxima, igual a tantas outras encravadas no meio dos bairros da cidade. Também ali havia pouquíssimos sinais de isolamento. Nos becos apertados, as pessoas circulavam normalmente. Uma vendinha atendia os clientes sem nenhum pudor. Três homens idosos conversavam sentados à sombra de um muro. Crianças dispensadas da aula transitavam pelos becos fazendo algazarra. Um rapaz magro de bicicleta e com uma mochila térmica do iFood nas costas cruzou o meu caminho.

Ao chegar em casa, telefonei para alguns amigos que moravam em comunidades em outras cidades do país. Rapidamente confirmei o que parecia ser um padrão: em muitas favelas, a quarentena não vinha sendo vivida como no restante do país. Para compreender o porquê dessa situação, entrei em contato com lideranças de três comunidades brasileiras que conviviam com as mesmas limitações das populações locais. Com a ajuda delas, foi possível coletar para este texto depoimentos de moradores mantendo as prescrições sanitárias.

 Em Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, a União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas) aceitou participar e acionou seu projeto Observatório De Olho na Quebrada. Na Rocinha, no Rio de Janeiro, o porto-riquenho Marcos Burgos, doutor em sociologia pela Universidade da Cidade de Nova York e morador da comunidade desde 2001, centralizou as informações. No Recife, Reginaldo Pereira, coordenador da Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares, encarregou-se da apuração. Esta reportagem é, portanto, uma construção coletiva. Os dados foram apurados no período de 3 a 12 de abril – e entre os entrevistados, ninguém estava recebendo o auxílio emergencial no valor mínimo de R$ 600, aprovado pelo Congresso e pago pelo governo federal a partir de 9 de abril.

 

Favela é termo tão antigo quanto controverso. Designa comumente territórios urbanos heterogêneos, com características sociais, econômicas, demográficas e arquitetônicas que os colocam de alguma forma às margens da sociedade e longe da ação do Estado. Falar de margens significa falar de espaços com um modo próprio de regular sua vida social, diferente do que se entende como projeto de civilização na modernidade – ou seja, com regras impessoais, geridas por uma burocracia profissional, sujeitas ao escrutínio público através dos canais de controle social e de eleições periódicas.

Construir um edifício ou uma casa residencial num bairro de classe média não é a mesma coisa que erigir um barraco numa favela, pois as regras que regem um processo e outro são distintas. Também são diferentes as instituições e os personagens com os quais é necessário tratar, bem como os acordos que precisam ser feitos. As diferenças ultrapassam o plano do urbanismo e da arquitetura. Elas ocorrem também no que diz respeito ao perfil demográfico, à cor da pele, à maneira de regular conflitos e à organização da vida econômica.

As favelas se mantêm “à margem”, mas de fato estabelecem constantes relações com o que está “fora” delas. Elas permitem a organização de um mercado de trabalho com custos relativamente baixos de deslocamento para grandes contingentes populacionais. Além disso, criam um mercado diversificado para serviços que deveriam ser públicos e universais, produzindo vantagens econômicas e políticas. A simples instalação de uma bomba d’água pode ser negociada por votos com os mais variados intermediários locais. Isso permite o funcionamento a baixo custo de um sistema político marcado por diversas formas de clientelismo, desigualdade de recursos e assimetria de informações.

Os limites que definem a favela como marginal se tornam mais estreitos ou mais fluidos conforme a conveniência ou o fluxo em questão. Pois a favela é território de trocas normais em quase todas as esferas de mercado. Mercearias, salões de beleza, bares, lojas de roupa, açougues, papelarias, lan houses, farmácias – todos os empreendimentos que nela funcionam negociam normalmente com os mesmos fornecedores do restante da cidade. Em outras arenas de troca, como a da droga ou da proteção privada, organizações atuam ali para explorar economicamente as atividades e impor sua própria regulação sobre as mercadorias.

Quando a violência que rege as disputas desses mercados informais extrapola seus limites territoriais ou fere a sensibilidade pública, a favela volta a ser tema de debate e intervenção, normalmente aplicada de forma espasmódica, em operações policiais igualmente pouco reguladas. Por vezes, porém, a mobilização política também abala as fronteiras, levando a reformas estruturais, que podem se dar na forma de violentas remoções de pessoas ou de reformas urbanas e habitacionais, que representam conquistas na qualidade de vida dos seus moradores.

