questões cinematográficas

Vinte Anos – a impiedade do bonequinho

Críticos condenam o documentário, sem necessidade, no dia da estreia

Eduardo Escorel
09ago2018_12h36
Pouco importa se o índice de leitura dos jornais impressos seja baixo, embora estável. Ser condenado assim, logo de saída, é doloroso
Pouco importa se o índice de leitura dos jornais impressos seja baixo, embora estável. Ser condenado assim, logo de saída, é doloroso FOTO: DESCRIÇÃO

No dia da estreia, para a diretora ou diretor é duro ter seu filme acolhido pelo bonequinho do jornal O Globo dormindo, escarrapachado na poltrona. Críticas negativas, mesmo quando devastadoras, podem ferir, mas fazem parte do jogo. Não há, ou não deveria haver, do que reclamar. Uma vez exibido, o filme se torna de domínio público e está sujeito a reações imprevisíveis, desfavoráveis ou não. Difícil de digerir, porém, é a condenação in limine – antecipada, definitiva, irretorquível – expressa por meio dos traços sintéticos do famoso bonequinho octogenário.

Pouco importa se o índice de leitura dos jornais impressos seja baixo, embora estável, e não se saiba sequer se a opinião dos críticos da imprensa diária influencia, e em que medida, na escolha de qual filme o espectador vai assistir – pouco importa. Ser condenado assim, logo de saída, é doloroso.

Acredito que críticos e editores dos segundos cadernos saibam disso. Por que preservam, então, esse hábito tão cruel? Será por sadismo? Quero crer que não. Mas qual seria a finalidade dessa sentença fulminante? Em cumprimento a um serviço público, advertir os leitores de uma ameaça contra a qual devem se proteger? Se essa for a razão, a postura dos comentaristas não passará de mero exercício de onipotência temperado de paternalismo.

De forma geral, as estreias da semana representam algum perigo, equivalente a uma dessas pandemias que nos envolvem? Não parece ser o caso. Por que, então, condenar um filme no dia da estreia, de forma tão categórica e esquemática, por meio de um bonequinho estatelado?

Trata-se de prestação de serviço ao leitor, o editor dirá. Mas essa não será uma concepção anacrônica que pressupõe a existência de uma hierarquia entre quem escreve e quem lê, esse último carecendo de alguém que o leve pela mão ou o proteja?

Essa foi minha reação ao ver, na quinta-feira retrasada (26.7.18), a versão atualizada do bonequinho criado por Luiz Sá, em 1938, escanchado na poltrona, ao lado das cinco linhas assinadas por Susana Schild, advertindo que o documentário Vinte Anos, de Alice de Andrade, tem “um desenvolvimento errático” e que dois “filmes cubanos [sic] recentes […] conseguem, de forma mais integrada e aprofundada, unir o pessoal e o social e refletir sobre mudanças”.

Era de madrugada, e fazia frio em Montevidéu, quando li isso na edição digital. Estava diante da imensidão das águas do rio da Prata e não tinha assistido ao filme da Alice. Mas estranhei a comparação feita pela Susana entre um documentário e dois filmes de ficção, o que equivale a comparar laranjas e maçãs. Ainda mais que um deles (Retorno a Ítaca), ao contrário do que ela escreveu, não é cubano, sendo dirigido pelo francês Laurent Cantet.

No dia seguinte, já de volta ao Rio, li no suplemento Rio Show o comentário mais extenso da Susana no qual ela começa dizendo que “a ideia [do filme] era promissora” para, em seguida, descrever a premissa do projeto e os procedimentos adotados para realizá-lo. Apesar de reconhecer o “evidente envolvimento afetivo de Alice com a ilha [Cuba] e com os personagens”, afirma que “o documentário construído ao longo de alguns anos tem um desenvolvimento errático”. E depois da comparação já mencionada com os dois filmes “cubanos” [sic] recentes, conclui com o seguinte parágrafo: “Como maior atração, a paisagem que parece congelada no tempo – a natureza exuberante em contraste com construções degradadas – e cubanos orgulhosos que preservam largos sorrisos.”

Chegara de volta na véspera, à noite, estava cansado, ainda não assistira ao filme e confesso que fiquei confuso. O filme resultaria de uma “ideia promissora” e seria feito com “evidente envolvimento afetivo”, mas teria “desenvolvimento errático” e sua maior atração seria “a paisagem que parece congelada no tempo – a natureza exuberante em contraste com construções degradadas – e cubanos orgulhosos que preservam largos sorrisos”.

“Desenvolvimento errático” à parte, o comentário parecia mais elogioso do que restritivo. Uma “ideia promissora” feita com “envolvimento afetivo”, mostrando “uma paisagem que parece congelada no tempo” mereceria tamanha falta de compostura do bonequinho, dormindo, desabado na poltrona? Não caberia indicar, ao menos, que o bonequinho assistira ao filme atento?

Sábado passado (4.8.18) fui, finalmente, assistir à Vinte Anos às 16 horas, a única sessão diária no Rio. Depois de uma semana em uma sala de 54 poltronas e um lugar para cadeirante, o filme passara a ser exibido em um cinema ainda menor. Dos 33 lugares, além do meu, catorze outros estavam ocupados. Se, em números absolutos eram poucos espectadores, em termos proporcionais a frequência não era das piores – representava taxa de ocupação de 42,42%, superior à média de filmes de mais sucesso.

Nos quatro primeiros dias em exibição (26 a 29 de julho), segundo o Boletim Filme B, Vinte Anos foi visto por 267 pessoas em cinco salas – resultado constrangedor que evidentemente não pode ser atribuído ao bonequinho adormecido. Ainda assim, alguma influência ele terá tido. Mais decisivo, como acontece com tantos filmes brasileiros, parece ser a falta de sintonia entre oferta e demanda, ou, em outros termos, entre produto e consumidor.

Concordo com Susana quando escreve que Vinte Anos parte de uma ideia “promissora”, qual seja, a de tentar captar a sociedade cubana em via de ser reformada, conforme a narração em off  do filme afirma logo no início. Mas, de fato, não me parece que o filme consiga cumprir esse objetivo ambicioso, para o qual teria sido preciso um período de gravação mais longo. Também achei justo o comentário de Susana, segundo o qual o desenvolvimento de Vinte Anos é “errático”, mais no sentido de ser desorganizado, e menos no de ser imprevisível, o que poderia ser uma virtude.

Vinte Anos resulta de flagrantes dos momentos em que as gravações foram feitas, sem chegar, porém, a tornar a contraposição entre os casais em épocas diferentes, e a passagem do tempo, particularmente expressivas.

Também decepciona, após os calorosos, mas breves, reencontros de Alice e seus personagens, a ausência de maior interação dela com eles. Não chega a se estabelecer uma relação afetiva visível entre a diretora e os casais. Vinte Anos, mais do que tudo, limita-se a observar, o que resulta insatisfatório.

Em resumo, não se trata de tolher o direito de crítica, mas de não estigmatizar um filme com o bonequinho, sem necessidade, no dia da estreia.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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