Não é raro que a própria favela imponha limites às intervenções, na forma de resistência difusa ou organizada – o que ocorre desde o início do século xx. É conhecida a resistência dos cortiços às reformas urbanas empreendidas no Centro do Rio de Janeiro pelo prefeito Francisco Pereira Passos, na década de 1900. Sabe-se também que essas comunidades foram vistas por muito tempo como um foco de espalhamento de doenças, como registrou uma caricatura da mesma época, em que o sanitarista Oswaldo Cruz limpa com um pente gigante uma favela num morro.

Atualmente a situação é bem outra, porém, mais uma vez, um problema de saúde pública traz a favela ao centro do debate social no Brasil. Segundo pesquisa Datafolha realizada em 7 de abril, 76% dos entrevistados apoiavam o isolamento para lutar contra a covid-19 – e os dados incluem as pessoas das comunidades. Em 20 de abril, o apoio já havia caído para 68%. Porém quais as possibilidades reais de implementar medidas de quarentena nesses locais?

 

Para chegar à casa de Rosângela Paiva, 34 anos, na favela da Rocinha, é preciso sair de um dos becos principais e entrar numa viela estreita que leva a uma pequena construção nos fundos de um prédio de quatro andares. Ela vive com seus dois filhos – Isaque, de 11 anos, e Daniel, de 9 – numa quitinete de 15 m² que fica no Laboriaux, o morro mais alto da favela. A moradia pertence a uma família mais abastada, que aluga oito imóveis semelhantes no local, cobrando entre 400 e 550 reais por imóvel.

Paiva trabalha no setor de limpeza de uma firma de serviços gerais. “Fiquei gripada, me mandaram pra casa. Era para ter carregado o cartão de alimentação no dia 2, mas até agora não pagaram nada”, conta. Ela tem medo de não receber e ser mandada embora. “A dona do apartamento segura o aluguel para mim, mas não sei por quanto tempo. Peguei dinheiro emprestado, mas a pessoa está cobrando direto. Se eu não pagar, quando precisar, não vai ter mais pra me ajudar.”

Ela e os filhos não têm conseguido seguir à risca a quarentena, pois estão sem dinheiro para comprar o básico. “A gente sabe que tem risco, eu falo com os meninos para não saírem, pois um deles tem asma, mas não dá para manter eles presos nesse espaço apertado.” Enquanto a mãe só sai ocasionalmente para comprar mantimentos ou pedir auxílio, os meninos aproveitam o tempo ocioso para fazer algum dinheiro, oferecendo ajuda aos moradores para levar sacos de lixo na hora da coleta.

A coleta de lixo na Rocinha, como em outras comunidades cariocas, não acontece de porta em porta. A maior parte dos moradores tem que descer escadarias, becos e vielas para depositar os sacos de lixo nas caçambas localizadas nas pistas principais que cortam a favela e onde passa o caminhão de coleta da prefeitura. Dependendo de onde se mora, o trajeto pode ser exaustivo. Os dois meninos perceberam haver aí um mercado e uma fonte de renda a ser explorada, que rende dinheiro para um lanche ou um picolé.

Localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro, entre os bairros do Leblon e São Conrado, a Rocinha ocupa uma área de 95 hectares e tem uma população estimada de 69 mil pessoas, segundo o IBGE, e cerca de 100 mil, de acordo com o Censo das Favelas, realizado pelo governo estadual. Depois de Paraisópolis, na cidade de São Paulo, é a favela com a maior densidade demográfica do Brasil, com cerca de 39 mil moradores por km², um pouco mais de dez vezes a de Bérgamo, cidade italiana mais afetada pela pandemia da covid-19. 

Segundo o Censo das Favelas, cerca de 3,5% da população da Rocinha é formada por pessoas com mais de 65 anos – um contingente que pode chegar a 3,5 mil pessoas. Com vielas e becos com menos de um metro de largura, nos quais é impossível manter distanciamento social, a favela possui um número incontável de domicílios extremamente insalubres. São barracos, quitinetes e pequenos cubículos muitas vezes sem ventilação, onde o sol não chega e o calor extremo se alterna com o frio e a umidade, a depender da época do ano e da distância do imóvel da pedra fria, que serve como escora ou como parede para muitas dessas residências. Muitas casas ficam em frente a valões de esgoto que cortam a favela de cima a baixo. Em parte por causa das péssimas condições de moradia, a comunidade é apontada por especialistas como um dos principais focos de tuberculose do país, com taxa de incidência de 372 casos por 100 mil habitantes, onze vezes maior que a média nacional, segundo a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro informou em reportagem do El País.

Como a maior parte das grandes favelas brasileiras, a Rocinha tem uma vida econômica intensa, com mais de 6 500 comércios recenseados. A maioria (90%) é informal. Cerca de 70% são do ramo de serviços; 28%, do comércio; e 2%, da indústria. “Em grande parte, o que se consome aqui, compra-se aqui”, afirma o sociólogo Marcos Burgos, especialista em favelas. “A Rocinha é uma cidade. O que temos visto por aqui é uma circulação ainda muito intensa de pessoas, principalmente nos pontos comerciais. Não se pode dizer que está a mesma coisa de sempre, pois muita gente tem tentado ficar em casa e outros se viram forçados a isso, com a interrupção da atividade econômica. Existem manicures e cabelereiros que fecharam seus salões para atender em casa.”

A partir dos dados do Censo de 2010, a pesquisadora Isabella Nunes Pereira tabulou os dados da Rocinha e concluiu que 14,5% dos domicílios da comunidade são considerados “extremamente pobres” (com renda per capita média de até 204 reais), 48% são “pobres” (até 583 reais) e 18,1% são “vulneráveis” (até 926 reais). “É uma população que não costuma ter poupança”, diz Burgos. “Em termos de vida econômica, boa parte dessas pessoas vivem do pires para a boca, ganhando no dia e na semana aquilo que gastam nesse mesmo período. O dinheiro acabou muito rápido, tem muita gente passando necessidade.”

Alguns grupos e entidades, como o Rocinha Resiste e a Associação Social Padre Anchieta, têm distribuído cestas básicas para as famílias mais necessitadas. Mas a iniciativa não é suficiente para uma população tão grande. “A prefeitura não dá nada, nem o governo do estado”, afirma Burgos.

 

De acordo com o IBGE, em 2010, cerca de 11,4 milhões de pessoas no Brasil viviam em “aglomerados subnormais”, como são chamadas as favelas. São 6.329 comunidades em 323 dos 5.565 municípios brasileiros e cuja renda conjunta movimenta em torno de 120 bilhões de reais por ano, conforme a pesquisa “Economia das Favelas – Renda e Consumo nas Favelas Brasileiras”, dos institutos Data Favela e Locomotiva. Números divulgados recentemente pelas mesmas entidades informam que 60% da população dessas comunidades não têm qualquer poupança para enfrentar o período de isolamento social.

O hábito de viver para suprir necessidades imediatas afeta aquilo que os economistas chamam de “taxa de desconto racional”, isto é, a dificuldade de planejamento para alcançar gratificações de longo prazo. Em outras palavras, caso se peça a uma pessoa que vive em situação de extrema pobreza para optar entre receber 500 reais agora ou 5 mil reais daqui a seis meses é muito provável que ela prefira a primeira opção – é menos dinheiro, mas é imediato.

O próprio ambiente econômico da comunidade influencia a forma como as pessoas lidam com o dinheiro. Em muitas ocasiões, moradores de comunidade usam o excedente da renda em algum reinvestimento característico da economia popular, como a compra de material de construção para fazer um puxadinho ou um barraco que vai render aluguel no futuro. Esse comportamento indica a existência de um tipo de previdência pouco conhecido. Porém, em tempos de paralisação econômica, acaba cobrando seu preço da maneira mais cruel.

Quem depende de uma renda variável não organiza suas compras do mesmo modo que uma pessoa com salário fixo no final do mês. Enquanto o assalariado pode encher a despensa e se garantir por um bom período, quem tem renda variável precisa comprar o que precisa no mesmo dia em que acabou de ganhar. Isso tem impacto direto na circulação de pessoas nos comércios locais, que acaba sendo maior que a de supermercados tradicionais. “Apesar de verificarmos alguma redução na circulação, a Feira do Boiadeiro, que é realizada aos domingos e concentra a maior quantidade de vendedores de frutas, carnes e verduras da Rocinha, estava mais muito lotada”, diz Burgos. “Acho que poucas vezes na minha vida vi tanta gente na rua comprando.” Logicamente, a paralisação da atividade econômica provocou uma perda no ticket médio das famílias. Para a classe média, isso significa redução de produtos com alto valor agregado, como celulares ou eletrodomésticos. Para quem é mais pobre, significa substituir o frango pelo ovo. Ou ter que pedir aos outros, para não passar fome.

Talvez seja apenas à noite que se verifica de fato uma redução significativa das pessoas na Rocinha, apesar da alta concentração de bares, casas de festas e forrós. Isso se deve, porém, ao toque de recolher imposto pelo tráfico de drogas a partir das oito da noite, ordem que circulou à boca miúda na comunidade assim que surgiram as primeiras notícias de interrupção da atividade econômica. Com as redes de venda de drogas parcialmente desorganizadas, em razão das sucessivas guerras pelo controle do tráfico na comunidade, não há uma liderança claramente identificável à qual se possa atribuir a ordem. Mesmo assim, em certos dias da semana é possível ouvir algum bar ou festa interrompendo o silêncio da madrugada. Até o dia 23 de abril, segundo a Prefeitura do Rio de Janeiro, a Rocinha tinha 49 casos confirmados de covid-19, e seis mortes.   

Foto: Fábio Teixeira

 

 Além de tudo que a privação econômica impõe, os moradores de comunidades são forçados a lidar com restrições de natureza ambiental. É o caso de Maria Valéria da Silva, de 40 anos, moradora de Caranguejo Tabaiares, no Recife. Encravada entre os bairros da Ilha do Retiro e de Afogados, na Zona Oeste da cidade, a comunidade tem cerca de 5 mil habitantes e se estende até o rio Capibaribe. Com uma única entrada (para pessoas que não conhecem os atalhos pelos manguezais), a favela vai se tornando mais pobre e adensada de moradias conforme se aproxima da maré, até se transformar numa fileira de palafitas que margeia viveiros de camarão, uma das fontes de renda da população local.

A casa de Silva fica nessa pequena faixa de habitações mais precárias. Feita com madeira de baixa qualidade, abriga também seu marido e seis crianças. “Às vezes enche de água, como aconteceu ontem mesmo. A maré sobe, o cheiro é muito ruim, os meninos não podem pisar no chão. Tem também esses ratos que ficam por aí”, ela conta. A temperatura do lugar pode passar de 35º nos dias mais quentes. Também há muitos mosquitos durante a tarde e no final do dia. No córrego que passa por baixo da casa, separado do rio pela fileira de viveiros de camarão, há lixo acumulado. Quando questionada se tem conseguido fazer a quarentena, Silva responde que ela e os filhos até conseguem, mas não o marido. “Ele vive de bico. Antes de tudo parar, conseguia fazer 250 reais por semana. Agora, só consegue serviço dia sim, dia não. Eu ganho só 250 reais por mês, do Bolsa Família. Se ele deixar de sair, a gente vai passar fome.”

Viver de “bico”, estar “na atividade” ou “na correria” são expressões comumente usadas nas favelas para quem tira sua renda de atividades informais. É o caso de trabalhadores que atuam como auxiliares de serviços gerais, vendedores ambulantes, camelôs, engraxates, carregadores, diaristas, caseiros, pintores, entre outros trabalhos precários, sem qualquer garantia jurídica ou direito trabalhista. Em muitos casos, os que conseguem receber algum benefício, como o Bolsa Família, usam o recurso como capital de giro para multiplicar a renda. O valor é convertido em amendoim para vender no sinal, ou em produtos químicos que podem ser manuseados em casa para fazer desinfetante, que é vendido de bicicleta na própria comunidade ou nas redondezas.

Na palafita onde vive a família de Silva, a geladeira está quebrada faz meses e não há como armazenar muitos alimentos. “A gente não tem uma fruta para dar para os meninos, um lanche. Eles pedem. Mas vou fazer o quê?”, diz. O espaço da casa é muito apertado para que os filhos fiquem ali o dia inteiro. Assim, as crianças brincam próximas da maré, sobre as tábuas de madeira, ou nos becos e vielas próximos.

 “A circulação do pessoal aqui dentro continua a mesma, mas muita gente que ganhava dinheiro fora, principalmente trabalhadores informais, parou de sair”, afirma Reginaldo Pereira, coordenador da Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares. Com dimensões inferiores às da Rocinha, a favela tem uma dinâmica econômica interna menos intensa. Há bares, bodegas e pequenas mercearias, mas o grosso do comércio de frutas, verduras e carne é realizado na Feira de Afogados, a alguns quilômetros dali. “Você pode visitar a feira a qualquer hora do dia e, a bem dizer, está do mesmíssimo jeito que antes da quarentena. É uma multidão de gente se apertando todo dia, para depois voltar para cá”, conta Pereira. A ONG que ele coordena realiza atividades educativas e recreativas voltadas para crianças e jovens, mas planeja expandir para atender idosos. “Nós somos uma das comunidades mais antigas do Recife, já são mais de cem anos aqui. Por isso mesmo, temos uma população idosa grande”, diz. “Estamos muito preocupados, mas é muito difícil manter o povo dentro de casa.”

Edilson Moura, de 33 anos, é um dos que mantêm o comércio aberto, a despeito da orientação das autoridades. Dono de uma pequena oficina mecânica especializada em refrigeração automotiva, ele ganhava antes da pandemia em torno de 3 mil reais por mês, abatendo todas as despesas operacionais. “Agora tem menos carro andando na rua. E quem quebra o carro não vai gastar dinheiro com conserto, porque precisa pagar o essencial. Desde que esse negócio começou, se eu tirei 500 reais foi muito. A gente tem medo de se contaminar, mas, se eu não abrir, ninguém vai me dar comida”, afirma. Com a queda nos rendimentos, Moura está limitando ao básico as compras da família – ele, a mulher e o filho. “Esse corona não veio só para atrapalhar a mim. Mas tem muita gente pior do que eu.”

Desde o dia 27 de março, a prefeitura do Recife iniciou a distribuição de cestas básicas quinzenais para as famílias dos alunos da rede municipal de ensino, além de um kit de higiene com água sanitária, sabão e desinfetante. Foi a primeira medida a ter algum impacto na vida dos moradores de comunidades, antes do pagamento do auxílio de 600 reais pelo governo federal. “É uma medida importante, porque muita criança vai para a escola sem nada na barriga e não come depois que chega em casa, porque comida não tem”, diz Pereira. “O problema é que esse fardo não dá para quase nada. São 2 quilos de arroz, 2 quilos de feijão, meia bandeja de ovos, às vezes um pedaço de charque... Para quinze dias, café, almoço e jantar de uma família inteira?” As famílias dos alunos matriculados nas escolas estaduais, por sua vez, ainda não estão recebendo qualquer tipo de ajuda.

No final da tarde, grande parte dos moradores de Caranguejo Tabaiares costuma se aglomerar nos campinhos de futebol. O menor deles, próximo do canal, é um dos mais disputados. O campo, localizado num terreno amplo à beira do canal, é resultado da luta da comunidade por melhores condições de vida e moradia para quem vive nas palafitas. “A prefeitura diz sempre que não tem condição de construir porque aqui é terreno de mangue, mas a gente viu eles erguerem duas torres de apartamentos do lado do estádio de futebol, invadindo área de preservação ambiental, e ninguém nunca teve medo de um desabamento”, diz Pereira.

Há 23 anos a comunidade foi reconhecida pela prefeitura do Recife como Zona Especial de Interesse Social (Zeis). A classificação, segundo a lei municipal, significa que é reconhecida como assentamento habitacional consolidado de baixa renda, carente de infraestrutura e surgido espontaneamente – o que concede aos moradores o direito à permanência no local, que deve ser objeto de regularização fundiária. Até hoje, porém, o processo está parado e não foi feita nenhuma reforma urbana substantiva.

Para Sarah Marques, do coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste, há uma preocupação que a pandemia leve a um retrocesso. “A gente vê uma situação de exceção se formando. Quem não perdeu a renda que tinha está sendo forçado a baixar a cabeça para condições absurdas”, ela diz. “Uma moradora que trabalha de doméstica se viu forçada a aceitar a proposta de levar a filha para a casa da patroa, para passarem juntas a quarentena, com um pequeno acréscimo do salário. E foi para um bairro de risco, já que essa doença começou pegando os ricaços da cidade. O outro filho dela, adolescente, teve de ficar na casa de parentes.”

Também é motivo de preocupação para Marques que autoridades e imprensa estejam dizendo que a comunidade representa um problema para o isolamento na cidade. Segundo ela, isso pode dar vazão, como aconteceu em outros momentos da história das moradias populares, a discursos autoritários que neguem às comunidades o direito de viver onde vivem. “A palafita é um tipo de moradia centenária. Nós aceitamos que é um problema sanitário, mas ela reflete um tipo de vida, uma cultura de comunidade ribeirinha, que vive do rio, da pesca”, diz. “Não adianta retirar o povo da palafita e levá-los para longe, dando 200 reais para pagar o aluguel, como faz a prefeitura do Recife, ou então para uma unidade habitacional distante do local de trabalho e de convivência. A comunidade precisa e pode ser urbanizada, não removida daqui, como se não tivesse direito de existir.”

Assim como a biblioteca comunitária, o coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste tem usado recursos de doações para suprir as demandas das famílias mais necessitadas. “Fazemos o que dá para fazer, inclusive tirando do nosso próprio bolso. Porque todo mundo aqui é morador, somos uma comunidade. Não dá para comer tranquilo sabendo que o vizinho passa fome”, afirma Marques. Até meados de abril, o coletivo tinha conseguido distribuir mais de 150 cestas básicas, com kits de higiene. Tem também lutado para que a prefeitura e o governo do estado contribuam. “A sociedade civil nunca vai dar conta de tudo isso sozinha.”

A ativista acredita que o auxílio de 600 reais aprovado pelo Congresso pode ter algum impacto positivo, mas não vai resolver a situação de todas as famílias caso a situação se agrave, mesmo se o benefício puder chegar a 1 200 reais, valor previsto para mães que criam os filhos sozinhas. “Essa quantia dá para duas pessoas. Mas e a mãe solteira que não pode trabalhar e tem três, quatro meninos em casa? Temos que ter uma política de assistência social bem desenhada para os casos mais graves, não só repasse de uma verba do governo federal.”

 

Em Heliópolis, em São Paulo, o Observatório de Olho na Quebrada fez uma pesquisa sobre os impactos do coronavírus nas famílias logo no início da pandemia. “O Observatório foi criado com o objetivo de produzir informação de qualidade sobre a favela para a proposição de políticas públicas. A gente sempre lidou com uma lacuna muito grande de dados. Não sabemos com segurança nem mesmo quanta gente tem no território”, diz Cleide Alves, presidente da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas), entidade que sedia o projeto do Observatório. Segundo o Censo de 2010 do IBGE, vivem 65 mil pessoas em Heliópolis, mas a subprefeitura de São Paulo fala em 180 mil. “Acreditamos que pode ter mais de 200 mil”, afirma Alves.

Os dados do Observatório foram coletados por meio de um formulário online, respeitando as medidas de isolamento social. Entre os dias 27 e 29 de março, 653 formulários foram respondidos. A pesquisa revelou que 55% da população entrevistada vivem em residências com quatro pessoas ou mais. Em 19% das moradias, há pessoas com mais de 60 anos. A renda mensal de 63% das famílias é de até dois salários mínimos. Desde o início da pandemia, 68% já tiveram perda de renda.

Nelson Luís Magalhães, de 43 anos, que trabalha como motorista de aplicativo, é um dos que perderam renda. “Esse período está sendo muito difícil, por vários motivos. Entre eles, porque eu sou do grupo de risco, diabético, tenho que trabalhar com os equipamentos de proteção: máscara, luva e álcool gel. Além disso, a demanda de chamada de aplicativos caiu muito”, diz. Na falta de qualquer benefício do governo ou garantia trabalhista, Magalhães é mais um dos moradores de Heliópolis que se veem forçados a se expor ao risco de contágio, apesar de estar consciente da doença e de sua vulnerabilidade. “Nós não temos o apoio da empresa de aplicativos. As empresas não se deram nem ao trabalho de diminuir as taxas que cobram dos motoristas. São tempos difíceis. Está difícil levar o alimento para dentro de casa, exceto quando tem algum familiar ou amigo que ajuda.”

 As informações obtidas por pesquisas como a do Observatório orientam as ações da sociedade civil na comunidade, mas também tem um significado político. Segundo Alves, 52 projetos estão sendo realizados pelas Unas, envolvendo mais de setecentas pessoas. As iniciativas incluem centros de assistência social, de educação infantil e projetos de assistência jurídica. “Mas não podemos expor todo mundo. As casas são muito coladas umas nas outras, várias vielas com menos de um metro.” No total, 10 mil famílias são atendidas pelos projetos da entidade, que têm arrecadado doações para distribuir cestas básicas e kits de higiene para as famílias mais necessitadas.

Heliópolis começou como um assentamento provisório criado pela prefeitura de São Paulo, em 1971, para abrigar 150 famílias de uma favela da Vila Prudente. Em 1978, novos alojamentos foram construídos para famílias removidas da favela Vergueiro. Ao mesmo tempo, outros barracos foram sendo erguidos pelos moradores do local, com a expansão das famílias, e por pessoas que chegavam de fora. Situada a apenas 8 km do Centro de São Paulo, a comunidade é um local privilegiado para os que trabalham na cidade, pois eles não precisam enfrentar longas horas de deslocamento, como os trabalhadores que vivem na periferia.

Com o tempo, o que era provisório tornou-se definitivo. Em Heliópolis, as ocupações logo cederam espaço para a grilagem, primeiro mercado ilegal a contribuir para o aumento da violência. Essas disputas só arrefeceram a partir do final dos anos 1980, quando o poder público, pressionado pela população local, passou a interferir de maneira mais contundente. Algumas intervenções urbanas trouxeram avanços significativos, como a canalização de córregos e a construção de edifícios habitacionais.  

“Outro dia, fomos distribuir 2 mil cestas básicas, que conseguimos numa doação, mas o pessoal começou a se acumular tanto, com a fila dando volta nos becos, que tivemos que desenvolver toda uma logística para distribuir de casa em casa, para evitar o contágio”, relata Reginaldo José Gonçalves, de 44 anos, coordenador do Observatório, que é também DJ e trabalha na Rádio Comunitária de Heliópolis. Junto com as campanhas de comunicação sobre a pandemia e a importância da quarentena, a rádio tem se dedicado a combater fake news, como boatos de mortes na comunidade, a fim de evitar pânico e desordem social. Heliópolis integra o distrito administrativo do Sacomã, onde até o dia 17 de abril havia 127 casos e 36 mortes. Segundo a líder comunitária Cleide Alves, pelo menos dois casos suspeitos da doença. 

 “No início, tivemos uma boa adesão à quarentena, mas depois das falas do presidente começamos a ver mais gente abrindo seu comércio, circulando”, conta Gonçalves. “Os jovens, principalmente, acham que não é um problema deles. Até o baile, que tinha sido interrompido, voltou a funcionar. O dinheiro também está acabando para muitas famílias.” Junto com o rápido empobrecimento das famílias, o preço de gêneros básicos e de primeira necessidade tem aumentado. “Tivemos de fazer uma campanha forte aqui para lidar com o problema do gás. Comerciantes da própria comunidade estavam cobrando preços extorsivos, 120 reais por um botijão. Foi uma luta grande, pressão popular mesmo, para que voltassem a praticar o valor normal de mercado, em torno de 70 ou 80 reais.”

Assim como outras lideranças, o coordenador do Observatório espera que o poder público apresente políticas assistenciais mais efetivas, contribuindo igualmente para conscientizar a população. “A gente sabe que uma hora pode ser que tenham de fiscalizar. Nossa luta sempre foi para ter o mesmo tratamento do restante da cidade, nos direitos e nos deveres. Porém, enquanto não se tem uma estrutura mínima, sabemos que a coisa pode complicar se apertarem demais o povo.”

Enquanto as políticas públicas não se efetivam e a doença acerca pouco a pouco, a favela reage com os recursos de que dispõe. A deterioração da situação econômica avança mais rápido nela do que no restante da cidade, com consequências sociais imprevisíveis. A temperatura só cresce nesse caldeirão de apreensão, privação e medo.[1]

*

[1] As associações citadas nesta reportagem recebem doações para atender as pessoas mais vulneráveis nas favelas. Para quem quiser contribuir, eis os dados de cada uma:

Unas - União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região. CNPJ: 38.883.732/000.1-40. Caixa Econômica Federal (104). Agência: 3124. Conta Corrente: 376-7.

Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares. Razão Social: Clube Idosos Unidos Venceremos. CNPJ: 05.699.639/0001-20. Banco do Brasil. Agência: 1833-3 / Conta Poupança: 24.332-9. Variação: 51.

Associação Rocinha Resiste – Magda Gomes da Silva. CPF: 15242953705. Banco Santander. Agência: 4688. Conta Corrente: 01076096-5. (N. do A.)

Eduardo Matos de Alencar (siga @alencaramatos no Twitter)

Escritor, sociólogo e analista político. Autor do livro “De quem é o Comando? O desafio de governar uma prisão no Brasil” (Record, 2019).

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